Oceanos mais quentes: o que isso muda para o planeta

Temperatura média diária global da superfície do mar bateu recorde; fenômeno traz impactos para a vida marinha, pesca e também gera ondas de calor

Oceanos atingem média de temperatura mais alta da história
Foto: Reprodução/ECMWF
Oceanos atingem média de temperatura mais alta da história

A elevação na temperatura dos oceanos gera a intensificação de tempestades extremas, pode acelerar o branqueamento de corais e a descompensação do clima global nos próximos meses. O alerta surge após a superfície do mar atingir a marca histórica de 21,1°C, um nível crítico impulsionado pelo aquecimento planetário e por um El Niño de forte intensidade.

A temperatura média diária global da superfície do mar (TSM) bateu recorde e atingiu o nível mais alto da história. O registro foi feito no último sábado (22) e superou uma marca de 2024.

A informação foi confirmada pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) e pelo Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus (C3S), componente de Observação da Terra do programa espacial da União Europeia.

 O marco anterior era de 21,09°C e havia sido registrado em março de 2024.

O registro também superou o valor mais alto de agosto, que havia sido registrado em 2023, de 20,98°C. Neste mês, ainda foi registrada uma sucessão de recordes mensais de temperatura da superfície do mar e valores próximos a recordes observados ao longo de todo 2026.

Segundo os cientistas, esse marco é consistente com o aquecimento contínuo e de longo prazo do oceano global e com o surgimento de um evento El Niño extremo no Pacífico tropical.

O fenômeno já havia sido classificado com intensidade forte em índices de monitoramento, tornando-se um  Super El Niño.

Segundo a Líder Estratégica para o Clima no ECMWF, Samantha Burgess, o aumento do calor nas águas do mar  traz riscos também para os ecossistemas marinhos e as comunidades costeiras. Além disso, as consequências já são visíveis, como o aumento do número das ondas de calor.

Este recorde é mais um sinal claro de um oceano sob crescente pressão. O El Niño está adicionando calor ao sistema, mas está fazendo isso além de décadas de aquecimento causadas pela ação humana. À medida que as temperaturas oceânicas continuam a subir, os riscos para os ecossistemas marinhos e as comunidades costeiras também aumentam. As consequências já são visíveis: o número de dias de ondas de calor marinhas em todo o mundo mais que triplicou desde o início da década de 1990, exercendo uma pressão crescente sobre os ecossistemas marinhos e as comunidades que dependem deles.”
Samantha Burgess, Líder Estratégica para o Clima no ECMWF.

A elevação das temperaturas nos oceanos, além de danificar os ecossistemas, também desestabiliza as teias alimentares marinhas e indústrias como a pesca e aquicultura.

A longo prazo

Ainda de acordo com os cientistas da ECMWF, o aumento a longo prazo da temperatura dos oceanos tem consequências de longo alcance para as comunidades e também para os ecossistemas.

Segundo os especialistas, um oceano mais quente contribui para a elevação do nível do mar por meio da expansão térmica. Esse aumento também eleva os riscos para as comunidades costeiras e nações insulares de baixa altitude.

O aumento da temperatura dos oceanos também intensifica o potencial para eventos climáticos extremos.

O ECMWF explicou que um oceano mais quente transfere mais calor e umidade para a atmosfera. Com isso, as chuvas e alguns sistemas de tempestades se intensificam.

Mais quente, o oceano também fica menos eficiente na absorção de dióxido de carbono da atmosfera, enfraquecendo potencialmente uma das mais importantes barreiras naturais do planeta contra as mudanças climáticas.

Os cientistas do ECMWF também informaram que seguem monitorando a situação para determinar se o aumento na temperatura da superfície do mar (TSM) diária é temporário ou persistente.

El Niño

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial — ou seja, próximo à linha do Equador. Geralmente, ocorre num intervalo de cinco a sete anos e pode durar entre um ano e dois anos, iniciando-se por volta do mês de dezembro.

Comumente, a temperatura varia entre 2 ºC e 3,5 ºC, levando em consideração que, em condições normais, a temperatura das águas superficiais do Pacífico é de 23 ºC.

Com o aquecimento acima da média do Pacífico, altera-se a circulação atmosférica e, consequentemente, os níveis de chuva e as temperaturas em vários locais do planeta.