Agente da PRF que atendeu acidente no PR relata "cena de guerra"

Policial rodoviário descreve como foi atender ocorrência envolvendo um micro-ônibus e um caminhão, na BR 373, que deixou 23 vítimas fatais na BR-373

Ônibus era da Prefeitura de Imbituva (PR) e estava a caminho de atendimento médico
Foto: Agência Brasil
Ônibus era da Prefeitura de Imbituva (PR) e estava a caminho de atendimento médico

Um dos maiores acidentes rodoviários do Paraná aconteceu na madrugada desta quarta-feira (19), na BR-373, em Ipiranga (PR). A batida de frente entre um micro-ônibus e um caminhão deixou 23 vítimas fatais, muitos destroços, um congestionamento de quilômetros e um novo trauma para os paranaenses.  Principalmente da cidade de Imbituva (PR), de onde o ônibus com as vítimas saiu em busca de atendimento médico.

“Uma cena de guerra ”, descreveu o agente da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Carlos Ricardo Vetorazzi, em entrevista à Veja. 

Segundo a PRF, este foi o maior acidente registrado desde 2021, quando 19 pessoas morreram em um tombamento de ônibus na BR-376, em Guaratuba (PR). 

O micro-ônibus ficou totalmente destruído. É difícil entender onde estava a frente ou a traseira do veículo. Segundo Vetorazzi, um dos primeiros agentes a chegar ao local da batida, havia vítimas dentro e fora dos destroços do ônibus.

A maioria das vítimas, conta ele, estava dentro do ônibus. Entre elas, 13 mulheres, 8 homens e duas crianças. Cinco sobreviventes foram encaminhados a hospitais da região, incluindo uma criança de 6 anos.

Segundo Vetorazzi, apesar da experiência adquirida em muitos anos de profissão, algumas memórias permanecem, especialmente quando envolvem crianças.

Os colegas atenderam vários e vários, poderia dizer centenas de acidentes com óbitos, mas, os que eles nunca esquecem, os que os marcam muito, são os que envolvem crianças
Carlos Ricardo Vetorazzi, agente da PRF


O policial também explica que há uma técnica no atendimento a ocorrências e tragédias como esta. A primeira preocupação é salvar quem permanece com vida. Em seguida, preservar a cena e detalhes que possam ajudar a explicar o que foi que aconteceu.

Ainda segundo ele, existe a necessidade de suprimir a emoção e agir conforme os protocolos, ainda que o trabalho envolva listar posições de corpos e registro dos vestígios, como naquela manhã.

Para o policial, o grande desafio está no embate entre aplicar os treinamentos e não deixar que a emoção seja um obstáculo para precisão da perícia.

Ainda assim, ficam cicatrizes, diz ele.

Com o passar dos anos, isso vai sendo somado na memória do policial e, certamente, acarreta sequelas no psicológico
Carlos Ricardo Vetorazzi, agente da PRF


Especialmente em ocorrências com tantas vítimas, diz ele, que vai além do que qualquer treino ou planejamento pode preparar alguém.

Por esses motivos, destaca Vetorazzi, a PRF possui suporte emocional aos agentes, por meio do Núcleo de Saúde.


Ele conta que foi atendido poucas horas depois de atuar no acidente e destaca que o protocolo não é sinal de fraqueza, mas consequência de uma exposição. "Exposição que, assim como as histórias das vítimas, não consegue ser contada por meio dos números, datas e registros", acrescenta.

Para além da desobstrução das vias, que neste caso, aconteceu às 10h30 da quarta (19), os agentes precisam seguir trabalhando em laudos, reelaboração da cena, análise de vestígios e demais suporte às autoridades.

Uma das partes mais difíceis é falar com os familiares. Segundo o relato do policial, é preciso procurar palavras amenas e, ao mesmo tempo, claras.

A gente procura ser o mais transparente possível, mas, por outro lado, usando palavras que não traumatizem os familiares naquele momento
Carlos Ricardo Vetorazzi, agente da PRF