Um cliente retira notas de naira de um caixa eletrônico em Asaba, Nigéria, em 10 de novembro de 2016
Pius Utomi Ekpei
Um cliente retira notas de naira de um caixa eletrônico em Asaba, Nigéria, em 10 de novembro de 2016
Pius Utomi Ekpei

Alguns recém-casados dançam em um salão de festas de Lagos, Nigéria, e seus entes queridos se aproximam deles, colocando no chão e em várias bacias prateadas cédulas de 500 nairas, aproximadamente 0,33 centavo de dólar.

Com esse novo formato, cada vez mais comum no país, os nigerianos realizam o "naira spraying" ("chuva de dinheiro"), uma tradição popular, agora proibida, que consiste em jogar notas em casamento durante as bodas, festas e eventos musicais.

Para lutar contra o "naira spraying", considerado desrespeitoso pelas autoridades, a Comissão de Crimes Econômicos e Financeiros da Nigéria (EFCC) lançou uma campanha de repressão contra várias personalidades públicas.

Agora, tanto os convidados como os organizadores preferem ser cautelosos, conscientes de que os investigadores da EFCC podem encontrar vídeos de suas festas nas redes sociais.

"As pessoas jogam cédulas no chão, mas não como antes. Não querem problemas", explicou à AFP um músico que atuou há pouco tempo em uma boda no bairro de Ikeja de Lagos, capital econômica da Nigéria.

Um casal compartilhou um vídeo nas redes sociais que mostrava cédulas impressas com sua imagem, para que os convidados pudessem lançar ao ar legalmente durante seu casamento.

A campanha da EFCC chega ao mesmo tempo em que a Nigéria tenta estabilizar sua moeda, a naira, cujo valor em relação ao dólar diminuiu consideravelmente desde que o presidente Bola Ahmed Tinubu chegou ao poder, em maio de 2023, introduzindo reformas econômicas.

O câmbio da naira em relação ao dólar passou de 450 para um dólar, há um ano, a cerca de 1.500 atualmente.

- Raiz na cultura yorubá -

Segundo o professor Ayodele Yusuf, da Universidade de Lagos, o "naira spraying" é uma prática que tem suas raízes na cultura yorubá, onde as pessoas com títulos de nobreza e os artistas recebiam chuvas de dinheiro como agradecimento durante as festividades.

Essa prática se estendeu a outros grupos étnicos da Nigéria, se tornando algo inevitável nas grandes festividades.

Nas últimas semanas, várias prisões frearam o entusiasmo dessa tradição, pelo menos em público. "Nenhum outro país permite essa prática. Estamos decididos a mudá-la", disse Wilson Uwujaren, porta-voz da EFCC em uma entrevista ao canal de televisão Arise News.

Segundo o Banco Central da Nigéria, o "naira spraying" atenta contra o símbolo da "soberania do país" e pode ser penalizado com "uma pena de prisão, uma multa, ou ambas".

No mês passado, um tribunal condenou uma das maiores celebridades LGBTQIAPN+ do país, uma mulher trans conhecida como Bobrisky, a seis meses de prisão ao declará-la culpada de lançar dinheiro ao ar durante a estreia do filme "Ajakaju", em Lagos, em 24 de março.

A atriz nigeriana Oluwadarasimi Omoseyin foi condenada a seis meses de prisão em fevereiro após ser filmada caminhando sobre cédulas depois de tê-las jogado para cima.

No entanto, alguns críticos destacaram que há personalidades e políticos que, apesar de terem sido gravados fazendo o mesmo, não tiveram que comparecer ante as autoridades.

Há quem acuse que a EFCC pretende desviar a atenção de sua missão da luta contra a corrupção com essa campanha repressiva, que está sendo muito comentada, contra o "naira spraying".

"Destruíram os casamentos", disse à AFP um advogado de Lagos durante um evento musical. "Era o momento em que as pessoas mais se divertiam", apontou.

    AFP

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