
Desde a infância, formei-me e, talvez mais do que isso, fui me inteirando do hibridismo. Aprendi cedo que o ser humano não se apresenta em estado puro. Somos feitos de encontros e desencontros, de forças que se completam e se repelem, com resultados positivos e negativos sobre o comportamento humano.
Como psicólogo, são justamente as contradições individuais que despertam meu cuidado. Compreender, porém, não significa ser cúmplice do fenômeno. Há uma distância necessária entre acolher a complexidade humana e justificar aquilo que nela pode existir de destrutivo.
Amor e ódio, por exemplo, não habitam necessariamente territórios separados. Muitas vezes convivem, lado a lado, numa proximidade quase insuportável. O homem ama e odeia; constrói e destrói; deseja a liberdade e, ao mesmo tempo, procura as próprias prisões.
Se, como psicólogo, observo o indivíduo, como pensador não posso deixar de observar a sociedade.
E o que vejo, muitas vezes, é um Titanic a caminho do naufrágio.
Também na sociedade os extremos se encontram. Nazismo e comunismo, embora historicamente distintos e inimigos entre si, revelaram em suas experiências totalitárias a capacidade de esmagar o indivíduo em nome de uma verdade absoluta. Em outro plano, terrorismo e narcotráfico podem se aproximar quando a violência deixa de ser instrumento episódico e passa a constituir uma estrutura de poder, medo e dominação.
É o hibridismo em sua face mais sombria: aquilo que aparentemente se opõe descobre, no exercício da violência, estranhas semelhanças.
Ao mesmo tempo, assistimos à riqueza escandalosa humilhar a pobreza de uma maioria que contempla, pelas telas, um mundo do qual participa como espectadora. A abundância deixou de precisar esconder-se da miséria. Ao contrário, exibe-se diante dela.
Temos ainda uma mídia que, em nome da liberdade, por vezes transforma a liberdade em palavra de ordem, selo ou instrumento de exclusão. A liberdade que deveria abrir espaço para a divergência corre o risco de admitir apenas a divergência permitida.
E mesmo a ciência, uma das maiores conquistas da humanidade, não escapa às contradições de nosso tempo. A medicina que combate a doença convive com uma gigantesca indústria alimentada pela própria existência da doença. Laboratórios produzem medicamentos indispensáveis à vida, mas integram também estruturas econômicas para as quais a enfermidade possui valor de mercado.
Não se trata de negar a ciência. Seria absurdo. Trata-se de compreender que nenhuma criação humana permanece imune às contradições do próprio homem.
Diante disso, a pergunta é inevitável:
E qual a esperança?
Talvez seja preciso mudar o rumo do navio antes que o iceberg deixe de ser metáfora.
Substituir a hipocrisia e o ceticismo por uma civilização capaz de reconhecer que a vida não começa nem termina no indivíduo. Recuperar alguma dimensão de eternidade, não como fuga do mundo, mas como responsabilidade perante aqueles que vieram antes de nós e aqueles que ainda virão.
Se o homem contemporâneo perdeu o horizonte porque passou a acreditar demasiadamente em sua própria capacidade de pilotar sozinho, talvez seja hora de procurar novamente uma estrela.
E pilotar o navio sob a harmonia do Velho Capitão, ainda que atrás da Utopia.
Porque talvez a Utopia não exista para ser alcançada. Talvez exista para impedir que desistamos de navegar.
Finalmente, permito-me ilustrar essa reflexão com um fragmento de minha humilde biografia. Judeu mineiro, trago em minha história uma carta patente de oficial do Exército Brasileiro assinada pelo então presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira.
Um judeu mineiro, oficial do Exército, sob a assinatura de outro mineiro que chegou à Presidência da República.
Talvez também aí esteja o hibridismo de que falo: identidade, pertencimento, destino e circunstância cruzando-se de maneiras que nenhuma razão seria capaz de planejar inteiramente.
Realmente, Deus não joga dados.