Peixe-dragão-negro na Zona da Meia Noite
Divulgação / Woods Hole Oceanographic Institution
Peixe-dragão-negro na Zona da Meia Noite

Enquanto a maioria das pessoas dorme, o fundo do  oceano vive um fenômeno impressionante: todas as noites, trilhões de seres marinhos minúsculos sobem das profundezas até a superfície para se alimentar, e voltam para baixo quando o sol nasce. Esta é considerada a maior migração de animais do planeta, mesmo sendo praticamente desconhecida do grande público e quase impossível de ser vista a olho nu.

Peixes-lanterna de diversos tipos
Reprodução/Inspired Pencil
Peixes-lanterna de diversos tipos

Esse movimento acontece na chamada zona crepuscular do oceano, que começa a 200 metros de profundidade e vai até onde a luz do sol desaparece por completo, próximo dos 1.000 metros. Nessa região a escuridão é predominante, e a luz que existe vem de criaturas que brilham no escuro. É ali que está concentrada praticamente toda a biomassa de peixes do planeta, correspondendo a cerca de 95% do total.

A descoberta da migração aconteceu de forma inesperada. Durante a Segunda Guerra Mundial, militares que usavam um sonar notaram algo estranho: o "fundo do mar" parecia subir e descer ao longo do dia. Só depois os cientistas entenderam que não era o relevo oceânico se movendo, e sim uma nuvem gigantesca de pequenos organismos fazendo a viagem diária entre as profundezas e a superfície.

Ilustração de peixe da Zona da Meia Noite (Gerado por IA)
Arte gerada por Inteligência Artificial
Ilustração de peixe da Zona da Meia Noite (Gerado por IA)


O motivo por trás do comportamento é simples: à noite, esses animais sobem para se alimentar com mais segurança, já que a falta de luz ajuda a passarem despercebidos por predadores. Quando o sol nasce, voltam para as profundezas para se proteger e digerir o que comeram, repetindo o ciclo no dia seguinte.

Copépode ciclopoide fêmea na Zona da Meia-Noite
Andrei Savitsky/Wikimedia Commons
Copépode ciclopoide fêmea na Zona da Meia-Noite


Entre os principais participantes dessa migração estão os copépodes, pequenos crustáceos apontados por pesquisadores como um dos animais mais numerosos do oceano, e os peixes-lanterna, que sozinhos representam boa parte dessa massa de vida em movimento.

O fenômeno também tem um papel importante para o clima. Essa migração diária carrega uma quantidade enorme de carbono da superfície para as profundezas do oceano, algo próximo de seis gigatoneladas por ano, mais do que o dobro de tudo o que os carros do mundo emitem. Uma vez abaixo dos 1.000 metros, esse carbono pode ficar armazenado por séculos, contribuindo para manter o equilíbrio climático do planeta.

Peixe-lanterna na Zona da Meia-Noite
Reprodução/Inspired Pencil
Peixe-lanterna na Zona da Meia-Noite


Apesar da importância, essa parte do oceano enfrenta ameaças. O derretimento do gelo marinho, impulsionado pelas mudanças climáticas, faz a luz solar penetrar mais fundo por mais tempo, o que interfere na rotina desses animais. Ao mesmo tempo, com a queda de estoques pesqueiros tradicionais, a indústria alimentícia já demonstra interesse em explorar espécies como o peixe-lanterna, usado para produzir farinha e óleo de peixe.

A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) aprovou, em outubro de 2025, durante o Congresso Mundial de Conservação em Abu Dhabi, a Moção 035, que pede uma pausa preventiva em qualquer nova atividade pesqueira ou industrial na zona mesopelágica até que existam mais estudos e salvaguardas legais sobre a região.


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