
Foi na década de 80 que José* começou a apostar. Aos 30 anos, ele saía do futebol noturno com os amigos e ia para as casas de apostas jogar na máquina de vídeo poker. Na época, ele não imaginava as consequências do que parecia uma brincadeira ou um jogo inocente. Hoje, aos 71 anos e aposentado, ele conta que o vício não é um problema resolvido em um mês ou um ano, mas sim uma história de luta que pode durar uma vida toda.
Além do vídeo poker, José chegou a jogar bingo e caça-níqueis durante os anos em que apostava compulsivamente. Na época, os bares e botecos tinham máquinas com vários tipos de jogos.
“Sofria muito com isso, chegava em casa com o dia já amanhecendo, saía do jogo esmurrando o painel do carro, chorando, me machucando e prometendo que nunca mais voltaria naquele ambiente, que não jogaria mais”, comentou em entrevista ao iG. “Mas no dia seguinte lá estava eu no jogo novamente, e assim fui perdendo meu autocontrole, meu respeito e minha dignidade”.
A psicóloga Flávia Marsola explica que a dificuldade de interromper o comportamento não pode ser justificada por uma única causa. A dependência envolve uma combinação de vulnerabilidades individuais, disponibilidade do jogo e de mecanismos cerebrais relacionados à recompensa, à motivação e à tomada de decisão.
“Nas apostas, um elemento particularmente importante é a imprevisibilidade da recompensa. A pessoa não sabe quanto ou quando vai ganhar, e justamente essa incerteza que pode manter o comportamento. Com a repetição, estímulos associados à aposta (no aplicativo, uma notificação, por exemplo) podem adquirir grande poder de provocar desejo e urgência para a aposta”Flávia Marsola, psicóloga clínica voltada para adolescentes e adultos
O Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III) de 2025, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), estima que cerca de 10,9 milhões de brasileiros, ou seja, 7,3% da população acima de 14 anos, já sofreram prejuízos relacionados às apostas, sejam eles pessoais ou financeiros. Além disso, pelo menos 1,4 milhão de pessoas se adequam aos critérios para classificação de transtorno de jogo.
O Ministério da Saúde classifica o transtorno do jogo como um problema mental e comportamental. Ludomania é o nome dado a essa compulsividade, que está relacionada à dificuldade de controlar o impulso de apostar, mesmo quando o próprio jogador reconhece a nocividade do comportamento.
Para a especialista, um dos principais sinais de alerta é a distância cada vez maior entre aquilo que a pessoa decide fazer e aquilo que efetivamente consegue fazer. “Ela decide apostar determinado valor e ultrapassa o limite. Diz que vai parar depois daquela aposta e continua. Tenta reduzir ou interromper o comportamento diversas vezes, mas não consegue.”
Outros sinais também podem surgir, como passar cada vez mais tempo pensando em apostas, esconder perdas, comprometer dinheiro destinado a outras necessidades, pedir dinheiro emprestado ou prejudicar relações pessoais, trabalho e outras áreas da vida.
No final de 2025, o governo federal disponibilizou uma ferramenta de autoexclusão de sites de apostas, que permitia com que o apostador bloqueasse o próprio acesso às plataformas. Segundo o Ministério da Saúde, até agosto de 2026, mais de 1 milhão de pessoas já haviam pedido a autoexclusão, sendo 35% destes pedidos justificados pela perda de controle sobre o jogo.

A dimensão do problema
Na sexta-feira (25), o governo federal publicou uma medida provisória que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa, conhecidas como “bets”, em todo o país. O texto determina o encerramento das operações das empresas autorizadas atualmente em até 30 dias e prevê o bloqueio de sites, aplicativos e transações financeiras relacionados às apostas. A medida já está em vigor, mas ainda precisa ser analisada pelo Congresso Nacional em até 120 dias para se tornar lei em definitivo.
Durante coletiva na terça-feira (29), o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e o Ministério da Fazenda divulgaram que até o momento foram solicitadas a derrubada de 5.209 domínios relacionados à exploração de apostas. No entanto, um levantamento da plataforma Bet Legal registrou a criação de 751 novas casas clandestinas, sendo 100 delas criadas logo após a proibição.
O economista Benito Salomão explica que deixar de ter acesso a um aplicativo não significa o fim das apostas e dos impactos socioeconômicos delas. Segundo ele, “as apostas também geram custos sociais que vão além da arrecadação do Estado. Entre eles está o endividamento de famílias que perdem o controle sobre os gastos com esse tipo de entretenimento”.
