
O fenômeno climático El Niño deve atuar no Rio Grande do Sul apenas no segundo semestre de 2026, com intensidade entre fraca e moderada e comportamento semelhante ao registrado em 2023, segundo projeções apresentadas pelo governo do Estado durante coletiva de imprensa na manhã desta sexta-feira (24).
Até o momento, não há indicativo de volumes extremos de chuva como os observados em 2024, ano em que ocorreu maior desastre climático da história do estado gaúcho, indicam especialistas da Defesa Civil e do Comitê Científico do estado.
Durante a coletiva de imprensa, o governador Eduardo Leite (PSD) defendeu que o El Niño ainda está se formando e que o estado monitora a situação sem alarmismo, mas sem minimizar riscos possíveis.
Segundo a Defesa Civil, nenhum dos modelos climáticos utilizados aponta para volumes excessivos de chuva no Rio Grande do Sul em 2026. A avaliação também descarta, neste momento, a repetição de eventos como os registrados em 2024.
O quadro de especialistas destacou que episódios de chuva intensa, alagamentos e enxurradas podem ocorrer pontualmente ao longo do ano, concentrados no segundo semestre, e ressaltam que esse tipo de ocorrência “já faz parte do padrão climático do estado”.
Nós temos sim a possibilidade [de um El Niño atuando]. A gente fala em possibilidade, probabilidade, porque é isto que nós temos neste momento, é uma probabilidade da formação do fenômeno El Niño Cátia Valente, meteorologista da Sala de Situação da Defesa Civil do RS
O governo afirma ainda que acompanha a evolução dos modelos meteorológicos e diz estar mais preparado para responder a possíveis impactos, acresentando que as ações são baseadas em monitoramento contínuo e nas projeções científicas disponíveis.
Defesa Civil prevê que o evento impacte no segundo semestre
A meteorologista da Defesa Civil, Cátia Valente conta que os próximos meses, maio, junho e julho, não devem ter atuação no regime de chuvas do Rio Grande do Sul. Ela destaca que isso é importante, pois, em 2024, foi a época em que ocorreram as enchentes.
Contudo, informa que chuvas vão sim acontecer, mas devido a frentes frias que atuam durante essa época. A média de chuvas deve ser ligeiramente abaixo da média e o El Niño segue em formação.
A meteorologista confirma a atuação e o impacto do El Niño para o segundo semestre do ano, com probabilidade de chuvas acima da média. Ela destaca que, conforme os modelos de previsão internacional, apenas isso pode ser confirmado até o momento.
Apenas isso hoje nós podemos afirmar. Nós ainda não temos, em nenhum momento, a condição de dizer que ele vai ser forte e e muito menos que seja extremamente forte Cátia Valente, meteorologista da Sala de Situação da Defesa Civil do RS
Francisco Eliseu Aquino, do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, acrescenta que os modelos atuais não permitem verificar a intensidade do fenômeno. Ele afirma que talvez possa ser moderado, mas que nenhum evento climático é idêntico a outro.
Como foram as chuvas de 2023 no RS?
Em 2023, o aumento das chuvas ocorreu de forma gradual ao longo do ano no Rio Grande do Sul. Entre maio e julho, volumes acima da média foram registrados, incluindo rios mais cheios e inundações.
Ao fazer a comparação com 2023, os especialistas do Estado ressaltaram que a referência serve para ilustrar o comportamento do fenômeno ao longo do ano, e não como indicativo de repetição dos impactos registrados naquele período. Contudo, o próprio governo reconhece que o El Niño daquele ano teve forte atuação, com episódios de chuva intensa em diferentes momentos.
Não estamos dizendo que vai acontecer de novo, apenas que está muito parecido, aquele ano de 2023, com agora, 2026. E aqui também nós temos só uma ideia Cátia Valente, meteorologista da Sala de Situação da Defesa Civil do RS
Em junho, um ciclone extratropical atingiu o estado, com ventos de 100km/h no Litoral Norte e grandes acumulados de chuva em outras regiões, causando alagamentos, destruição e estradas bloqueadas, voos cancelados e falta de luz.
Em setembro, enchentes atingiram a região do Vale causando bastantes danos estruturais e atingindo muitas famílias. O governo decretou estado de calamidade pública.
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia, Porto Alegre (RS) teve recorde de chuva, com 447,3 milímetros (mm) de chuva no mês, valor 203% acima da média histórica, que é de 147,8 mm.
Em novembro, a região dos Vales foi novamente afetada, e a Defesa Civil estadual estimou que quase 700 mil pessoas foram atingidas, direta ou indiretamente.
Eduardo Leite rebate críticas à gestão climática
Eduardo Leite (PSD) afirma que, hoje, o Rio Grande do Sul está muito melhor preparado para enfrentar os eventos climáticos, o que classificou como “uma mensagem muito clara” que gostaria de dar à população.
Ele destacou o Plano Rio Grande, que conjunto de ações estruturado após os eventos extremos, que reúne medidas de reconstrução e prevenção. De acordo com o governo, o programa já soma R$ 14 bilhões em investimentos, com 227 projetos em andamento e atuação em 95 municípios em situação de calamidade.

Ao fim da coletiva, o governador afirmou que momentos tão críticos como a pandemia e as enchentes de 2024 "não estavam no script de ninguém".
Não estava no plano do governo, nem foi cobrado pela imprensa, nem na eleição de 2018 nem na de 2022, ações de contenção de enchentes, por que não estavam como, imediatamente, a preocupação de todos. A preocupação era segurança pública, eram obras de infraestrutura Eduardo Leite, governador do estado do Rio Grande do Sul
A fala ocorre em meio a críticas frequentes ao governo por baixa prioridade a medidas de prevenção contra desastres climáticos no estado, considerado vulnerável pela hidrografia e a tendência de aumento de eventos extremos devido ao aquecimento global.
Leite reconheceu que a atual capacidade de resposta a eventos climáticos possui limitações "assim como teria em qualquer lugar do mundo", e defendeu que o Estado avançou nos últimos dois anos.