Flávio e Lula travaram debate com muitas acusações e que foi marcado ainda por intervenções da plateia
Jean-Philip Struck
Flávio e Lula travaram debate com muitas acusações e que foi marcado ainda por intervenções da plateia

Os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) travaram um debate tenso na noite deste domingo (18/10), marcado por bate-boca, poucas propostas, perguntas que ficaram sem resposta e intensas trocas de acusações envolvendo relações familiares, o escândalo do Banco Master e desvios no INSS.

O debate, promovido pela TV Bandeirantes, ocorreu uma semana antes da votação do segundo turno que vai definir o próximo presidente da República. Essa foi a primeira vez que Lula e Flávio ficaram frente a frente na eleição, após recusarem convites ou desistirem de debates anteriores.

Segurança Pública e economia abriram debate

No início primeiro bloco, Lula e Flávio responderam a perguntas dos apresentadores sobre segurança pública. Repetindo um slogan da sua campanha, Flávio disse que pretende declarar "guerra ao narcoterrorismo" se eleito e acusou o governo Lula de adotar uma "política de desencarceramento".

Segundo a falar, Lula salientou que segurança pública é responsabilidade dos estados, segundo estipulado pela Constituição, e provocou Flávio, afirmando que o senador deveria votar a favor da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, enviada pelo Palácio do Planalto ao Congresso.

Com o tema economia em pauta, Lula defendeu medidas do seu governo, como políticas voltadas aos Microempreendedores Individuais (MEIs) e disse que o Brasil está próximo de recuperar o grau de investimento.

Segundo a falar, Flávio evitou falar sobre planos para a economia, preferindo focar em outro tema da sua campanha: críticas ao custo de vida.
"A sua vida piorou ou melhorou com a era Lula?", questionou Flávio, olhando diretamente para a câmera. Flávio ainda afirmou "que tirar Lula da Presidência é a melhor forma" de melhorar o Orçamento e a economia.

Confronto direto abriu ataques e provocações

Iniciado a etapa do confronto direto, em que os candidatos tinham 15 minutos cada para fazer questionamentos diretos um ao outro, Lula questionou o rival sobre um voto dado por Flávio em 2009, quando ele era deputado estadual, no Rio Janeiro, contra a ampliação da licença-maternidade para servidoras.

Em um modo provocativo e abusando de ironias desde o início do embate, Flávio ignorou completamente a pergunta e partiu para questionar Lula sobre a lobista Roberta Luchsinger, uma lobista próxima de Lulinha – filho mais velho do presidente – e suspeita de tráfico de influência e envolvimento num escândalo de desvios no INSS. "Vai dizer que não conhece o Lulinha também?", provocou Flávio.

Era só o início.

Pelos 30 minutos seguintes, Flávio e Lula travariam uma tensa troca de acusações e provações, com Flávio pautando boa parte do confronto.

Lula rebateu questionando Flávio sobre suas relações comerciais com Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS", apontado pela Polícia Federal como o principal articulador do esquema de desvios. "Não sou um pai que protege o filho, como você foi protegido pelo seu pai. Não escondo nem mando ministro embora porque não quis trocar diretor da Polícia Federal", rebateu Lula, mencionando a saída ruidosa do ex-ministro Sergio Moro do governo Jair Bolsonaro em 2020, após o ex-juiz acusar o então presidente de interferir na PF para proteger sua família.

Flávio, aliás, repetiu no debate uma tática já usada por seu pai em 2022, chegando ao estúdio na companhia do ex-juiz (e agora governador eleito do Paraná) Sergio Moro, com a adição desta vez do senador eleito (sub judice) Deltan Dallagnol, ambas antigas estrelas da Operação Lava Jato que foram acusadas de conluio para tirar Lula da disputa presidencial em 2018.

Ainda nessa etapa do debate, Flávio perguntou a Lula por que seu filho vive na Espanha. Sem responder a pergunta, Lula disse que o irmão de Flávio, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, vive nos EUA "tramando contra o Brasil". "O seu irmão está fugido nos Estados Unidos, tramando contra o Brasil. Tramando contra o Brasil, pedindo intervenção do Trump no Brasil. O que vocês estão fazendo é trair a pátria. E vocês serão julgados por isso", disse Lula.

Lula também cobrou Flávio sobre suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro e o pedido de R$ 134 milhões feito pelo senador, supostamente para financiar o filme Dark Horse. "O que fez com o dinheiro? Foi para ajudar seu irmãozinho a trair o Brasil?", questionou Lula.

Flávio, seguindo a tática de ignorar as perguntas de Lula, disse "Você vai aplaudir o filme do presidente Bolsonaro, você vai amar" e se pôs a criticar a falta de reajuste do Bolsa Família por boa parte do atual governo Lula. "Eu falei de você explicar os R$ 134 milhões e você vem falar de Bolsa Família, porra?", respondeu Lula.

Presidiários e "malandro carioca"

Em diversos momentos na defensiva, Lula tentou questionar Flávio sobre a razão para o senador ter se posicionado contra a prisão do PM Bruno Dias Delaroli, responsável pelo disparo que matou a menina Ana Clara Machado, de cinco anos, em Niterói (RJ) em 2021.

Flávio ignorou mais uma vez a pergunta e devolveu com uma provocação: "Lula, com você, a criminalidade explodiu no Brasil. Inclusive, você pode responder por que 73% dos presidiários votaram em você?". Lula respondeu com outra provocação: "Eu quero 100% [dos votos dos presidiários], até do seu pai", disse, em alusão à prisão de Jair Bolsonaro, que cumpre penas de 27 anos após ser condenado por liderar um plano de golpe de Estado entre 2022 e 2023.

