
A poucas semanas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos , o Irã intensificou a pressão militar e econômica sobre o governo de Donald Trump . A estratégia de Teerã, segundo especialistas ouvidos pela Deutsche Welle, parece combinar demonstrações de força com uma tentativa de evitar que o confronto evolua para uma guerra em larga escala.
A votação está marcada para 3 de novembro de 2026 e pode se transformar em um ponto de pressão para o governo americano. Um dos principais problemas é o impacto do conflito sobre os preços dos combustíveis e da energia, que afeta diretamente os eleitores.
O próprio Trump relacionou o fim da guerra ao calendário eleitoral. Na semana passada, o presidente afirmou que o conflito terminaria imediatamente depois das eleições e voltou a defender a ofensiva americana contra o Irã .
Segundo Trump, os ataques tiveram como objetivo impedir que Teerã desenvolvesse armas nucleares . O presidente também afirmou que os preços do petróleo cairiam depois de uma vitória dos Estados Unidos no conflito.
Petróleo passa de R$ 500 e aumenta pressão sobre Trump
A guerra já produz efeitos no mercado internacional de energia. Em 9 de setembro, o petróleo Brent voltou a superar a marca de US$ 100 por barril, o que equivale a aproximadamente R$ 511,86, em meio ao aumento das tensões envolvendo o Irã e o Estreito de Ormuz .
A região é estratégica para o comércio mundial de petróleo. Uma interrupção prolongada da navegação pode reduzir a oferta disponível no mercado e elevar os custos para consumidores e empresas em diferentes países.
A situação ganhou outro componente com a atuação dos houthis, grupo aliado de Teerã no Iêmen . Na última sexta-feira (11), informações indicaram que os rebeldes passaram a controlar o Estreito de Bab el-Mandeb, passagem marítima que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden .
Com isso, o conflito deixa de representar apenas uma disputa militar entre Washington e Teerã e passa a produzir consequências sobre rotas comerciais e preços de energia em escala internacional.
Por que o Irã evita uma guerra maior?
Para Mohammad Ghaedi, professor de Ciência Política da Universidade George Washington, nos EUA, o comportamento iraniano pode ser interpretado como uma espécie de “escalada controlada”.
A avaliação é de que Teerã pretende impor custos aos Estados Unidos antes das eleições, mas sem provocar uma reação que dê a Washington justificativa para ampliar significativamente a ofensiva.
O governo iraniano precisa, ao mesmo tempo, demonstrar que possui capacidade para ameaçar forças americanas e afetar o tráfego marítimo na região.
Essa estratégia explicaria, segundo Ghaedi, o número relativamente limitado de mísseis utilizados contra embarcações militares americanas. A intenção seria manter a pressão sem ultrapassar um limite que desencadeie uma resposta ainda mais agressiva.
Em 8 de setembro, o governo dos EUA afirmou que forças americanas destruíram cinco petroleiros iranianos. A operação ocorreu após dois ataques que, segundo Washington, foram realizados pela Guarda Revolucionária Islâmica com mísseis balísticos contra um navio de guerra americano.
Acordo entre Irã e EUA pode voltar à mesa
Apesar da escalada, Teerã também mantém aberta a possibilidade de uma saída diplomática.
No fim de agosto, o presidente iraniano, Massoud Peseshkian, afirmou durante uma reunião da Organização de Cooperação de Xangai que seu país preferia retomar o chamado Memorando de Islamabad, firmado entre Estados Unidos e Irã em junho de 2026 como tentativa de colocar fim ao conflito.
A condição apresentada pelo governo iraniano é que Washington também volte a cumprir suas obrigações previstas no entendimento.
Entretanto, há obstáculos para uma retomada rápida das negociações. Um deles envolve uma cláusula relacionada à retirada israelense do Líbano, medida considerada pouco provável antes das eleições israelenses.
A eleição para o Parlamento de Israel está prevista para 27 de outubro, menos de uma semana antes da votação americana.
