Quadro
Caio Resende/iG
Quadro "Tiradentes Esquartejado" no Museu Mariano Procópio

O corpo aparece em partes. A cabeça está separada. O crucifixo repousa ao lado. Quase não há sangue. Mais de 130 anos depois, a imagem continua provocando o mesmo efeito: faz o visitante parar antes de entender que, ali, a pintura não tenta consolar ninguém. Ela obriga o olhar a permanecer.


A equipe do  iG  esteve no  Museu Mariano Procópio,  em  Juiz de Fora, em  Minas Gerais. Nesta terça-feira, dia 21 de abril, Dia de Tiradentes, te convidamos para conhecer de perto a história de “Tiradentes Esquartejado” , tela concluída por  Pedro Américo  em 1893.

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Caio Resende/iG

Quadro "Tiradentes Esquartejado" no Museu Mariano Procópio

Hoje um dos quadros mais conhecidos do acervo, a obra nasceu para marcar o centenário da execução de Tiradentes. Mas a história não foi linear, já que o quadro foi rejeitado ao ser exibido pela primeira vez e só depois ganhou o lugar de referência que ocupa hoje.

A obra, também chamada originalmente de  “Tiradentes Supliciado” , mede 2,70 metros por 1,65 metro e foi feito em tinta a óleo. A obra mostra o mártir já depois da execução, com o corpo cortado e espalhado sobre uma estrutura de madeira que lembra o cadafalso.

A escolha foi ousada para a época. Em vez do herói em pé, íntegro e vitorioso, Pedro Américo pintou um homem derrotado, morto e exposto. Foi isso que transformou a obra num marco da pintura histórica brasileira e, ao mesmo tempo, no centro de uma rejeição imediata.

O homem executado e o símbolo disputado pela República

Joaquim José da Silva Xavier,  o Tiradentes, foi um dos nomes ligados à  Conjuração (também conhecida como Inconfidência) Mineira,  movimento do fim do século 18 que articulava uma ruptura com a  coroa portuguesa  em Minas Gerais. A conspiração não chegou a se concretizar e foi desmontada antes da rebelião sair do papel.

Tiradentes
Reprodução/Colégio dos Jesuítas
Tiradentes

Entre os envolvidos, Tiradentes foi o personagem que atravessou os séculos e até mesmo deu nome a uma cidade. Preso, julgado e condenado, ele foi enforcado em 21 de abril de 1792, no  Rio de Janeiro. 

Depois, teve o corpo esquartejado. A execução buscava servir de punição exemplar.

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Descrição da Conjuração Mineira no Museu Mariano Procópio

Quando a República foi proclamada, em 1889, o novo regime passou a precisar de símbolos. Tiradentes, então, foi elevado a mártir republicano. A data da morte virou feriado nacional no ano seguinte. A imagem mais conveniente, naquele momento, era a de um herói sacrificado por uma causa que o país agora dizia assumir.

Foi com essa expectativa que a tela de Pedro Américo bateu de frente. O historiador do  Museu Mariano Procópio, Sérgio Augusto Vicente, diz que a obra nasceu num momento em que a figura de Tiradentes já estava sendo disputada politicamente.

Na leitura do historiador, Pedro Américo fez outra escolha. 

Os republicanos não agradaram dessa forma de representação, porque eles queriam que o Tiradentes fosse representado como um herói, um rebelde, um insurgente Sérgio Augusto Vicente, historiador
Ele traz uma visão bastante diferente do Tiradentes, Tiradentes como um mártir religioso, com um semblante muito parecido com Jesus Cristo Sérgio Augusto Vicente, historiador

Essa associação aparece em vários pontos da composição. Tiradentes surge com cabelo e barba longos, embora o procedimento mais provável antes da execução fosse o raspamento. Ao lado da cabeça, há um pequeno crucifixo. O próprio arranjo da madeira sugere uma cruz.

Thiago Berzoini, professor de Teoria das Artes e Estética do UniAcademia, resume o choque que essa escolha causou: 

A tela retrata um herói nacional fragilizado, derrotado, e isso gerou críticas e dura aceitação no início Thiago Berzoini, professor de Teoria das Artes e Estética do UniAcademia


A pintura que começou pelo fim

Pedro Américo concebeu a obra como o último capítulo de uma série sobre a Conjuração Mineira. O plano inicial previa cinco telas. As anteriores mostrariam momentos da conspiração, como reuniões dos conjurados, a prisão de Tiradentes e outros episódios do movimento. Mas elas não foram concluídas.

O historiador Sérgio Augusto Vicente afirma que o artista começou justamente pela cena final, a mais dramática. A falta de financiamento impediu a sequência do projeto. Restaram esboços das outras pinturas e a tela que encerraria a narrativa.

Quadro
Caio Resende/iG
Quadro "Tiradentes Esquartejado" no Museu Mariano Procópio

Esse ponto ajuda a explicar a recepção. Sem as outras cenas, o público viu apenas o desfecho violento. A pesquisadora  Maraliz de Castro Vieira Christo  registra em um dos estudos dela que Pedro Américo sustentava que a obra deveria ser lida dentro de uma série maior, com arco completo da conspiração até a execução de Tiradentes.

Thiago Berzoini chama atenção para o lugar singular da pintura na história da arte.

