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"Nem na minha casa eu posso entrar sem ser mal tratada e questionada", diz a jovem, que teve que reafirmar – e provar – que era residente em Pinheiros

Isabella Barboza sofreu racismo quando tentava entrar no prédio onde mora, no bairro de Pinheiros, em São Paulo
Reprodução/Facebook
Isabella Barboza sofreu racismo quando tentava entrar no prédio onde mora, no bairro de Pinheiros, em São Paulo

Uma estudante de Jornalismo foi abordada por dois homens antes de entrar em seu próprio apartamento no bairro de Pinheiros, bairro de classe média, na zona oeste da capital paulista, no último sábado (24). Constrangida, ela teve que responder – e provar – a eles que morava, sim, naquele prédio. O motivo para o constrangimento? Racismo, pois a jovem é negra.

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"Nem mesmo na minha própria casa me respeitam", resume Isabella Barboza, em seu relato publicado no Facebook. Na rede social, a jovem de 24 anos conta que quase foi barrada pelos dois homens brancos, um de "70, 80 anos e o outro de uns 40 anos" de idade, por racismo , porque eles não pareciam acreditar que uma negra morava no mesmo edifício que eles.

"Ao entrar no prédio junto com eles, onde fica minha casa e que pago um aluguel nada barato, fui questionada se morava no prédio, pelo senhor de mais idade – um homem grosso e que ainda tentou fechar o portão em cima de mim. Respondi que sim", conta a vítima. "Mesmo assim ele se posicionou na minha frente, impedindo minha passagem. Detalhe: eu estava mais arrumada que a própria Michelle Obama", ressalta.

Segundo o depoimento de Isabella, o prédio em que ela vive há dois meses não tem portaria, sendo apenas necessária uma mesma chave para abrir um portão da rua e um outro interno. A chave, no caso, estava nas mãos de Isabella, que entrava no edifício junto aos dois senhores e um amigo dela.

"Ele então, não satisfeito, me pediu prova que eu morava ali e que mostrasse a chave. Perguntou meu apartamento. Pediu para eu abrir o segundo portão, para ver se eu tinha mesmo a chave", relata a estudante. "Tudo isso na maior postura grosseira, sempre me olhando de cima a baixo e fazendo cara de nojo para mim, principalmente", disse ela.

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"Quando nós negros falamos em rever seus privilégios, é exatamente isso. Nem na minha casa, que batalho tanto para manter e pagar, eu posso entrar sem ser mal tratada e questionada. Nem no conforto do meu lar eu sou poupada do racismo alheio. Nem mesmo na minha própria casa me respeitam", reflete a jovem.

Desigualdade estimula o racismo

Caso de racismo aconteceu em um bairro em que apenas 7% da população residente se declara preta ou parda
Divulgação/Mapa da Desigualdade
Caso de racismo aconteceu em um bairro em que apenas 7% da população residente se declara preta ou parda

O episódio aconteceu em um bairro onde, de acordo com o IBGE, apenas 7% dos moradores são negros. Porcentagem oposta àquela encontrada em bairros periféricos do município de São Paulo – como Parelheiros, Grajaú, Jardim Ângela, Jardim São Luís, Cidade Tiradentes, Guaianazes, Itaim Paulista, Brasilândia e Anhanguera –, onde mais de 50% da população residente é preta ou parda .

Também na rede social, Isabella comenta "quantas vezes ouvi que sou privilegiada pela pele mais clara e por morar em Pinheiros ". Mas, ela mesma, acrescenta no seu depoimento que, não importa o dinheiro que tenha ou o quanto se arrume: sempre o que sente que importa é a cor da sua pele.

"Não importa o dinheiro que eu tenho, nem que eu estava mega bem arrumada. O que importou para eles foi a cor da minha pele, 'Como uma neguinha vai morar no mesmo prédio que eu?' Vou morar sim, querido. Vou morar, vou ocupar e vai ter preto em todo lugar", encerra.

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Mais tarde, a jovem, que teve o depoimento viralizado no Facebook, publicou na rede social outra reflexão a partir do preconceito que vive na pele. "Ser preta é foda: você ou fica conhecida porque foi presa ou porque sofreu racismo , nunca pelo seu trampo", conclui. Isabella hoje trabalha como assistente administrativa de um portal jurídico. 

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