
Mensagens encontradas no celular de um homem acusado de homicídio em Maryland, na Costa Leste dos Estados Unidos, indicam que ele dizia atuar como assassino de aluguel e que esse tipo de trabalho estava aumentando. Douglas Lacey, de 24 anos, é acusado de ter matado Jonah Mutua, de 23, em março de 2025, no condado de Montgomery, em um crime que, segundo a Promotoria, teria sido encomendado por Bekine Ayele, também de 23 anos.
Segundo o Washington Post, que teve acesso a documentos judiciais e acompanhou audiências do caso, Lacey teria escrito em uma conversa em grupo que seu trabalho como assassino de aluguel estava ganhando movimento. Em outro registro encontrado no telefone, uma anotação pedia todas as informações disponíveis sobre um “alvo” e dizia que, a partir disso, a pessoa poderia ter sua posição adiantada em uma fila.
As mensagens estão entre os elementos utilizados pela acusação para sustentar a hipótese de um assassinato por encomenda. A defesa de Lacey afirma que ele é inocente e contesta essa interpretação. O advogado Mark Anderson argumenta que os textos podem representar humor mórbido ou bravata e não comprovam que seu cliente tenha sido contratado para matar Mutua.
Até agora, não foi apresentada em tribunal prova de quanto teria sido cobrado pelo suposto assassinato nem de que algum pagamento tenha sido efetivamente realizado.
Mensagens sobre trabalhos como assassino
O conteúdo encontrado no celular de Lacey ganhou importância depois que os investigadores passaram meses tentando descobrir quem havia matado Mutua e por quê.
Em outra conversa recuperada do aparelho, Lacey teria recebido uma mensagem perguntando se já havia alcançado o nível de um assassino profissional de Hollywood. Ele respondeu que ainda não e que tinha muito a aprender.
Os investigadores também encontraram uma anotação no iPhone que solicitava informações sobre um “alvo”. O mesmo registro mencionava uma pistola modificada para funcionar como uma arma automática.
Para a acusação, o conjunto das mensagens é compatível com a hipótese de que Lacey realizava trabalhos como assassino de aluguel.
A defesa discorda. Anderson afirma que nenhum desses textos estabelece um acordo financeiro entre Lacey e Ayele, apontado pelos investigadores como o suposto mandante do homicídio.
Vítima foi alvo de 21 disparos
Mutua foi morto em uma manhã de sábado de março de 2025. Ele havia saído de casa para ajudar os pais em uma mudança quando foi surpreendido em um estacionamento na região de Fairland, no condado de Montgomery.
Segundo a polícia, um homem usando uma máscara preta saiu de um carro e disparou duas rajadas. Mutua ainda tentou correr, mas caiu no estacionamento.
Foram feitos 21 disparos
Testemunhas disseram à polícia que o atirador fugiu em um Tesla cinza ou azul que estava sem placas. Imagens de câmeras residenciais mostraram um veículo semelhante circulando pela região antes e depois do homicídio.
A primeira tentativa dos investigadores foi procurar no celular da própria vítima mensagens ou outras informações que indicassem que Mutua estava sendo ameaçado. Nada relevante foi encontrado.
A atenção então se voltou para o carro usado na fuga.
GPS esquecido no Tesla ajudou investigação
As imagens permitiram identificar características específicas do Tesla, como detalhes cromados ao redor das janelas e rodas escuras.
Um veículo semelhante havia sido usado em outro ataque a tiros ocorrido sete meses antes, nas proximidades de uma piscina.
A polícia obteve autorização judicial para coletar dados de aparelhos eletrônicos que estiveram nas proximidades do homicídio entre 45 minutos antes e 15 minutos depois dos disparos. Os investigadores compararam essas informações com dados obtidos na apuração do ataque anterior.
Um dispositivo GPS aparecia nos dois locais.
A polícia identificou a empresa responsável pelos dados do equipamento e descobriu que o rastreador estava instalado em um Tesla Model 3 de 2020. A empresa forneceu aos investigadores o número de identificação do veículo e informou que poderia entregar os registros dos deslocamentos do carro mediante uma intimação.
Há indícios de que Lacey nem sequer soubesse que estava sendo rastreado.
De acordo com documentos judiciais, o GPS havia sido instalado por um proprietário anterior do Tesla como parte de um plano de serviço de três anos que nunca foi cancelado.
Celular mudou o rumo da investigação
Uma semana depois, uma equipe da SWAT prendeu Lacey em sua casa no condado de Prince George.

Segundo documentos judiciais, investigadores encontraram uma pistola 9 mm embaixo da cama. Outra pistola e um rifle foram localizados no Tesla estacionado do lado de fora.
A polícia afirma que Lacey confirmou ser o único motorista do veículo. Depois que um investigador mencionou a existência do rastreador GPS, ele interrompeu o interrogatório e pediu um advogado.
Mesmo com as informações de localização e os registros do carro, a polícia ainda não havia conseguido estabelecer uma ligação entre Lacey e Mutua.
A prisão, porém, colocou nas mãos dos investigadores uma nova fonte de informações: o celular de Lacey.
Foto da vítima e mapa da casa
Entre os arquivos encontrados no aparelho estavam capturas de tela de uma chamada de FaceTime realizada 11 dias antes do homicídio.
Segundo os investigadores, uma pessoa identificada como “Keem's iPhone” compartilhou durante a chamada uma fotografia de Mutua e um mapa do bairro da vítima com uma marcação sobre a casa onde ela morava.
A polícia encontrou entre os contatos de Lacey uma pessoa registrada como “Keem” e associou o número de telefone a Bekine Ayele, morador de Burtonsville, em Maryland.
A partir dessas informações, os investigadores passaram a trabalhar com a hipótese de que Ayele teria contratado Lacey para matar Mutua.
A polícia também identificou uma relação anterior entre Ayele e a vítima. Os dois, acompanhados de outras duas pessoas, haviam se envolvido em um roubo relacionado a drogas no condado de Baltimore em 2022.
Segundo os investigadores, Mutua ainda devia US$ 2.200 a Ayele.
Defesa questiona provas de localização
Além de negar que as mensagens comprovem a atuação de Lacey como assassino de aluguel, a defesa tenta impedir a utilização de parte dos dados eletrônicos que levaram os investigadores até ele.
A polícia obteve ordens judiciais para que AT&T, Verizon e T-Mobile fornecessem informações sobre celulares e outros dispositivos eletrônicos que estavam nas proximidades do local do homicídio.
Não está claro quantos aparelhos tiveram informações incluídas nessa busca. A defesa afirma que foram milhares.
Anderson argumenta que a medida atingiu pessoas sem qualquer ligação com o crime e violou expectativas legítimas de privacidade.
Promotores sustentam que a polícia delimitou a área da forma mais restrita possível e utilizou números de telefone e identificadores dos aparelhos apenas como pistas para localizar possíveis suspeitos.
Um juiz ainda não decidiu se as provas serão admitidas. Em audiência recente, porém, o magistrado J. Bradford McCullough afirmou que, naquele momento, considerava que as ordens judiciais aparentavam ser válidas.
Lacey e Ayele respondem por homicídio em primeiro grau. O julgamento de Lacey está previsto para o próximo ano. Os dois ainda não apresentaram em julgamento suas versões sobre as acusações.