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Em 2017, 56 detentos morreram em confronto entre grupos rivais na mesma penitenciária onde ao menos 57 pessoas morreram entre ontem e hoje

Portão principal do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj)
Marcelo Camargo/Agência Brasil - 23.1.17
Portão principal do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus, Amazonas, onde ao menos 57 detentos foram mortos em dois dias

A morte de ao menos 57 detentos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus, neste domingo  e nesta segunda-feira, expõe a disputa de poder dentro da Família do Norte, principal facção da região, segundo promotores que investigam e investigaram sua atuação. Os  massacres ocorreram na mesma penitenciária onde, em 2017, 56 detentos morreram durante confronto entre esse grupo criminoso e o Primeiro Comando da Capital (PCC), que tentava se infiltrar no estado.

O setor de inteligência do Ministério Público atribui as mortes a um racha local entre integrantes de uma facção local. Criada em 2007, a Família do Norte é a maior organização
criminosa do Amazonas . No centro da briga, estão os fundadores José Roberto Fernandes, o “José Compensa”, e João Pinto Carioca, o “João Branco”.

Os 15 mortos na manhã de domingo  seriam ligados ao grupo comandado por João Branco. De acordo com o mesmo promotor, um terceiro grupo da própria facção está plantando a
discórdia entre ambos, com o objetivo de tomar o poder. Já nesta segunda-feira, foram encontrados ao menos 42 presos assassinados dentro do presídio.

Segundo um promotor do Amazonas, ao contrário da carnificina ocorrida no estado, em janeiro de 2017, desta vez os presos não filmaram nem fotografaram os corpos – prática usada para demonstrar poder. Isso porque, desde a matança anterior, o acesso a celulares e armas dentro dos presídios está mais rigoroso.

"Um celular custa R$ 10 mil dentro das unidades, assim como uma arma. Desde a carnificina anterior, o controle de entrada está muito maior", afirmou o promotor.

Para o promotor Edinaldo Medeiros, responsável por denunciar 216 detentos que teriam participado do massacre de 2017 , as mortes deste final de semana repetem a mesma lógica de
controle da penitenciária como símbolo do poder sobre o crime no Amazonas. Naquela ocasião, no entanto, uma das prioridades dos criminosos era a exposição das mortes para causar pânico nos rivais paulistas e nas forças de segurança.

"Em 2017, foi uma resposta para dizer quem mandava. Foi um recado. A brutalidade e a exposição eram um fator importante", disse.

De acordo com a Seap, no massacre deste domingo, os presos morreram por asfixia e perfuração . Os detentos usaram as próprias mãos para sufocar seus rivais. Em alguns casos,
mataram com objetos perfurantes, como o cabo afiado de escovas de dentes.

As investigações de 2017 apontaram que a facção possuía três líderes, todos detidos em presídios federais. Além de João Branco e José Compensa, o grupo também era comandado por "Gelson Carnaúba". A participação de Gelson na briga interna, contudo, não está confirmada.

Embora os três permaneçam em penitenciárias federais, as investigações afirmam que as lideranças internas do Compaj respondiam ao comando superior. Há dois anos, a ordem de
execução de massacre também partiu de "José Compensa", chamado de "chefe de todos chefes".

Na lógica do crime no estado do Amazonas, o Compaj é essencial na disputa pelo comando do crime no estado. Em 2017, acusados pelo massacre no complexo destacaram às autoridades
policiais a importância do comando do complexo.

O grupo que o domina, em geral, garante a supremacia sobre os demais presídios no estado. Em 2017, detentos que foram ouvidos por policiais após o massacre afirmaram que "Quem
está na frente do Compaj, está na frente da cidade'.

agentes da Força Nacional
Fernando Frazão/Agência Brasil - 2.10.2016
Em 2017, agentes da Força Nacional foram encaminhados para Manaus após o massacre no mesmo complexo

Durante a visita

matança do domingo foi durante o horário de visitação na unidade, diante dos familiares. A briga entre os presos no Compaj, na BR-174, terminou com 15 mortos. O conflito foi
confirmado pela Seap às 12h30 (horário local). O Instituto Médico Legal (IML) foi acionado para realizar a remoção de corpos, e três viaturas foram encaminhadas à unidade.

O secretário de Administração Penitenciária, coronel Marcos Vinicius Almeida, tratou o episódio como uma “briga de internos”, e não como uma rebelião. Ele disse ainda que não
houve reféns, agentes feridos ou fuga de detentos. Almeida não informou oficialmente a causa da briga. Segundo ele, uma investigação foi aberta para apurar as razões da matança. Enquanto isso, as visitas à unidade estão suspensas.

O secretário de Segurança Pública, coronel Louismar Bonates, determinou reforço em outras unidades do sistema, por medida de precaução. As forças policiais do estado estão em
alerta.

Para Edinaldo Medeiros, que atuou na investigação do caso de 2017, o massacre indica que os dois casos estão relacionados porque refletem que o sistema prisional do estado
continua sendo dominado pro facções criminosas. Segundo o promotor, mesmo a paz que durou entre 2017, com a hegemonia da facção local sobre a facção paulista que tentou se
infiltrar no estado, foi pouco duradoura.

"Continua a facção no comando e as disputas para quem se mantiver ali dentro. Se nada for feito, vai continuar ocorrendo. Não adianta um apaziguamento com a dominação de um
grupo sobre o outro. Essa ocorrência só acende o sinal vermelho para demonstrar que as coisas continuam", ponderou.

Apesar das investigações, o secretário Almeida disse que a motivação está sendo investigada. "O Estado não reconhece facções. Estamos investigando o que teria motivado isso. As
câmeras internas registraram todos os crimes e vamos encaminhar as informações à Justiça", revelou sobre o massacre em presídio no Amazonas .