Na ONU, Trump ameaçou recorrer à força militar na América Latina
Redação DW
Na ONU, Trump ameaçou recorrer à força militar na América Latina

Um grupo de 14 países latino-americanos apoiou um conjunto de sanções impostas pelos Estados Unidos nesta terça-feira (22/09) a 24 grupos criminosos que atuam na região, entre elas facções brasileiras como o PCC e o Comando Vermelho, que a Casa Branca considera "narcoterroristas".

A ofensiva, deflagrada no escopo da aliança Escudo das Américas, foi apresentada como parte da guerra do governo de Donald Trump ao crime organizado e ao tráfico de drogas. Ela prevê restrições migratórias e o congelamento de bens, dentre outras sanções.

Liderado pelos Estados Unidos, o Escudo das Américas – que prevê o compartilhamento de inteligência e a coordenação de operações entre os países – tem sido questionado por alguns especialistas, que a consideram um instrumento do governo americano para assegurar sua hegemonia na América Latina.

Foi o que sugeriu Trump ao discursar na Assembleia Geral da ONU mais cedo na terça-feira e afirmar que utilizaria "nosso poder militar incomparável para proteger os interesses nacionais vitais dos Estados Unidos" na região, caso necessário.

"Durante décadas, outros governos permitiram que grande parte desta região fosse dominada por gangues violentas e cartéis sanguinários do narcotráfico, desestabilizada por migração descontrolada e infiltrada por adversários estrangeiros hostis", disse Trump à ONU.

"Isso acabou", afirmou, acrescentando que estava "reafirmando o poder americano" para tornar a região mais segura ao eliminar os cartéis.

Trump comparou as "organizações narcoterroristas transnacionais" da América Latina ao "Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental" e defendeu que seus membros sejam mortos, enviados para o exílio ou presos sem possibilidade de libertação.

Ele também citou a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro, como "prova de que os Estados Unidos não permitirão mais que ameaças à América estabeleçam qualquer base em qualquer lugar do Hemisfério Ocidental".

Quem faz parte do Escudo das Américas

Ao todo, a coalizão reúne 19 países: Estados Unidos, Argentina, Bahamas, Belize, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Guiana, Honduras, Jamaica, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Trinidad e Tobago.

A aliança foi lançada por Trump em março na Flórida, ao lado de líderes de países com governos fortemente alinhados à Casa Branca.

Colômbia e Peru juntaram-se à iniciativa posteriormente, após elegerem líderes de direita.

Brasil e México, as maiores economias da América Latina e ambos liderados por governos à esquerda, não participam da coalizão.

Para a analista Sandra Pellegrini, da Armed Conflict Location and Event Data, ONG que monitora e analisa conflitos e protestos ao redor do mundo, a exclusão de Brasil e México da iniciativa da Casa Branca reforça a percepção de que o Escudo das Américas está menos relacionado a um "enfoque estritamente operativo contra o narcotráfico" e mais a "afinidades políticas e ideológicas entre governos".

"Uma abordagem regional para combater o narcotráfico continua sendo essencial, já que as rotas do tráfico de drogas e as redes criminosas são profundamente transnacionais", ponderou Pellegrini em conversa com a DW em março, por ocasião do lançamento da aliança.

"Nesse contexto, deixar de fora países onde atuam algumas das organizações criminosas mais influentes da região inevitavelmente limita o alcance potencial de qualquer iniciativa de combate ao narcotráfico", afirmou.

Já Juanita Goebertus, diretora da Divisão das Américas da Human Rights Watch, disse à DW que a estratégia não terá sucesso sem um processo consistente de fortalecimento da Justiça e a rejeição ao uso ilegal da força.

Por que movimentação da Casa Branca preocupa o Brasil

As estratégias de Trump para a segurança da região se tornaram um dos pontos centrais dos atritos da Casa Branca com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Washington incluiu o PCC e o Comando Vermelho em sua lista de organizações terroristas, rótulo rejeitado pelo Planalto, que vê no movimento um pretexto da Casa Branca para interferir no país.

Em vez de aderir ao Escudo das Américas, o Brasil formalizou em maio um novo acordo de cooperação para enfrentar o crime organizado transnacional com os EUA, que prevê troca de inteligência em tempo real.

Em agosto, o chefe do Pentágono, Pete Hegseth, indicou que os EUA planejam ataques por terra contra criminosos na América Latina.

"Será o mesmo efeito em terra. Por isso, estamos trabalhando com Equador, Colômbia e outros parceiros para levar a luta às organizações designadas como terroristas em terra", afirmou. "Onde quer que trafiquem drogas ou ameacem o povo americano ou nossos parceiros, essas organizações são um alvo, assim como a Al-Qaeda."

Lula reagiu nesta terça ao discurso de Trump na ONU afirmando que "o Brasil não cabe no quintal de ninguém", e advertiu os países da região contra "tentações hegemônicas".

Dúvidas sobre o propósito do Escudo das Américas

As sanções recém-anunciadas pela aliança Escudo das Américas são parte do mais recente esforço da Casa Branca para mobilizar os países latino-americanos em torno de uma estratégia de política externa mais agressiva inspirada na Doutrina Monroe. A política do século 19 afirmava a primazia dos Estados Unidos sobre as Américas e é associada por críticos a intervenções americanas na região. O próprio Trump passou a chamá-la de "Doutrina Donroe", um trocadilho com seu sobrenome que ganhou popularidade na mídia conservadora.

Outras ações do governo Trump incluíram o bombardeio americano de embarcações supostamente ligadas ao tráfico de drogas, pressão redobrada sobre Cuba e também sobre o Brasil às vésperas das eleições, além de maior cooperação com governos da região.

Trump falou ainda, frequentemente de maneira vaga, sobre retomar o controle do Canal do Panamá e anexar o Canadá e a Groenlândia. Com esta última, acabou de assinar um acordo para conter a crescente presença da Rússia e da China no Ártico.

Especialista em relações internacionais e diretora do Insight 21, think tank da Universidade Siglo 21, da Argentina, Florencia Rubiolo vê no Escudo das Américas também uma tentativa da Casa Branca de "reafirmar sua influência na América Latina e reagir ao avanço econômico e estratégico da China na região".

Pellegrini concorda: "Acredito que seria um erro enxergar esse projeto apenas como uma iniciativa de combate ao narcotráfico. A iniciativa parece fazer parte de um esforço mais amplo para reposicionar os Estados Unidos como o principal parceiro estratégico da América Latina. Isso implica fortalecer alianças políticas, promover acordos comerciais favoráveis e limitar a influência de outras potências globais, especialmente a China."

Em um sinal de que os interesses dos EUA com o Escudo das Américas vão além do combate ao crime organizado, a mesma declaração de apoio às sanções assinada nesta terça-feira por 14 países menciona o compromisso deles de "aumentar a cooperação econômica", "proteger cadeias de abastecimento de minerais críticos" e "promover regulamentações para fornecedores confiáveis de infraestrutura digital".

Em troca da cooperação com os EUA, Pellegrini diz que os países latino-americanos podem esperar dos americanos apoio político, econômico e em questões de segurança. "Vimos isso na Argentina, quando Trump condicionou um resgate financeiro à vitória de Javier Milei [presidente argentino] nas eleições legislativas."

ra/md (DW, Reuters, AFP, ots)

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    Tags: Politica
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