Trata-se da primeira pintura ocidental a retratar o esquartejamento Thiago Berzoini

A construção visual também explica por que a obra permanece forte. Berzoini observa que Tiradentes aparece em contra-plongée (ouvcontra-mergulho), recurso que amplia a presença do corpo e reorganiza a perspectiva do espectador.

Há ainda uma rede de referências artísticas. Berzoini aponta aproximações com “A Morte de Marat” de  Jacques-Louis David,  além de elementos da iconografia cristã.

A obra também dialoga com a tradição europeia de pintura histórica. Pedro Américo pintou a tela em  Firenze, na  Itália, em 1893, período em que mantinha contato direto com esse repertório artístico.

A obra rejeitada que Juiz de Fora guardou

Quando foi exibida no Rio de Janeiro, em 1893, a pintura não encontrou acolhida. Houve crítica estética, desconforto político e repulsa diante da imagem de um corpo despedaçado. Maraliz de Castro Vieira Christo mostra que o quadro atraiu atenção imediata da imprensa e foi tratado por parte da crítica como uma imagem excessiva e repugnante.

Sérgio Augusto Vicente lembra uma das expressões mais conhecidas dessa recepção.

Os críticos chegaram a se referir a essa tela como um açougue de carne humana Sérgio Augusto Vicente, historiador

Sem espaço no centro político e cultural do país, a pintura veio para Juiz de Fora ainda em 1893. Foi comprada pela  Câmara Municipal.  Sérgio afirma que  Alfredo Ferreira Lage, que mais tarde fundaria o Museu Mariano Procópio, teve participação nesse esforço. Ele era vereador na época, cargo que ocupou entre 1892 e 1895.

Anos depois, a obra mudaria de endereço sem sair da cidade. Já no ambiente do museu particular criado por Alfredo Ferreira Lage em homenagem ao pai, Mariano Procópio Ferreira Lage, a Câmara doou a tela à instituição. Desde então, ela passou a integrar o acervo do museu.

Museu Mariano Procópio
Pedro Emerenciano/iG
Museu Mariano Procópio

O estudo de Maraliz de Castro Vieira Christo registra que a compra pela Câmara ocorreu em 4 de outubro de 1893, depois do fracasso da mostra no Rio, e que o quadro só foi doado oficialmente ao Museu Mariano Procópio em 1922.

Com o tempo, o que havia sido rejeitado virou referência. A tela passou a circular em livros didáticos e em reproduções que popularizaram uma imagem específica de Tiradentes. O estudo aponta que essa difusão ganhou força sobretudo a partir do século 20, quando a obra começou a aparecer em publicações de grande circulação.

Hoje, segundo o museu, trata-se da peça do acervo que mais viajou. Já esteve em exposições no Brasil, na  Bélgica, em 2011, e voltou recentemente de uma mostra em  Portugal, na  Fundação Calouste Gulbenkian, no contexto da exposição  “Complexo Brasil” .

O museu que preservou a tela e ainda espera reabrir áreas

Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora
Pedro Emerenciano/iG
Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora

A permanência do quadro em Juiz de Fora ajuda a explicar por que o Museu Mariano Procópio se tornou referência quando o assunto é Pedro Américo e memória nacional.

O museu nasceu da coleção reunida por Alfredo Ferreira Lage e abriu à visitação em 1915, sendo oficialmente inaugurado em 23 de junho de 1921, data escolhida para marcar o centenário de nascimento de Mariano Procópio Ferreira Lage. O acervo hoje reúne cerca de 53 mil itens históricos, artísticos e científicos.

Museu Mariano Procópio
Pedro Emerenciano/iG
Museu Mariano Procópio

O espaço foi ampliado em 1922 com a inauguração da  galeria de Belas-Artes,  onde fica a obra "Tiradentes Esquartejado" , concebida desde a origem para funcionar como museu. É nesse ambiente que a trajetória do quadro se cruza de forma definitiva com a história da cidade.

Museu Mariano Procópio
Pedro Emerenciano/iG
Museu Mariano Procópio

Nesta visita da equipe do  iG, o público não encontrou a montagem habitual da sala do quadro. Segundo o historiador Sérgio Augusto Vicente, o espaço foi desmontado para adaptação. Ainda não há previsão de reabertura, porque a liberação depende de autorização da Prefeitura de Juiz de Fora.

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Pedro Emerenciano/iG

Placa do Museu Mariano Procópio

O parque do museu também segue sob avaliação. De acordo com o historiador, as  chuvas que atingiram Juiz de Fora em fevereiro não causaram danos estruturais ao prédio nem ao acervo, mas deixaram impactos na área externa. A situação ainda passa por análise da  Defesa Civil.

Depois de voltar da temporada em Portugal, entre novembro e fevereiro, a tela retomou o lugar simbólico no acervo.

O percurso ajuda a medir a força da obra: nasceu para encerrar uma série que nunca foi concluída, foi recusada ao ser exibida no Rio, acabou preservada em Juiz de Fora e virou a imagem mais conhecida de Tiradentes.

No Dia de Tiradentes, ela continua impondo a mesma pergunta ao visitante: não como um herói deve ser lembrado, mas o que um país aceita ver quando olha para o próprio passado.

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