
O que começou como a realização de um sonho profissional terminou em frustração para dezenas de estudantes da cidade de Campinas , em São Paulo. Alunas do Instituto Educacional Novo Nível descobriram que o curso técnico de enfermagem que frequentavam não possuía autorização da Secretaria Estadual da Educação e, por isso, não tem validade para emissão de diplomas.
O caso é investigado pela Polícia Civil como suspeita de estelionato. As estudantes afirmam ter investido anos de dedicação, além de milhares de reais, em uma formação que acreditavam ser regular.
A recepcionista hospitalar Alliny Delfino da Nóbrega conta que gastou cerca de R$ 11 mil ao longo do curso. A desconfiança começou quando a entrega dos certificados passou a ser constantemente adiada.
Depois que eu vi a primeira denúncia, eu entrei em desespero. Quando busquei a Secretaria da Educação, eu só chorava. Entrei em antidepressivo porque entendi que não tinha a menor chance. Alliny Delfino da Nóbrega
Tempo, dinheiro e expectativas perdidas
A situação abalou não apenas os planos profissionais das estudantes, mas também a vida pessoal de muitas delas. Alliny afirma que precisou abrir mão de momentos importantes com a família para concluir a formação.
Eu já perdi dinheiro, tempo e saúde mental. Abandonei meu casamento nesse período, minha filha ficou de lado. Eu quero meu diploma. Não importa de quem vai vir, eu paguei por isso, eu tenho esse direito. Alliny Delfino da Nóbrega
Outra aluna, que preferiu não se identificar, afirmou à policia ter sido uma das primeiras a desconfiar da irregularidade. Segundo ela, além dos estudos, o período de estágio realizado também acabou comprometido.
Estudei um ano e sete meses e vou ter que começar tudo de novo. Perdi quatro meses de estágio em hospital e mais de um ano de estudos em algo que não é válido. Fonte preservada pela polícia
De acordo com as investigações, uma das estudantes descobriu o problema ao tentar obter registro no conselho de classe após concluir a formação.
Polícia apura suspeita de estelionato
Na manhã desta quarta-feira (27), a Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão no instituto e determinou o bloqueio de valores em contas ligadas à escola. A medida busca garantir uma possível reparação financeira às vítimas.
Segundo o delegado Luiz Fernando Marucci, a investigação teve início após o registro de um boletim de ocorrência por uma estudante no 11º Distrito Policial de Campinas. Até o momento, sete denúncias foram formalizadas, mas a suspeita é de que o número de vítimas seja maior.
A polícia trabalha com a hipótese de que a instituição operava desde 2022 sem autorização para oferecer o curso. No mês passado, a Diretoria de Ensino da Região Campinas Oeste negou o pedido de funcionamento por falta de documentação e por considerar inadequadas as condições do imóvel utilizado.
O advogado do instituto afirma que as denúncias são “infundadas” e atribui o caso a uma suposta falha administrativa. Segundo ele, a escola teria iniciado as atividades amparada por uma brecha legal e nenhum aluno chegou a se formar.
Já a Secretaria Estadual da Educação contestou essa versão. Em nota, a pasta classificou a alegação como falsa e informou que o instituto foi notificado para encerrar imediatamente as atividades por funcionar sem autorização e sem apresentar “condições mínimas” de estrutura.
A secretaria também reforçou que o curso oferecido não possui reconhecimento válido para emissão de diplomas e informou que o caso foi encaminhado ao Ministério Público.