O último Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, produzido pelo Comitê Nacional de Secretários da Fazenda (Comsefaz) em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado, utilizou dados do Banco Central para dimensionar o impacto das apostas no bolso dos brasileiros.
De acordo com o levantamento, as famílias deixaram R$ 63,5 bilhões nas plataformas de apostas somente em 2025. Esse valor equivale a cerca de 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias e representa a quantia em dinheiro que foi investida nas plataformas, mas que não retornou ao bolso dos jogadores.
Segundo Salomão, a tributação das apostas teria, nesse contexto, uma função regulatória, e não apenas arrecadatória. Ao criar impostos sobre a atividade, o governo busca encarecer ou desestimular o consumo e, consequentemente, reduzir os custos sociais associados a ela.
Há, porém, uma contradição, já que ao mesmo tempo em que o Estado arrecada com a atividade, também precisa lidar com os prejuízos sociais decorrentes dela. Para o economista, se a tributação não é suficiente para reduzir o volume de apostas e os impactos associados ao jogo, surge a discussão sobre medidas mais restritivas, como a própria proibição.
Uma pesquisa do do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) em parceria com a Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental (FPSM) e a Umane buscou analisar os efeitos sanitários, econômicos e sociais da rápida expansão das apostas online no Brasil.

Segundo os dados, os danos associados às apostas e jogos de azar geram um custo anual de R$ 38,8 bilhões, sendo R$ 17 bilhões por mortes adicionais por suicídio, R$ 10,4 bilhões por perda de qualidade de vida decorrente de depressão, R$ 3 bilhões em tratamentos médicos para depressão. Além disso, o custo total ligado à saúde chega a R$ 30,6 bilhões (78,8% do total).
Saúde em jogo
Assim como o economista, a psicóloga Flávia Marsola também afirma que retirar uma pessoa das plataformas não necessariamente encerra o problema. “É importante aumentar a distância entre o impulso e a possibilidade de agir: retirar aplicativos, bloquear acesso a plataformas, reduzir exposição à publicidade e outros gatilhos. Mas também precisamos descobrir qual função a aposta exercia naquela vida. Era excitação? Fuga? Alívio da ansiedade? Combate ao tédio? Sensação de competência? Tentativa de resolver problemas financeiros?”
José, o aposentado entrevistado pelo iG, conta que foi um longo processo até perceber que não era mais apenas um jogo do qual ele tinha controle.
“Por várias vezes pensei em tirar minha própria vida. Foi quando cheguei nesse ponto que achei que precisava de ajuda e busquei na internet o grupo de Jogadores Anônimos. Pensei comigo que era lá que eu deveria estar”, José*, aposentado
José entrou na Irmandade de Jogadores Anônimos em 1997. Na primeira reunião, o aposentado contou que chegou tomado pela vergonha, mas que sua percepção foi mudando quando os outros participantes começaram a relatar as próprias experiências com o jogo.
“Eles estavam falando sobre mim. Tinham cometido os mesmos erros que eu. Foi naquela sala que eu vi os meus iguais”. Para ele, o grupo foi fundamental para iniciar o processo de recuperação. “Jamais imaginei que aquela sala ia me devolver a vida, a dignidade, o respeito e a autoconfiança.”
Embora tenha passado por recaídas durante seus quase 30 anos de irmandade, José celebra que está sem jogar desde 2012.
Para Flávia Marsola, evitar situações que funcionam como gatilho pode ser importante no início da recuperação, mas não é suficiente para evitar as recaídas. “É preciso desenvolver estratégias para atravessar a vontade de apostar sem necessariamente responder a ela e construir outras fontes de recompensa, como atividade física, contato social, hobbies, projetos, rotina e atividades que tenham valor para aquela pessoa.”
A psicóloga também recomenda identificar pensamentos que costumam anteceder recaídas, como “só hoje”, “agora vou controlar” ou “vou recuperar apenas o que perdi”. Quando há perda importante de controle ou prejuízo significativo, procurar acompanhamento profissional é recomendável.
Hoje, José continua frequentando as reuniões e recebendo pessoas que chegam em busca de ajuda, assim como ele fez em 1997.
“Posso dizer que sou outro homem, responsável, fazendo o meu melhor, sabendo o que o jogo faz na vida das pessoas, estando na sala para receber um recém-chegado, dar um abraço e as boas-vindas exatamente como fizeram comigo 29 anos atrás. Posso contar a minha história e ele ou ela saberá onde o jogo pode levá-los.”
* nome fictício.