Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF
Tom Costa/MJSP
Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF

Andrei Augusto Passos Rodrigues é delegado da Polícia Federal (PF) há mais de 20 anos e comandava a corporação desde janeiro de 2023. Gaúcho, formado em Direito e com experiência nas áreas de segurança pública, cooperação internacional e proteção de autoridades, ele foi afastado preventivamente da Direção-Geral da PF nesta terça-feira (8) por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), em meio a questionamentos sobre relatórios de inteligência produzidos pela corporação.

Natural de Pelotas, no Rio Grande do Sul, Rodrigues é graduado em Direito pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), onde estudou entre 1994 e 1997. Fez pós-graduação na Escola Superior da Magistratura Federal do Rio Grande do Sul e curso de Gestão em Segurança Pública pela Secretaria Nacional de Segurança Pública e pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Entre 2019 e 2020, concluiu mestrado em Alta Gestão em Segurança Internacional pelo Centro Universitário da Guardia Civil da Espanha e pela Universidade Carlos III de Madrid.

Ao longo da carreira na Polícia Federal, Rodrigues ocupou diferentes funções. Foi chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes em Manaus, da Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários em Porto Alegre e da unidade da PF no Aeroporto Internacional de Brasília. Também atuou como assistente da Diretoria-Executiva, oficial de ligação da Polícia Federal em Madri, coordenador-geral de Polícia Fazendária e chefe da Divisão de Relações Internacionais.

A trajetória também inclui trabalhos na segurança de autoridades. Rodrigues participou da segurança de Dilma Rousseff durante a campanha presidencial de 2010. Em 2022, comandou a equipe responsável pela segurança de Luiz Inácio Lula da Silva durante a campanha que levou o petista novamente à Presidência da República. Após a eleição, integrou a equipe de transição e coordenou o Grupo de Trabalho de Inteligência Estratégica.

Entre esses períodos, Rodrigues ocupou a Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos. No cargo, foi responsável pela segurança da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.

O currículo oficial também registra atuação como secretário-executivo da Comunidade de Polícias da América (Ameripol) e experiência em cooperação policial internacional e enfrentamento ao crime transnacional.

Rodrigues assumiu a Direção-Geral da Polícia Federal em 2 de janeiro de 2023. A escolha havia sido anunciada pelo então futuro ministro da Justiça, Flávio Dino, após a vitória de Lula nas eleições de 2022.

Caso Master e menções de Vorcaro

O nome de Andrei Rodrigues passou a aparecer em um dos desdobramentos das investigações envolvendo Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

Um relatório da própria Polícia Federal identificou mensagem em que Vorcaro afirmava precisar da “proteção” de “Andrei” e “Paulo”. Segundo a PF, as referências seriam a Andrei Rodrigues e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. A investigação concluiu posteriormente que a mensagem havia sido destinada ao ministro Alexandre de Moraes, do STF.

A referência feita por Vorcaro não demonstra, por si só, que Rodrigues tenha oferecido proteção ao banqueiro, recebido um pedido nesse sentido ou adotado alguma providência em favor dele.

O conteúdo levou André Mendonça, responsável por parte das investigações relacionadas ao caso Master no Supremo, a solicitar informações complementares à Procuradoria-Geral da República sobre as referências a Rodrigues e Gonet.

Relatórios registraram desconfiança de Mendonça
Outra controvérsia envolvendo Rodrigues veio a público no início de setembro, após a divulgação de relatórios de inteligência produzidos pela Polícia Federal.

Segundo os documentos, revelados em decisão de Alexandre de Moraes, integrantes da PF registraram declarações atribuídas a André Mendonça sobre Rodrigues. Um dos relatórios afirma que o ministro teria considerado “inadequada” a proximidade do diretor-geral com Lula e, por esse motivo, não o consideraria confiável para conduzir determinadas investigações.

O documento também afirma que Mendonça teria avaliado a possibilidade de afastar Rodrigues do cargo. Essas informações correspondem à avaliação registrada pelos integrantes da Polícia Federal nos relatórios e não, naquele momento, a uma decisão formal de afastamento.

Os investigadores interpretaram os episódios como possível tentativa de interferência na condução da corporação. Essa é uma avaliação feita pela PF nos documentos, e não uma conclusão judicial sobre a atuação de Mendonça.

Fachin pede explicações a Andrei

As controvérsias também levaram o presidente do STF, Edson Fachin, a abrir, em 3 de setembro, um procedimento para esclarecer supostas irregularidades em investigações da Polícia Federal envolvendo autoridades com foro na Corte.

Na PET 16.704, Fachin determinou que Alexandre de Moraes, André Mendonça, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues apresentassem esclarecimentos por escrito no prazo de cinco dias úteis.

Entre os pontos que Fachin pediu que fossem esclarecidos estão o cumprimento, pela PF, das regras aplicáveis quando surgem indícios envolvendo autoridades com foro no Supremo; eventual uso de credenciais institucionais para acessar documento particular; possível revelação de informações sob sigilo judicial a pessoa investigada; e circunstâncias de uma determinação para identificação de pessoas mencionadas em material da investigação.

O próprio despacho ressalta que as providências foram adotadas para instruir o procedimento, sem antecipar conclusão sobre a existência de irregularidades.

Afastamento preventivo

Nesta terça-feira (8), a situação ganhou um novo capítulo. André Mendonça determinou o afastamento de Rodrigues da Direção-Geral da Polícia Federal. O ministro também afastou preventivamente Leandro Almada da Diretoria de Inteligência da corporação.

Ao justificar a medida, Mendonça apontou o que classificou como “superlativa gravidade e ilicitude” na produção dos relatórios de inteligência da PF que haviam sido tornados públicos por Alexandre de Moraes. Segundo o ministro, seriam necessárias providências imediatas para preservar as prerrogativas da magistratura, da advocacia pública e da própria atividade policial.

De acordo com a decisão, o afastamento tem caráter preventivo e busca evitar possíveis constrangimentos e permitir que autoridades e servidores atuem de forma independente durante as apurações.

A medida não representa condenação de Rodrigues. As circunstâncias relacionadas aos relatórios e à atuação das autoridades envolvidas ainda são objeto de apuração.

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