O que explica a onda conservadora nas eleições de 2026
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O que explica a onda conservadora nas eleições de 2026


O primeiro turno das eleições deste ano colocou à mostra o avanço de uma nova "avalanche conservadora" liderada pela ultradireita, que varreu o Congresso e governos estaduais. Contrariando a maioria das pesquisas eleitorais, o primeiro turno ainda terminou com o senador Flávio Bolsonaro em vantagem na corrida presidencial, tida como a mais acirrada nas quatro décadas de Brasil redemocratizado.

Mas, independentemente do resultado para a futura chefia do Planalto, o bolsonarismo já angariou força inédita para orientar a agenda política e pressionar adversários em Brasília. Especialistas ouvidos pela DW avaliam que a chave por trás do fenômeno, entretanto, não é um aprofundamento do conservadorismo na sociedade nem uma mudança no perfil do eleitorado.

O fator mais importante é, afirmam os cientistas sociais e políticos, um desejo por renovação política, movido pela percepção de que "problemas persistentes" permanecem insuficientemente endereçados pelo poder público. Dentre eles, se sobressaem a violência, a corrupção e a dificuldade de parte das famílias em fechar as contas.

O Brasil é um país predominantemente conservador, e isso não mudou. Isso é diferente de dizer que o país se define por uma ideologia política de extrema direita Guilherme Casarões, professor de Estudos Brasileiros da Universidade Internacional da Flórida (EUA)


Ele enxerga um "desgaste profundo da estrutura político-institucional que sustentou a Nova República ao longo dos últimos 40 anos".

O "mudancismo" bolsonarista

Ao se pronunciar logo após a divulgação dos resultados das urnas, Flávio Bolsonaro prometeu renovação.

"São quase 56 milhões de brasileiros e brasileiras que deram esse voto de confiança para a mudança. A palavra é mudança. O Brasil não aguenta mais."

Mas críticos ressaltam que o presidenciável pouco ou nada ofereceu de clareza em relação a suas propostas até agora. Para João Feres Júnior, cientista político do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ), o discurso "mudancista" não só virou o bordão da campanha de Flávio para o segundo turno, como também é sintoma de uma progressiva crise de legitimidade da democracia participativa no país.

"As pessoas mostram irritabilidade e falta de confiança total em relação às instituições", aponta. "E a extrema direita parece ser a mais bem equipada para fornecer soluções de fácil cognição para isso."

No noite de domingo, Flávio também aproveitou para reforçar que pretende acabar com a reeleição presidencial. O senador argumentou que a possibilidade de um segundo cargo cria um "estado permanente de eleição" que impede a "normalidade democrática". Mais tarde, ele falaria também em "mudar a Constituição" para "redemocratizar o país".

O próprio presidente do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, afirmou na segunda-feira que, em 2030, o ex-presidente Jair Bolsonaro poderia voltar ao Planalto, caso o seu primogênito seja eleito no fim deste mês. Flávio, em seguida, negou que a proposta tenha por objetivo abrir o caminho a uma nova candidatura do pai em quatro anos.

Para parte dos eleitores, o Flávio representa a renovação, mesmo que com a continuidade do bolsonarismo. Os indecisos, por exemplo, dizem que tem certo receio ou desconfiança, mas, ao mesmo tempo, que ele é uma figura nova, e não o pai Camila Rocha, cientista política e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)


Revanche contra o STF

Por sua vez, candidatos ligados ao bolsonarismo converteram em promessa de campanha a pressão pelo impeachment de magistrados do Supremo Tribunal Federal (STF). Parte da Corte – e sobretudo o ministro Alexandre de Moraes – é tida pela ultradireita como adversária política, incluindo por ter condenado o ex-presidente Bolsonaro a 27 anos de prisão pela trama golpista de 2022.

Para Letícia Cesarino, antropóloga e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a estratégia eleitoral mira sobretudo os segmentos que, mesmo pouco aderentes aos valores conservadores, também desejam mudança política. E ganha força com escândalos como o do Banco Master, que gerou uma crise sem precedentes no mais alto tribunal do país às vésperas das eleições.

"A votação monumental do bolsonarismo é parte de uma campanha que vem há meses para tomar o Senado e mudar o STF", inclusive nas redes sociais, afirma.

Outra tendência encontrada entre os estudiosos da preferência do eleitorado é que o voto se paute mais pela rejeição a outros atores políticos, sobretudo aqueles tidos como parte da política tradicional, do que exprima apoio ideológico ao destinatário do voto.

Na véspera do primeiro turno, uma pesquisa Quaest apontava para a possibilidade de Flávio chegar às urnas fortalecido pelo movimento de eleitores que, de última hora, optariam pela sua chapa a fim de barrar a permanência no poder do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Como o Partido dos Trabalhadores (PT) é a face mais visível do que poderíamos chamar de 'establishment', ele acaba sendo o alvo da insatisfação que mobiliza o eleitorado", acrescenta Casarões.

Resposta à insegurança pública

Ao mesmo tempo, tanto cientistas quanto pesquisas de opinião apontam que a segurança pública é a principal preocupação do eleitorado e, cada vez mais, é instrumentalizada pela direita.

"A criminalidade chegou a tal ponto de dominação dos territórios que as pessoas relatam viver num estado de constante vigilância, o que acarreta na perda de vários direitos, incluindo o de ir e vir. Na percepção delas, o PT não teve resposta para isso nos últimos anos", adiciona Rocha.

Na América Latina, populistas de direita vêm ganhando terreno político ao propor respostas agressivas em matéria de segurança pública. O modelo do ultraconservador salvadorenho Nayib Bukele contra o crime organizado virou referência para diversos grupos de direita no continente, inclusive no Brasil.

Na semana passada, Flávio Bolsonaro se encontrou com o ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro. Ele elogiou a abordagem linha-dura do governo que, segundo a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, viola sistematicamente os direitos humanos.

Tanto Bukele quanto Flávio se exibem como alinhados ideologicamente ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No ano anterior à campanha eleitoral brasileira, o republicano reforçou o apoio ao clã Bolsonaro e a pressão sobre o governo Lula, incluindo ao rotular de terroristas o Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).

Amplamente lida como interferência política por observadores, a ofensiva serviu como mais um combustível às bases da ultradireita brasileira na corrida eleitoral. Para parte dos analistas, também o contexto regional conta: a reeleição de Trump em 2020 teria disparado uma "onda laranja" no continente, elevando ao poder vários aliados do chefe da Casa Branca.

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    Tags: Brasil
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