Ao questionar Flávio sobre o "tesouraço" de gastos públicos proposto diversas vezes candidato, Lula perguntou "vai cair sobre as costas de quem?". "Sobre as suas, nos seus privilégios", disse Flávio, que mencionou ainda que a primeira-dama Janja da Silva teria gastado R$ 7 bilhões em viagens – um valor que já foi desmentido por agências de checagem.

"Ele (Flávio) melhorou muito para mentir", disse Lula, que alguns momentos dessa etapa, parecendo surpreso com a estratégia de Flávio, que envolvia ignorar completamente questionamentos e responder com ataques e acusações. "É o malandro carioca, que finge que não finge e mente descaradamente", disse Lula ao final do primeiro bloco.

Após um intervalo, Flávio usou a essa última fala para dizer que se "solidarizava" com os moradores do Rio de Janeiro após ser chamado de "malandro carioca". "Eu só quero aqui me solidarizar com todos os meus irmãos e irmãs do Rio de Janeiro que foram aqui chamados de malandros pelo meu concorrente", disse Flávio.

Escala 6x1, Milei e sigilo

Nas etapas posteriores do debate, Lula pareceu se recuperar um pouco do choque inicial, passando a questionar Flávio em temas como a extinção da escala 6x1, colocando o senador em alguns momentos na defensiva. O petista questionou várias vezes se o senador pretende rever a extinção caso seja eleito, algo, que segundo reportagem da Folha de S.Paulo, foi dito por Flávio a aliados.

Num primeiro momento, Flávio desviou da pergunta, mas depois negou. “Rodei o país inteiro, ouvi você, trabalhador, ouvi você que queria mais esse dia de folga", disse Flávio. Depois, ele fez uma associação entre o dia extra de folga com segurança pública, de forma semelhante ao que havia feito na sabatina do Jornal Nacional na sexta-feira. "Na sua folga, no atual governo, você vai para a praia com medo de ser assaltado, de levarem seu celular", disse.

Lula também cobrou Flávio sobre suas relações com os EUA, a acusou o adversário de agir com o governo Donald Trump para impor um tarifaço sobre produtos brasileiros e ironizou os elogios que o senador fez à política econômica do presidente argentino Javier Milei. "Você sabe quanto tá a pobreza na Argentina? Você tem acompanhado como está a economia?", disse Lula.

Lula ainda lançou um desafio à Flávio. "Amanhã, eu e você abrimos nossa conta bancária, nosso sigilo telefônico para a população saber quem é ladrão no Brasil", disse Lula, propondo ainda que os dois entregassem as informações à Justiça. "Eu abro da minha família inteira. Você abre da sua família", prosseguiu Lula. "Eu não tenho absolutamente nada a esconder, só que a questão, Lula, é que o seu dinheiro é por fora sempre, não está na sua conta.", rebateu Flávio Bolsonaro.

Tensão se estendeu para a plateia

Esse foi o primeiro debate televisivo de Flávio Bolsonaro desde 2016, quando concorreu para a prefeitura do Rio de Janeiro e ganhou notoriedade por desmaiar ao vivo.
Além da troca de acusações, a linguagem corporal de Flávio gerou tensão em diversos momentos. Repetindo uma tática inaugurada por Donald Trump num debate contra Hillary Clinton em 2016 e adotada por Jair Bolsonaro em 2022, Flávio se desdobrou para se posicionar no mesmo enquadramento de câmera enquanto o petista falava. O comportamento provocou queixas por parte da equipe de Lula.

"Não quero ficar perto de você. Família Bolsonaro, quero distância. Quero distância de miliciano", disse Lula a Flávio, numa dessas aproximações físicas. Em outro momento, Lula chamou Flávio de "palhaço", após o senador ensaiar ficar atrás do presidente para fazer gestos de negação com o rosto e as mãos.

Lula encerrou sua participação no debate comparando seu governo à gestão de Jair Bolsonaro e acusando o campo de adversário de estar planejando a privatização da Petrobras. A fala do petista também ocorreu na esteira de um novo momento de tensão, com membros da equipe de Lula reclamando que Flávio estava mais uma vez tentando forçar sua posição nas câmeras.

Flávio também teve suas considerações finais interrompidas por manifestações e gritos da plateia, com os mediadores tendo que intervir. Após a situação se acalmar, ele falou em criar um "ministério da prosperidade" e voltou a bater na tecla da segurança pública. "Quem tem que ter medo na rua são os marginais", disse.

Ao final do debate, a fala dos mediadores foram abafadas por novos gritos, tanto de apoiadores de Lula, que entoavam "Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula", quanto de Flávio, que gritavam "mito, mito".

Na disputa do primeiro turno, o senador Flávio Bolsonaro terminou na liderança, com 47% dos votos válidos, seguido por Lula, que obteve 45,2%. Os dois enfrentam um segundo turno também acirrado. Duas das principais pesquisas divulgadas nesta semana sobre as intenções de voto apontaram empate técnico entre os dois candidatos

Na quarta-feira (14/10), a Quaest divulgou a sua primeira pesquisa para o segundo turno, mostrando Flávio com 46% das intenções, enquanto Lula apareceu com 44%. Um dia depois, na quinta-feira (15/10), foi a vez do Instituto Datafolha apontar 47% para Flávio e 45% para Lula.

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    Tags: Brasil
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