
Um médico de Ruanda foi preso em Londres nesta segunda-feira (21/09) acusado de participar de crimes relacionados ao genocídio de 1994 em Ruanda.
Vincent Brown, de 65 anos, é a primeira pessoa a ser formalmente acusada no Reino Unido por participação no genocídio étnico que deixou cerca de 800 mil mortos, segundo os promotores. As vítimas, em sua maioria tutsis e hutus moderados, foram espancadas, baleadas ou mortas com golpes de facão durante os 100 dias de massacre.
Brown enfrenta uma acusação de ter sido cúmplice do genocídio e outras seis por ter auxiliado a prática de crimes contra a humanidade em Ruanda, informaram promotores e a polícia de Londres.
"As acusações estão relacionadas a alegações de que Brown participou do genocídio contra os tutsis em Ruanda em 1994", afirmou Frank Ferguson, chefe da divisão antiterrorismo do Ministério Público britânico. "Ele é acusado de ter dirigido e incitado atos de homicídio e genocídio praticados por outras pessoas."
A legislação britânica permite que promotores apresentem acusações por determinados crimes internacionais, incluindo genocídio e crimes contra a humanidade, independentemente do local onde tenham sido cometidos. Outros países já processaram suspeitos de participação no genocídio de Ruanda e reconheceram sua responsabilidade pelo massacre.
Brown, anteriormente conhecido como Vincent Bajinya, é natural de Kigali, em Ruanda, mas vive em Londres, onde está detido. Ele deve comparecer nesta terça-feira ao Tribunal de Magistrados de Westminster.
Sete anos de investigação
Acredita-se que Brown tenha entrado no Reino Unido como solicitante de asilo em 1998. Ele mudou de nome ao obter a cidadania britânica em 2004, conforme disse na época o advogado Philip Eldin-Taylor.
Ele foi preso pela primeira vez em 2006. No entanto, sua extradição para Ruanda, juntamente com a de outros quatro homens, foi definitivamente rejeitada pela Justiça britânica em 2017.
O governo de Ruanda então solicitou ao governo britânico que investigasse diretamente os suspeitos de participação do genocídio. Em vez de enviá-lo ao país africano, as autoridades do Reino Unido abriram uma investigação própria em 2019 que resultou nas acusações anunciadas nesta segunda-feira.
A polícia informou que continua investigando diversos outros suspeitos de participação no genocídio de Ruanda que vivem no Reino Unido.
"Este caso demonstra que o Reino Unido não é um refúgio seguro para indivíduos suspeitos de cometer crimes internacionais", afirmou Helen Flanagan, chefe da unidade de contraterrorismo da polícia.
O genocídio de Ruanda foi resultado de décadas de tensões políticas e étnicas entre as comunidades hutu e tutsi, agravadas por divisões estimuladas durante o período colonial. O estopim ocorreu em abril de 1994, quando o avião do presidente Juvenal Habyarimana, um hutu, foi derrubado ao se aproximar de Kigali. Após o atentado, lideranças extremistas hutus desencadearam uma campanha sistemática de extermínio contra os tutsis e também contra hutus moderados.
sf (RT, AP)