Subiu para 166 o número de municípios do Rio Grande do Sul que relatam dificuldades com o abastecimento de diesel, de acordo com o levantamento da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs). O avanço da escassez já ameaça serviços essenciais, como saúde e transporte, e pode se espalhar por todo o estado.
Na última semana, o desabastecimento atingiu 142 cidades afetadas
. O salto reforça o cenário, com cerca de um terço de municípios do Estado já afetados.
Adriane Perin Oliveira, presidente da Famurs, alerta que os problemas na distribuição devem atingir a economia de todo o estado, levando em consideração que é período de colheita dos cultivos de soja e arroz, que são base das atividades locais.
Infelizmente, o quadro é de agravamento. Hoje, um terço do Rio Grande do Sul já sente o impacto direto da escassez. O alerta é imediato porque os estoques locais são limitados, com autonomia para apenas 10 a 15 dias Adriane Perin Oliveira , presidente da Famurs
Adriane alerta que pode ocorrer um “efeito cascata”, começando pelo atraso da colheita, passa pelo aumento de custos logísticos, desabastecimento de gôndolas e termina com inflação de alimentos para o consumidor.
Impacto imediato
Segundo a Famurs, municípios da região central do Rio Grande do Sul decretaram emergência, e o funcionamento de serviços básicos está comprometido. O cenário se agrava, já que aconteceu após uma sequência de enchentes e estiagens que já comprometeram cinco safras .
Apesar da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) esclarecer que a questão não seria sobre escassez, mas sobre logística, e prever a chegada de abastecimentos durante a semana, a presidente da Famurs reforça que a situação não foi normalizada .
Independentemente de a causa ser logística ou de estoque, o reflexo na ponta é real: o tanque está vazio. Para o gestor que precisa abastecer uma ambulância ou o produtor com a colheitadeira parada, a distinção técnica não resolve a urgência. Não basta o combustível existir na refinaria se ele não irriga a economia local Adriane Perin Oliveira, presidente da Famurs
Medidas emergenciais e redução da dependência externa
Dentre as medidas emergenciais defendidas pela Famurs, a presidente destaca a coordenação entre União, Estado e municípios, para que se tenha um controle preciso de dados sobre os estoques e logística de distribuição do diesel. Segundo ela, a previsibilidade é fator central, que permite que prefeituras se organizem para manter serviços essenciais e evitar paralisações.
Por outro lado, medidas como isenções de impostos estaduais (como o ICMS) precisam ser analisadas com cautela, diz a Associação.
Segundo o órgão, a arrecadação municipal poderia ficar comprometida e não contribuiria para resolver o problema necessariamente, abrindo margem para especulação. Vale lembrar que o ICMS subiu em 6% para 2026
, segundo a Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes. Por outro lado, o Governo Central anunciou medidas de isenção para impostos federais
, em uma tentativa de conter preços.
Cadeia internacional de petróleo esgoelada
A alta demanda por diesel, gasolina e petróleo tem como causa a guerra provocada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã. Os dois países bombardearam o Irã em 28 de fevereiro. A resposta atingiu em cheio o cenário econômico: o Estreito de Ormuz foi fechado, passagem marítima que conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e é uma das principais rotas usadas para exportação de petróleo no mundo.
O diesel é o que mais é afetado no cenário internacional. Essa crise atinge diretamente o Brasil, tendo em vista que o país importa aproximadamente 30% do diesel que consome.
Autoridades iranianas afirmaram que embarcações que tentassem atravessar a área poderiam ser atacadas. Para autorizar a travessia pelo estreito, o Irã colocou como condição da passagem à retirada da embaixada dos Estados Unidos do país de origem da embarcação. O conflito segue em ascensão.
O que diz o Governo Federal
O Governo Federal propôs, na última terça-feira (24), que a União e os estados paguem juntos uma subvenção, que é um auxílio financeiro, incentivo ou subsídio concedido pelo governo, de R$ 1,20 por litro de diesel
aos importadores do combustível. A nova proposta é para tentar conter a alta do preço e o desabastecimento.
A proposta prevê que o apoio financeiro aos importadores de diesel será dividido ao meio entre o Governo Federal e os Estados. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, explicou a estratégia que pode facilitar o acordo com os secretários estaduais que será discutida na próxima reunião do Confaz, o Conselho Nacional de Política Fazendária. Assim, a subvenção de R$1,20 fica metade para os estados e metade para União.
Segundo o ministro, o custo total da medida é de três bilhões de reais para os dois meses de vigência, abril e maio.
O governo também espera que a ação reduza o impacto para os consumidores brasileiros da variação do preço do petróleo no mercado internacional.