Exército de Terracota que guarda a tumba do primeiro imperador da China foi descoberto por acaso
Felipe Espinosa Wang, Rayanne Azevedo
Exército de Terracota que guarda a tumba do primeiro imperador da China foi descoberto por acaso

Durante muito tempo, acreditou-se que o Exército de Terracota teria sido produzido exclusivamente por homens. No entanto, uma nova pesquisa questiona essa suposição e sugere que, entre aqueles que produziram as figuras que guardam a tumba do imperador chinês Qin Shi Huang há cerca de 2,2 mil anos, também podem ter estado mulheres e menores de 15 anos.

A história moderna dos guerreiros começa em 1974, quando agricultores que escavavam um poço a cerca de 1,5 quilômetro da tumba do imperador encontraram fragmentos de figuras em tamanho real. A descoberta levou à identificação de um imenso exército subterrâneo que, segundo o site especializado Science Alert, reúne cerca de 8 mil guerreiros, 130 carros com 520 cavalos e outros 150 cavalos de cavalaria. E uma parte significativa da necrópole ainda permanece embaixo da terra.

Desde então, as pesquisas têm se concentrado principalmente em entender como as figuras foram produzidas. Algumas hipóteses sustentavam que diferentes oficinas fabricavam braços, pernas e cabeças separadamente para depois montar as estátuas. Outras, baseadas na distribuição das esculturas e em suas marcas, apontavam para oficinas responsáveis pela produção de figuras completas.

As inscrições também ajudaram a reconstruir essa organização. Elas permitiram distinguir entre oleiros "reais", que utilizavam o caractere "Gong", e oleiros locais. Além disso, análises da argila revelaram diferenças entre as peças marcadas como "Gong" e "Xianyang", o que sugere que podem ter sido produzidas em duas oficinas distintas.

Apesar desses avanços, a idade e o sexo das pessoas que trabalharam a argila continuavam sendo praticamente um mistério.

Impressões digitais na argila dos guerreiros

Agora, na tentativa de solucionar essa incógnita, os pesquisadores encontraram uma pista nas próprias figuras ou, mais especificamente, nas impressões digitais que seus criadores deixaram involuntariamente ao manipular a argila ainda úmida. Uma espécie de assinatura biológica que sobreviveu por mais de dois milênios.

Segundo o estudo publicado no Journal of Cultural Heritage, para decifrar essa pista, a equipe liderada pelo arqueólogo Xiaoxi Li, do Museu do Mausoléu do Imperador Qin Shi Huang, analisou 79 impressões digitais bem preservadas em 36 guerreiros da unidade T23 da vala 1.

As marcas apareceram em diferentes partes das figuras, desde as cabeças até um dos pés. De acordo com o Science Alert, 73 eram impressões superficiais produzidas durante a moldagem, modelagem e montagem das peças. As outras seis se formaram quando elementos decorativos previamente preparados, principalmente rebites de armaduras e cintos, foram pressionados sobre a argila.

Para obter pistas sobre a idade e o sexo dos artesãos, os pesquisadores analisaram a distância entre as cristas das impressões digitais, que aumenta ao longo do crescimento e costuma ser ligeiramente maior em homens adultos do que em mulheres. Ainda assim, essas medidas podem se sobrepor entre diferentes grupos, como adolescentes e mulheres adultas.

Para contornar essa dificuldade, os pesquisadores não tentaram atribuir uma idade e um sexo a cada impressão digital. Em vez disso, utilizaram um método estatístico que calcula probabilidades para estimar qual proporção das impressões poderia pertencer a cada grupo, levando em conta a incerteza.

As impressões apontam para a participação de mulheres e menores

A análise dessas impressões sugere que a fabricação das figuras pode ter contado com uma força de trabalho mais diversa do que se supunha. Segundo as estimativas do modelo, 45% das impressões analisadas pertenceriam a homens adultos, 32,7% a mulheres adultas e 22,3% a menores de 15 anos. Esse limite etário foi estabelecido com base em textos jurídicos da dinastia Qin sobre responsabilidade legal conforme a idade.

A possível participação de menores ganha plausibilidade quando se analisam os registros históricos. O Science Alert lembra que textos da Academia Yuelu, preservados em tábuas de bambu, descrevem um sistema de aprendizagem no qual um aprendiz concluía sua formação em um ano, enquanto um novo artesão levava dois anos.

Os pesquisadores consideram possível que os aprendizes participassem das tarefas menos complexas, como adicionar ornamentos às armaduras, enquanto os artesãos mais experientes ficavam responsáveis pelos trabalhos mais exigentes.

Também não seria surpreendente que houvesse mulheres nessas oficinas. Inscrições encontradas em objetos da dinastia Qin já mencionavam mulheres adultas, meninas e meninos envolvidos na produção artesanal sob supervisão estatal. A nova descoberta abre, assim, a possibilidade de que essa diversidade também estivesse presente na fabricação do Exército de Terracota.

As limitações do estudo

Ainda assim, os próprios autores pedem cautela. Os percentuais refletem a distribuição das impressões analisadas, não a proporção real de trabalhadores. Alguns artesãos podem ter deixado várias marcas, enquanto outros não deixaram nenhuma. Além disso, os menos experientes talvez tenham deixado mais impressões na argila do que aqueles que dominavam melhor a técnica.

Fora isso, todas as impressões estudadas vieram de uma única seção do sítio arqueológico, e o modelo se baseia em dados de referência de populações europeias modernas, o que poderia levar à superestimação da presença de mulheres e menores. Também há incertezas relacionadas às alterações de tamanho da argila durante a secagem e a queima, embora os pesquisadores tenham levado esse fator em consideração em seus cálculos.

Apesar dessas ressalvas, algo parece claro: a ideia de que apenas homens adultos deram forma aos guerreiros começa a perder força. As pequenas marcas que permaneceram na argila por mais de dois milênios sugerem que, por trás desse exército, pode ter existido uma história muito mais diversa do que se imaginava.

    Compartilhar
    Comentários
    Clique aqui e deixe seu comentário!

    Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

    Mais Recentes