UFV inaugura 1º banco genético de Cannabis do Brasil

Estrutura em Viçosa (MG) reúne 68 variedades e pretende chegar a 500 para ampliar pesquisas sobre uso medicinal e agrícola da planta

Professor Derly Henriques da Silva, responsável pelo projeto do banco de cannabis
Foto: Derly Henriques da Silva
Professor Derly Henriques da Silva, responsável pelo projeto do banco de cannabis

A Universidade Federal de Viçosa (UFV)  inaugura na tarde desta terça-feira (18) o primeiro Banco Ativo de Germoplasma de  Cannabis sativa L. de uma universidade pública no Brasil. A estrutura, instalada no campus de Viçosa, na Zona da Mata de Minas Gerais , foi criada para preservar variedades da planta e fornecer material genético para pesquisas científicas.

O banco já reúne 68 variedades da biodiversidade brasileira e tem como meta chegar a 500 tipos, incluindo exemplares de outros países. A proposta é identificar características genéticas diferentes e realizar cruzamentos que possam resultar em variedades com características específicas para aplicações medicinais, agrícolas e industriais.

O projeto ocupa uma área de quase um hectare, no espaço conhecido como Vale da Agronomia. Como a Cannabis pode produzir compostos psicoativos, a área conta com equipamentos de segurança e monitoramento constante pela Vigilância da universidade.

Como funciona o banco de Cannabis

Banco da UFV possui 68 variedades brasileiras da Cannabis
Foto: Derly Henriques da Silva
Banco da UFV possui 68 variedades brasileiras da Cannabis


Um banco de germoplasma funciona como uma espécie de biblioteca genética de plantas. As variedades são coletadas, identificadas, catalogadas e preservadas para que possam ser utilizadas posteriormente em pesquisas.

No caso da Cannabis, os pesquisadores poderão comparar diferentes características das plantas e estudar quais variedades apresentam melhor desempenho em determinadas condições.

A ideia é utilizar esse conhecimento para realizar cruzamentos genéticos e buscar características desejáveis, como maior adaptação a determinados solos e climas ou maior potencial para a produção de substâncias de interesse farmacêutico.

Segundo o professor Derly Henriques da Silva, responsável pelo projeto, conhecer a diversidade genética é o primeiro passo para identificar os diferentes potenciais da planta.

A experiência da UFV com bancos genéticos também foi importante para a criação da estrutura. A universidade mantém coleções de outras espécies e possui, entre elas, um banco de hortaliças considerado o mais antigo do país, criado em 1966.

Meta é chegar a 500 variedades

Atualmente, o banco da UFV possui 68 variedades brasileiras, mas a universidade pretende ampliar significativamente a coleção.

A meta é alcançar 500 variedades de Cannabis, incluindo materiais genéticos de diferentes partes do mundo. A ampliação permitirá aos pesquisadores comparar um número maior de características e aumentar as possibilidades de cruzamentos.

Os estudos não ficam restritos à área de agronomia. Segundo a universidade, já existem pesquisas envolvendo agronomia, bioquímica e fitopatologia, com potencial de participação de outras áreas do conhecimento.

A coleção também poderá servir de base para pesquisas realizadas por instituições e empresas interessadas no desenvolvimento de novos produtos.

Foto: Derly Henriques da Silva
Cannabis é o nome científico e genérico do gênero de plantas que inclui tanto o cânhamo quanto a maconha.


Cannabis é estudada para uso medicinal e industrial

A criação do banco ocorre em meio ao crescente interesse científico e industrial pela Cannabis. Embora a planta seja conhecida principalmente pelos seus canabinoides,  diferentes partes podem apresentar aplicações distintas.

Os canabinoides são compostos químicos que conseguem se conectar aos receptores do nosso próprio corpo. Quando entram em contato com o organismo, ajudam a controlar funções como dor, sono, humor e apetite

As flores concentram canabinoides que são estudados pela indústria farmacêutica para o desenvolvimento de medicamentos. Já o caule e as folhas podem ser utilizados para a produção de cânhamo e fibras, com possíveis aplicações em roupas, papel, bioplásticos e materiais de construção.

As sementes também apresentam potencial para a produção de óleos e alimentos, além de serem ricas em proteínas.

Outro aspecto investigado pela UFV é o uso da planta em áreas degradadas. Por possuir raízes profundas e produzir grande quantidade de biomassa, a Cannabis pode ser estudada para ajudar na recuperação de determinados solos.

Pesquisas analisam áreas contaminadas

Entre os estudos já realizados pela universidade estão 24 experimentos agronômicos que avaliam o comportamento das variedades disponíveis.

Uma das pesquisas analisa o potencial da Cannabis para crescer em solos contaminados por metais pesados, inclusive em áreas afetadas por rejeitos de mineração.

A proposta é investigar se determinadas variedades conseguem absorver metais presentes no solo enquanto produzem biomassa que posteriormente possa ter aproveitamento industrial.

Esse tipo de pesquisa busca avaliar se a planta poderia cumprir uma dupla função: contribuir para a recuperação de áreas degradadas e, ao mesmo tempo, fornecer matéria-prima para setores como o têxtil, de papel e de bioplásticos.

Projeto tem autorização judicial e área monitorada

A implantação do banco foi possível após medidas judiciais obtidas pela UFV em 2024. As decisões permitiram à universidade implementar o espaço destinado à pesquisa e ao cultivo das variedades.

A área foi estruturada com segurança reforçada, justamente por se tratar de uma planta que pode apresentar compostos psicoativos.

O projeto também recebeu apoio financeiro por meio de um convênio com a empresa Cannabreed Technology Brasil Ltda.

A universidade destaca que a iniciativa tem finalidade científica e está inserida em pesquisas sobre os diferentes potenciais da planta.


Banco pode impulsionar novas empresas

Além da pesquisa acadêmica, a UFV vê potencial para que o banco contribua com o surgimento de empresas de base tecnológica em Viçosa e na região.

A disponibilidade de diferentes variedades geneticamente identificadas pode facilitar o desenvolvimento de estudos e produtos voltados a setores como farmacêutico, agrícola e de materiais.

Para a universidade, a Cannabis pode se tornar uma nova commodity agrícola, desde que seu potencial seja estudado de forma científica e interdisciplinar.

A inauguração do banco representa uma nova etapa nas pesquisas sobre a planta no Brasil. Em vez de apenas estudar seus componentes, os pesquisadores passam a trabalhar também com a diversidade genética das variedades, buscando entender quais características podem ser aproveitadas em diferentes aplicações.