Calçadão de Ubá (MG) segue destruído 6 meses após tempestade

Enchente deixou oito mortos e devastou comércio da cidade; comerciantes ainda tentam reconstruir negócios enquanto obras avançam no Centro

Calçadão de Ubá após a água começar a abaixar e os comerciantes tentarem recuperar as lojas
Foto: Jane Gressi / Arquivo pessoal
Calçadão de Ubá após a água começar a abaixar e os comerciantes tentarem recuperar as lojas

“A sensação era de estar em uma cidade de guerra: a loja destruída, mercadorias espalhadas e pessoas tentando pegar o que encontravam no meio de toda aquela destruição". É assim que Jane Gressi, dona da loja de bolsas Passaporte, localizada no número 316, loja 4, no Calçadão de Ubá, na Zona da Mata mineira , descreve o cenário encontrado depois da enchente de 23 de fevereiro.

Seis meses após a tempestade que matou oito pessoas e deixou um rastro de destruição pela cidade, ela ainda tenta reconstruir o comércio e os planos que foram levados pela água.

Naquele dia, Jane havia fechado a loja com as sócias, Maria Aparecida Souza, mais conhecida como Paré, e Edineia Horsay, sem imaginar o que aconteceria horas depois. O estabelecimento estava cheio de mercadorias e havia uma live programada para o próximo dia. Jane ficou ilhada e não conseguiu chegar ao local quando a água tomou conta da região durante a noite e madrugada do dia 24 de fevereiro. 

As sócias conseguiram chegar à loja e encontraram uma cena que, segundo Jane, jamais será esquecida.

A água quebrou os vidros e levou praticamente tudo o que havia dentro do estabelecimento. Quando finalmente conseguiu chegar, Jane se deparou com mercadorias espalhadas e uma região completamente devastada.

“Era muita destruição”, lembra.


Enchente colocou milhares de empregos em risco

A destruição provocada pela enchente não atingiu apenas estoques, paredes e equipamentos. O desastre também colocou em risco a sobrevivência de milhares de trabalhadores que dependiam dos estabelecimentos afetados para ter renda.

Segundo levantamento da Associação Empresarial de Ubá (Aciubá), os 1.115 estabelecimentos analisados reuniam 5.738 trabalhadores . As respostas dadas pelas empresas indicaram que 5.378 desses postos estavam em situação de risco imediato ou já haviam sido afetados pelas consequências da tragédia.

O estudo também estima que, considerando os empregos indiretos ligados ao comércio, o impacto pode chegar a 10 mil a 15 mil postos de trabalho .

O prejuízo financeiro também alcançou uma dimensão que ultrapassa os danos visíveis nas ruas. De acordo com a Aciubá, os danos físicos diretos declarados chegaram a R$ 297,2 milhões . Quando são somados os impactos indiretos e a perda de faturamento projetada, o impacto econômico total estimado ultrapassa R$ 650 milhões .

A pesquisa mostra ainda que 93,7% dos estabelecimentos analisados sofreram danos graves ou perda total. Ao todo, 162 empresas declararam perda total, enquanto 575 negócios, ou 51,6% da amostra, disseram considerar o fechamento temporário ou permanente. Outras 245 empresas previam demissões e 178 indicaram que precisariam reduzir as operações.

"O que vamos fazer?"

Os números ajudam a explicar o desespero vivido pelos comerciantes nos dias seguintes à enchente. Para muitos, a pergunta feita por Jane — “O que vamos fazer?” — não era apenas sobre a reconstrução de uma loja, mas sobre como manter empresas abertas, preservar empregos e garantir a renda das famílias.

As contas continuavam chegando, mas a loja havia perdido mercadorias e estrutura. Para muitos comerciantes afetados, o desafio passou a ser não apenas contabilizar os prejuízos, mas descobrir como manter os negócios funcionando e encontrar forças para recomeçar.

Segundo Jane, nos primeiros dias parecia impossível encontrar uma saída. No entanto, o apoio de parceiros antigos foi fundamental para que as sócias decidissem tentar recomeçar.

“Recebemos apoio, força e palavras que nos fizeram acreditar que ainda era possível levantar a nossa loja novamente”, afirma.

Hoje, a Passaporte está em processo de reconstrução. Mas, para Jane, a recuperação não se resume às paredes e às mercadorias perdidas.

“Seguimos dando um passo de cada vez, tentando reconstruir não apenas paredes e mercadorias, mas principalmente os nossos sonhos”, diz.

Procurado pelo iG, o presidente da Aciubá, Elias Coelho, informou que a entidade colocou em prática uma série de ações após a tragédia, com foco na retomada da atividade econômica e no apoio aos empresários atingidos.

