
As autoridades da Índia realizaram neste sábado (10/10) uma ampla operação de segurança em Nova Délhi e detiveram milhares de manifestantes que participavam de uma campanha nacional contra uma controversa revisão da lista de eleitores – medida que gerou indignação contra o governo nacionalista hindu do primeiro-ministro Narendra Modi e as autoridades eleitorais por excluir milhões de votantes das próximas eleições.
A polícia agiu para dispersar a manifestação antes mesmo de seu início, interceptando manifestantes a caminho de Jantar Mantar – o local designado para protestos no coração da capital indiana –, expulsando algumas pessoas e detendo várias outras.
Algumas pessoas foram arrastadas antes de serem colocadas à força em veículos policiais e levadas para centros de detenção. temporária. Vários líderes do Cockroach Janta Party (CJP), ou "Partido das Baratas" – movimento popular que vem organizando protestos no país –, parlamentares da oposição e ativistas estudantis foram detidos antes de chegarem ao local, o que praticamente inviabilizou a realização do protesto. Nesta sexta-feira, a polícia informou que havia negado a autorização para o ato público porque o pedido fora apresentado fora do prazo.
Alto-falantes ao redor do local do protesto alertavam que aglomerações de cinco ou mais pessoas estavam proibidas em partes de Nova Délhi, à medida que as autoridades impunham restrições de segurança raramente vistas na capital. Jornalistas também enfrentaram restrições em algumas áreas, com a polícia chegando a deter brevemente alguns deles.
Ainda assim, alguns manifestantes romperam os cordões de isolamento policial, gritando palavras de ordem contra Modi e as autoridades eleitorais antes de serem detidos.
A repressão se estendeu para além do local do protesto. A polícia realizou vistorias em ônibus, carros e outros veículos em pontos de controle nas vias de acesso à capital à procura de manifestantes. O Jantar Mantar foi cercado por barricadas, enquanto veículos de choque equipados com lançadores de gás lacrimogêneo foram posicionados ao longo de rotas estratégicas. Restrições à internet móvel e ao acesso a partes da cidade aumentaram os obstáculos enfrentados pelos manifestantes.
Polícia detém líderes dos protestos
A dimensão da repressão evidenciou a determinação das autoridades em conter uma campanha de protestos em rápida expansão, que mobilizou milhares de jovens, atraiu o apoio da oposição e intensificou o escrutínio sobre Modi.
Os protestos também ocorrem em um momento politicamente sensível, meses depois de manifestações lideradas pelo "Partido das Baratas" – inicialmente motivadas pelo vazamento de provas de concursos públicos – terem forçado a renúncia do ministro da Educação de Modi, em julho.
Os líderes do "Partido das Baratas" Abhijeet Dipke, Saurav Das e Ashutosh Ranka foram detidos neste sábado após chegarem ao aeroporto de Nova Délhi, vindos de Mumbai. Um vídeo compartilhado pelo movimento na rede social X mostrou policiais entrando na aeronave e detendo os três homens.
"A interceptação planejada pela Polícia de Délhi visa paralisar a liderança das manifestações pacíficas de hoje antes mesmo que cheguem ao local do protesto", afirmou o movimento em nota.
A resposta policial representou uma demonstração de força extraordinária em uma capital onde o governo de Modi já havia tentado, repetidamente no passado, conter a dissidência pública. Sob a gestão de Modi, as autoridades têm recorrido frequentemente a prisões e restrições a aglomerações públicas para conter manifestações, levantando questionamentos sobre o espaço para protestos na maior democracia do mundo.
Essa nova repressão reacendeu as críticas de líderes da oposição, que acusaram o governo de cercear a dissidência.
Polêmica em torno da lista de eleitores
Os protestos deste sábado foram marcados em razão da chamada Revisão Intensiva Especial da Comissão Eleitoral da Índia, que, segundo a oposição, privou milhões de eleitores do direito ao voto. Os manifestantes exigem a renúncia do Comissário-Chefe Eleitoral, Gyanesh Kumar, e o fim da medida, que até o momento já removeu mais de 130 milhões de nomes das listas de eleitores.
A Comissão Eleitoral e o governo rejeitam as alegações de manipulação do eleitorado, afirmando que a revisão visa eliminar registros duplicados e de pessoas inelegíveis.
A medida mobilizou os partidos de oposição que buscam desafiar o Partido Bharatiya Janata (BJP), de orientação nacionalista hindu, liderado por Modi.
A manifestação planejada para este sábado ocorreria após dias de protestos na capital indiana, que também tiveram a participação de parlamentares da oposição. O líder do Partido do Congresso, Rahul Gandhi, chegou a ser brevemente detido pela polícia.
Ele e outros líderes da oposição acusaram a comissão de conduzir a revisão do eleitorado de maneira a favorecer o partido de Modi. A oposição afirma que eleitores com maior probabilidade de apoiar seus partidos foram desproporcionalmente afetados pelas remoções, enquanto apoiadores do BJP foram poupados ou incluídos nas listas. A comissão e o governo negam as acusações.
Gandhi pediu aos manifestantes que mantivessem os protestos contra a Comissão Eleitoral, apesar da forte repressão das forças de segurança. "Jovens da Índia, tenho orgulho de vocês. Continuem protestando. Estamos ao lado de vocês", disse o político, em nota.
Movimento de jovens amplia campanha contra Modi
O "Partido das Baratas" vê na disputa sobre a lista de eleitores uma oportunidade de ampliar sua campanha.
O movimento surgiu na internet em maio e ganhou destaque por meio de manifestações, ocupações e greves de fome motivadas por supostos vazamentos de provas de concursos. Esses protestos culminaram na renúncia do ministro da Educação de Modi em julho — um raro revés político para um primeiro-ministro que mantém um controle firme do poder nacional há mais de 12 anos.
Para Modi, os protestos representam um desafio na metade de seu terceiro mandato, embora seu impacto político ainda não esteja claro.
As eleições nacionais estão previstas apenas para 2029, mas as estaduais do próximo ano em Uttar Pradesh – o estado mais populoso da Índia, governado pelo BJP – e em Gujarat, onde Modi nasceu, servirão de teste para a estabilidade do partido.
rc (AFP, AP)