Por isso, parte dos observadores em Teerã avalia que uma mudança significativa na dinâmica do conflito pode depender do resultado dos dois processos eleitorais.
Trump pode enfrentar problema político com a guerra
A proximidade das eleições americanas aumenta o peso político do conflito para o governo Trump.
Em 2 de setembro, a Reuters informou que assessores do presidente defendiam uma contenção da escalada antes da votação de novembro, diante do temor de que os efeitos econômicos da guerra prejudicassem os republicanos.
O governo americano também avaliaria ampliar as operações militares depois das eleições.
A preocupação está principalmente relacionada ao custo da energia. Se a guerra mantiver o petróleo em patamares elevados, o impacto pode chegar aos preços da gasolina e de outros produtos nos Estados Unidos, afetando o humor dos eleitores.
Para Trump, isso cria uma situação delicada, já que ao mesmo tempo em que o presidente apresenta a ofensiva como necessária para garantir a segurança americana, a continuidade do conflito pode gerar um problema econômico justamente antes de uma eleição importante.
Países do Golfo tentam evitar bloqueio de Ormuz
Enquanto Estados Unidos e Irã mantêm a confrontação, países da região buscam uma alternativa diplomática.
Omã e outras nações do Golfo retomaram esforços para encontrar uma solução que permita garantir, ao menos temporariamente, a navegação comercial pelo Estreito de Ormuz .
Segundo informações do Financial Times, ministros das Relações Exteriores dos países do Golfo planejavam uma reunião com o chanceler iraniano em Salalah, em Omã .
Qualquer acordo, entretanto, teria de considerar a posição dos Estados Unidos, que mantêm um bloqueio naval contra o Irã .
A situação também é acompanhada de perto pelo mercado de energia. Uma restrição duradoura na passagem de navios por Ormuz poderia provocar novos aumentos nos preços internacionais do petróleo.
Irã ameaça ampliar resposta militar
Apesar das negociações em andamento, autoridades iranianas continuam adotando um discurso de enfrentamento.
Em 9 de setembro, o vice-presidente do Parlamento iraniano, Ali Nikzad, afirmou que o país continuaria a guerra até uma “vitória final”.
No dia anterior, Hossein Mohebbi, porta-voz da Guarda Revolucionária, declarou que os Estados Unidos precisariam interromper completamente a guerra e abandonar novas ameaças para que o conflito chegasse ao fim.
A Guarda Revolucionária também divulgou, em 10 de setembro, um vídeo que, segundo fontes iranianas, mostraria a captura de um drone submarino americano no Estreito de Ormuz. O equipamento, fabricado pela Anduril, seria utilizado em uma operação secreta de remoção de minas.
O que pode acontecer depois da eleição
O resultado das eleições de meio de mandato pode influenciar os próximos passos de Washington e, consequentemente, a estratégia de Teerã .
Caso os democratas conquistem o controle do Congresso, podem tentar aumentar a pressão política sobre Trump para limitar a campanha militar. Nesse cenário, o Irã teria interesse em evitar ações que provoquem uma reação conjunta de democratas e republicanos em defesa de uma postura mais dura contra Teerã .
A liderança iraniana também enfrenta um dilema interno. Para o economista Ahmad Alavi, aumentar a pressão econômica não significa necessariamente que o país fará concessões.
Se Teerã interpretar as sanções e o isolamento como uma tentativa de provocar uma mudança de regime, e não apenas de alterar sua política, a tendência pode ser justamente a oposta, que seria ampliar a resistência militar.
Por outro lado, uma redução real da pressão e a existência de um canal confiável de negociação poderiam aumentar a disposição iraniana para fazer concessões.
Assim, o calendário eleitoral americano se tornou mais um elemento importante na disputa. Até novembro, Trump terá de administrar os efeitos econômicos da guerra, enquanto o Irã tenta elevar os custos para Washington sem desencadear uma ofensiva ainda maior.
*Com informações da Deutsche Welle.