
Uma aliança liderada pelos Estados Unidos e formada por governos da América Latina anunciou medidas conjuntas contra 24 organizações classificadas como narcoterroristas, entre elas o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) . O chamado Escudo das Américas reúne países alinhados à política externa do governo de Donald Trump, enquanto o Brasil não integra o grupo.
Criado em março de 2026 por iniciativa de Trump, o grupo tem como uma de suas principais bandeiras o combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas no continente. A declaração assinada na terça-feira (22) prevê medidas como congelamento de ativos, restrições de imigração e de vistos e responsabilização criminal de pessoas que forneçam apoio material ou logístico às organizações.
A iniciativa ganhou destaque durante a Assembleia Geral da ONU, realizada em Nova York. No mesmo dia, Trump defendeu uma atuação mais dura dos Estados Unidos contra cartéis e grupos criminosos na América Latina.
O que é o Escudo das Américas
O Escudo das Américas é uma coalizão criada pelo governo Trump para ampliar a cooperação entre países do continente em áreas como segurança, combate ao crime organizado e tráfico de drogas.
A aliança foi lançada em março, durante uma reunião de líderes realizada na Flórida a convite do presidente americano. Entre os governos que passaram a integrar o grupo estão países como Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, El Salvador e Peru.
A composição da coalizão mudou desde sua criação. A Colômbia, por exemplo, passou a integrar o grupo posteriormente, após a mudança de governo no país.
Atualmente, a relação divulgada como integrantes do Escudo das Américas reúne:
- Estados Unidos;
- Argentina;
- Belize;
- Bolívia;
- Chile;
- Colômbia;
- Costa Rica;
- El Salvador;
- Equador;
- Guiana;
- Honduras;
- Panamá;
- Paraguai;
- Peru.
O Brasil não faz parte da aliança.
Por que o Brasil está fora
O governo brasileiro não participou da reunião que criou o Escudo das Américas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não foi convidado para o encontro de formação do grupo.
Além do Brasil, outros governos latino-americanos inicialmente identificados com posições políticas diferentes das defendidas por Trump também ficaram fora da formação original, como México e Venezuela.
A composição da aliança é associada por analistas a uma aproximação política e diplomática entre os governos participantes e a administração Trump.
Quais países assinaram as sanções contra PCC e CV
Embora a lista de integrantes do Escudo das Américas tenha 14 países, a declaração conjunta de sanções divulgada em 22 de setembro foi assinada por 15 governos.
Além dos Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai e Peru, o documento também teve a assinatura da República Dominicana e de Trinidad e Tobago, país no Caribe.
A declaração considera as organizações criminosas uma ameaça compartilhada à segurança do continente e anuncia uma primeira ação conjunta contra 24 grupos.
Entre os alvos estão o PCC e o Comando Vermelho, duas das principais organizações criminosas brasileiras.
Quais sanções foram anunciadas
De acordo com o documento, os países pretendem adotar, conforme suas próprias legislações e obrigações internacionais, uma série de medidas contra integrantes, associados e apoiadores das organizações.
Entre elas estão:
- congelamento de ativos;
- restrições de imigração;
- restrições de vistos;
- responsabilização criminal de pessoas que forneçam conscientemente apoio material aos grupos;
- medidas contra quem ofereça apoio logístico às organizações.
A declaração afirma que a primeira ação conjunta será direcionada às 24 organizações listadas no documento, independentemente do nome utilizado para identificá-las em cada país.
A medida foi apresentada após um pedido de Trump aos integrantes da coalizão. Segundo a declaração, os países deverão utilizar mecanismos de cooperação regional para colocar as ações em prática.
O que Trump falou sobre os cartéis
O combate ao narcotráfico também foi um dos temas abordados por Trump durante seu discurso na 81ª Assembleia Geral da ONU, na terça-feira (22).
O presidente americano afirmou que os Estados Unidos estão utilizando suas Forças Armadas para combater gangues e cartéis de drogas e comparou essas organizações ao Estado Islâmico.
Trump também defendeu uma atuação mais ampla dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental e afirmou que pretende combater o que chamou de interferência externa na região.
A posição faz parte de uma política externa que tem buscado reforçar a influência americana sobre os países das Américas.
Escudo das Américas e a relação com a Doutrina Monroe
A criação da aliança ocorre em meio à retomada, pelo governo Trump, de referências à Doutrina Monroe, formulada no século 19 e historicamente associada à ideia de que as Américas deveriam permanecer dentro da esfera de influência dos Estados Unidos.
Analistas relacionam o Escudo das Américas a essa visão da política externa americana, especialmente pela tentativa de Washington de ampliar a cooperação regional em segurança e reduzir a presença e a influência de outras potências no continente.
Entretanto, a comparação é uma interpretação sobre a política externa do governo Trump, e não uma definição formal do próprio Escudo das Américas.
Brasil adota posição diferente na ONU
A criação da aliança ocorreu no mesmo contexto em que Lula e Trump discursaram na Assembleia Geral da ONU.
Em sua fala, Lula defendeu o multilateralismo, a soberania dos países e o princípio da não interferência em assuntos internos.
Ao abordar a posição brasileira no cenário internacional, o presidente afirmou:
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”
A declaração foi feita em um discurso no qual Lula também falou sobre conflitos internacionais, democracia, soberania e a necessidade de reformar estruturas da Organização das Nações Unidas.
Assim, enquanto o governo Trump busca ampliar uma coalizão regional de países para ações conjuntas contra organizações criminosas, o governo brasileiro tem enfatizado a autonomia nacional e a atuação por meio de instituições multilaterais.
PCC e CV entram na mira internacional
A inclusão do PCC e do Comando Vermelho na lista do Escudo das Américas amplia a pressão internacional sobre as duas organizações brasileiras.
O governo dos Estados Unidos já havia adotado medidas contra grupos criminosos latino-americanos. A novidade da declaração é a tentativa de coordenar medidas semelhantes entre diferentes governos do continente.
No Brasil a classificação de organizações criminosas como terroristas é alvo de uma discussão diferente da adotada pelos Estados Unidos.
A legislação brasileira define terrorismo como a prática de atos por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, desde que exista a finalidade de provocar terror social ou generalizado.
Representantes do governo brasileiro já argumentaram que facções como PCC e CV atuam com objetivo de obter lucro por meio de atividades criminosas, sem uma motivação ideológica, política ou religiosa.
A diferença de conceitos é importante porque uma classificação feita pelo governo americano não altera automaticamente a definição jurídica de terrorismo prevista na legislação brasileira.