Aeródromo militar sírio de Abu al-Duhur após os ataques aéreos israelenses
Kersten Knipp
Aeródromo militar sírio de Abu al-Duhur após os ataques aéreos israelenses

Após um longo período de silêncio, representantes da Síria e de Israel se reuniram na Jordânia no último fim de semana, pela primeira vez em meses. As negociações, retomadas sob intermediação dos Estados Unidos, visavam reduzir as tensões após os recentes ataques israelenses em território sírio e evitar uma escalada das tensões entre Israel e Turquia na região.

O estopim foi o ataque israelense ao aeródromo militar de Abu al-Duhur, na província de Idlib, em 18 de agosto. Segundo fontes sírias, oito explosões atingiram a pista de pouso e as instalações de armazenamento, embora sem deixar vítimas fatais. Israel acusou a Síria de violar – ou ameaçar violar – um acordo de segurança anterior ao considerar permitir que tropas turcas utilizassem o aeródromo. Damasco e Ancara negam, enquanto os EUA criticaram o ataque como uma "escalada desnecessária".

Ainda não se sabe ao certo se um destacamento turco na Síria era de fato iminente. Israel considera uma potencial presença militar turca na Síria uma linha vermelha. A Fundação para a Defesa das Democracias (FDD), uma entidade pró-Israel, justificou o ataque afirmando que Tel Aviv teme que Ancara possa usar sua presença na Síria "como uma plataforma para pressionar ou ameaçar Israel".

Disputa pela futura ordem militar da região

Para Bente Scheller, especialista em Síria da Fundação Heinrich Böll, essa explicação é insuficiente. "Até o momento, não há evidências de que tropas turcas seriam de fato estacionadas lá", afirma.

Scheller considera possível que Israel disponha das suas próprias informações de inteligência em sentido contrário, mas afirma que o ataque deve ser visto no contexto da política geral de Israel para a Síria – e do crescente papel regional da Turquia.

Marcus Schneider, chefe do projeto regional para a paz e segurança no Oriente Médio da Fundação Friedrich Ebert, em Beirute, chama a atenção para um outro aspecto. Para ele, o ataque diz respeito principalmente à configuração da futura ordem militar na Síria.

Segundo Schneider, Israel quer manter a Síria em situação vulnerável, já que um Estado soberano capaz de controlar o seu próprio espaço aéreo limitaria a liberdade de ação militar israelense. "O corredor de ataque contra o Irã passa pela Síria", explica Schneider. Uma Síria soberana poderia, portanto, prejudicar estrategicamente Israel.

As preocupações de segurança de Israel após os ataques terroristas de 7 de outubro de 2023 são compreensíveis, diz Bente Scheller. Ao mesmo tempo, porém, Israel vê um desenvolvimento que vai além da Síria: "Israel certamente está ciente de como a Turquia tenta se posicionar como uma potência hegemônica regional". O ataque ao aeródromo de Abu al-Duhur é, portanto, "claramente também uma mensagem à Turquia".

A Turquia apoia o presidente sírio Ahmed al-Sharaa e está comprometida com uma Síria unida. Uma análise do think tank americano Carnegie Foundation descreve isso como uma disputa estratégica: "O nordeste da Síria também é a arena central onde se confrontam duas visões estratégicas para o país promovidas por agentes externos". A ONG International Crisis Group também vê a Síria como uma linha divisória entre Israel e uma Turquia em ascensão.

Nova relação com os EUA

Uma possibilidade de evolução positiva reside na nova relação entre a Síria e os Estados Unidos. No verão de 2025, os EUA começaram a flexibilizar gradualmente as sanções ao país árabe e, em novembro daquele ano, Al-Sharaa foi recebido por seu homólogo americano, Donald Trump, na Casa Branca.

Os dois se encontraram novamente à margem da cúpula da Otan em Ancara, em julho deste ano. No primeiro semestre, os EUA retiraram suas tropas da Síria e, em agosto, removeram oficialmente o país de sua lista de apoiadores do terrorismo.

No conflito atual, a Síria parece depender sobretudo das suas próprias capacidades, inclusive em relação à Turquia. Para Schneider, contudo, uma possível presença turca não se compara à antiga presença iraniana.

Segundo ele, Ancara está interessada em uma Síria estável e na segurança de sua fronteira sul. "A ideia de que a Turquia, Estado-membro da Otan, ataque Israel, que possui armas nucleares, é absurda", diz. O verdadeiro problema, acrescenta, é que Israel vê a Turquia cada vez mais como um adversário estratégico e interpreta suas capacidades militares como potenciais intenções hostis.

Al-Sharaa busca apoio em política externa onde quer que o encontre, afirma Scheller. "Nos últimos meses, a Turquia se tornou cada vez mais um dos países dos quais Damasco espera receber ajuda." A cooperação não se limita às questões de segurança. Ancara pretende ampliar a sua influência regional e, simultaneamente, garantir estabilidade ao longo da fronteira comum.

A verdadeira questão, portanto, é quem determinará a futura ordem de segurança da Síria. Após a queda do ditador sírio Bashar al-Assad, Israel estabeleceu uma zona de segurança ao norte das Colinas de Golã e atacou repetidamente alvos sírios.

Segundo a Fundação Carnegie, a exigência de uma zona neutra está profundamente enraizada na doutrina de segurança israelense. Menos clara é a eventual intenção de manter a Síria permanentemente fragmentada, hipótese levantada por alguns analistas.

Já a FDD vê Israel cética em relação ao novo Exército sírio e ao apoio às forças prestado pela Turquia. Schneider, porém, discorda dessa interpretação: "O novo regime na Síria estendeu a mão a Israel desde o início, apesar de suas origens ideológicas." Segundo ele, Damasco não quer guerra com Israel, mas almeja recuperar sua soberania estatal. E esta ambição estaria conflitando com a presença militar israelense e as linhas vermelhas definidas por Tel Aviv.

Capacidades de negociação serão decisivas

Bente Scheller diz que a Síria se encontra entre dois vizinhos militarmente poderosos que não respeitam nem sua soberania nem sua integridade territorial. "Portanto, tudo agora depende da capacidade de negociação de Al-Sharaa: como ele poderá defender a soberania síria diante desses dois vizinhos e, de fato, encontrar um caminho a seguir para a Síria?"

Segundo ele, antes de lidar com sua inferioridade militar, o país precisa precisa primeiro desenvolver uma ordem política viável.

É o que também argumenta o cientista político Haid Haid em uma análise para o Chatham House. Para ele, os sucessos da política externa de Al-Sharaa não devem obscurecer o fato de que os conflitos internos da Síria permanecem sem solução. "Nesse sentido, a maior vulnerabilidade da Síria não reside em suas fronteiras, mas em seu interior." Quanto menos Damasco conseguir estabelecer um consenso legítimo, diz, maior será a margem de manobra para as potências externas.

Para Schneider, a Turquia exerce um papel muito diferente daquele que o Irã desempenhou no passado. Ancara e Damasco têm interesse em uma Síria estável. Ao mesmo tempo, os sírios procuram evitar a dependência de uma única potência protetora. "O governo atual, em particular, sabe perfeitamente quais seriam as consequências para o país se a Síria voltasse a servir de palco para guerras entre outras nações", conclui o especialista.

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    Tags: Politica
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