Entre as iniciativas estão campanhas de incentivo às compras no comércio local, realização de feiras, criação de um fundo para empréstimos sem juros e uma parceria com a Prefeitura para formar um fundo destinado à doação de recursos aos empresários afetados pela enchente.

Entretanto, para quem trabalha no Calçadão, os efeitos da enchente continuam visíveis seis meses depois.

Após seis meses, Calçadão de Ubá continua em obras
Foto: Jane Gressi / Arquivo pessoal
Após seis meses, Calçadão de Ubá continua em obras


Calçadão ainda está em obras

O Calçadão Deputado Ibrahim Jacob, na Rua São José, foi um dos pontos mais atingidos pela enchente e continua em obras. A recuperação começou em maio e inclui a substituição do piso e intervenções para melhorar o escoamento da água.

A Prefeitura informou que também foram realizados trabalhos nas redes de água e esgoto antes da etapa de recuperação do calçamento. A previsão divulgada pelo município é de conclusão dos trabalhos em setembro.

Para Jane, no entanto, seis meses depois da tragédia, a percepção de quem trabalha diariamente no local é de que ainda há muito a ser feito.

“Seis meses se passaram e, infelizmente, olhando para o calçadão onde nossa loja está localizada, parece que quase nada mudou. Ainda há muito para ser reconstruído”, afirma.

O iG entrou em contato com a Prefeitura de Ubá para solicitar informações atualizadas sobre o andamento das obras, os valores já utilizados e o cronograma de reconstrução. Até a publicação desta reportagem, não houve retorno.

Cidade ainda tenta se recuperar

A enchente aconteceu entre a noite de 23 e a madrugada de 24 de fevereiro. Foram registrados cerca de 170 milímetros de chuva em menos de quatro horas, fazendo o Rio Ubá subir quase oito metros . O volume provocou alagamentos e inundações em dezenas de bairros e na região comercial.

A força da água também provocou o desabamento de quatro imóveis e destruiu completamente três pontes: a Ponte Major Siqueira, a ponte da Rua dos Viajantes e a ponte da Rua Nossa Senhora Aparecida.

Oito pessoas morreram depois de serem levadas pela correnteza. Uma das vítimas, Luciano Franklin Fernandes, de 50 anos, só teve o corpo localizado 22 dias após a enchente.

Um dos episódios que mais marcou a tragédia foi o resgate de Edna Almeida, que permaneceu agarrada a um poste durante cerca de três horas em meio à enxurrada.

16 obras de reconstrução

Seis meses depois, a Prefeitura de Ubá mantém 16 obras de reconstrução em andamento . Além do Calçadão, os trabalhos incluem instalação de guarda-corpos, construção de muros de gabião para contenção de encostas e recuperação do calçamento da Avenida Beira-Rio.

O município solicitou R$ 60 milhões ao governo federal para as obras. Desse total, R$ 45 milhões já foram liberados, enquanto outros R$ 15 milhões ainda são aguardados.

A reconstrução das pontes destruídas também segue em etapas. O projeto da Ponte da Fazendinha já foi encaminhado para que seja iniciado o processo de licitação, enquanto o projeto de engenharia da Ponte Major Siqueira estava em fase final.

Nesta segunda-feira (24), seis meses depois da tragédia, a Prefeitura decretou situação de emergência em Ubá . A medida substituiu o decreto de calamidade pública, que havia vencido, e permite que o município continue buscando recursos estaduais e federais para concluir a reconstrução.


"Não vamos desistir"

Enquanto as máquinas trabalham no Calçadão, comerciantes como Jane tentam reconstruir suas próprias histórias.

Ela diz não saber quanto tempo será necessário para que a Passaporte volte a ser como antes da enchente. Mas afirma que a decisão de seguir em frente já foi tomada.

“A enchente levou mercadorias, destruiu nossa loja e deixou marcas que nunca serão esquecidas. Mas não levou a nossa coragem, a nossa fé e a vontade de recomeçar”, afirma.

Foto: Jane Gressi/ Arquivo pessoal
Loja Passaporte foi inundada durante a enchente. Hoje ela tenta se recuperar


Para Jane, o futuro ainda é incerto, mas existe a esperança de que a tragédia não seja o capítulo final da história da loja.

“Algumas histórias não terminam com uma tragédia. Elas começam novamente a partir dela.” E completa: “Eu e a Paré vamos vencer. Vamos reconstruir. Vamos recomeçar. E, um dia, vamos olhar para tudo isso e dizer: nós conseguimos.”