Alimentos e bebidas ainda intactos três dias depois de a casa ter sido invadida por uma enxurrada
Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Alimentos e bebidas ainda intactos três dias depois de a casa ter sido invadida por uma enxurrada

Na tarde da tragédia, a mesa estava posta: tinha garrafas de bebidas, um salgado e aperitivos. Três dias depois, continuava quase intacta, só que com sinais de mofo nos alimentos e cercada de destruição. Duas das dezenas de pedras que rolaram do alto do morro no Caxambu, em Petrópolis, só pararam num dos quartos da casa. Outra, abriu um buraco na parede da sala. Junto, veio a lama. E o mais estarrecedor: o corpo de uma senhora, que morava na vizinhança, arrastada até ali pela avalanche. No quintal da mesma construção, também carregada na enxurrada, uma jovem grávida foi resgatada. Tinha o braço quebrado e um grande ferimento na perna. Porém, estava viva.

Ali, como em tantos outros pontos da cidade, estava exposta a brutalidade com que o desastre da última terça-feira invadiu o cotidiano dos petropolitanos, em meio a armadilhas que os deixaram no fio da navalha entre a vida e a morte. Os cinco moradores da casa onde se preparava uma refeição se salvaram. A mulher socorrida não perdeu o bebê. Mas ainda se tenta descobrir quem era a idosa encontrada imprensada entre o monte de terra, móveis destroçados e pedras.

Seis corpos encontrados

Na clareira aberta no entorno, mais de uma dúzia de casas desapareceu. Ao todo, já tinham sido seis corpos retirados do lugar até ontem à tarde. E os bombeiros, com a ajuda de cães farejadores, continuavam em busca de desaparecidos.

A família de Gisele Ramos Barão era a dona da casa onde a senhora foi achada morta — o imóvel estava alugado aos inquilinos que escaparam da tragédia. Ontem, ela, o pai Luiz Antônio e outros parentes foram ao local ver de perto o que sobrou de um patrimônio construído ao longo de décadas de trabalho, mas destruído em questão de minutos.

— Isso aqui era uma vila de casas. Ali atrás, havia outra. Mais acima, uma rua principal. E, do outro lado dela, mais casas. Sumiu tudo. É inacreditável o que aconteceu. Nunca imaginamos isso — conta ela, cuja casa, dois anos atrás, tinha sido avaliada em R$ 750 mil.

Da casa da família de Gisele ao começo do que se podia ver do escorregamento, eram pelo menos 200 metros morro acima. As águas de uma nascente, que antes eram desviadas por uma caneleta, agora desciam pelo meio do local do deslizamento. E algumas ruas próximas pareciam tomadas por uma lava petrificada, nesse caso de lama e escombros.

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O mecânico Luciano Schmidt não contém a voz embargada ao se lembrar das primeiras horas desse desastre que parece sem fim. As vias do bairro já tinham virado uma cachoeira, quando ouviu um estrondo. Na hora, ele conta que foi como uma tromba d’água, que arrancou placas inteiras do pavimento das calçadas e do asfalto. O acesso à região se tornou quase inviável, e os moradores, entre eles Schmidt, se arriscaram no terreno desconhecido para buscar sobreviventes.

Numa das casas, da qual sobraram a parede do banheiro, coberta de azulejos, e um vaso sanitário de frente para o caos, ele resgatou um militar ferido. Mas a mulher e a filha do homem, as duas chamadas Maria, já estavam mortas, e os corpos foram deixados no local à espera dos bombeiros. Os esforços se concentraram na tentativa de acudir quem pedia socorro. A jovem grávida era uma delas.

— Estava tudo escuro, um breu. Ela contava que tinha sido arrastada de uma casa no alto da área atingida. Nós a colocamos numa cadeira e levamos quase uma hora, afundando na lama, para percorrer alguns metros e deixá-la num lugar mais seguro — conta ele, que se emociona ao se lembrar daquela noite. — O que vai ficar na minha memória é a vontade de ajudar, mas também a tristeza de ouvir de vizinhos “minha mulher e minha filha estão ali” e poder fazer por uns, e não por outros.

Difícil acesso

Na terça-feira, o primeiro auxílio vindo da parte baixa da cidade só alcançou a região perto da meia-noite. No dia seguinte, os bombeiros chegaram, mas, em alguns momentos, os moradores reclamaram da ausência de socorristas. Houve pelo menos outros dois deslizamentos no bairro, também com vítimas. E a algumas áreas, apenas motociclistas e pessoas a pé passavam.

O mesmo cenário de devastação persistia em várias regiões da cidade. Nas imediações da Rua Teresa, ainda havia carros presos na lama. Perto dali, um reboque tentava tirar do rio a lateria retorcida de um veículo.

Mesmo distante do epicentro da tragédia, no bairro de Corrêas, no segundo distrito do município, o caos se repetia. Ao longo da Estrada União Indústria, enquanto moradores e comerciantes tentavam limpar o que sobrou, montes de entulho e lama ainda se acumulavam. Nada no entorno do Rio Piabanha passou ileso. O lixo preso no alto das grades de um condomínio mostrava o nível a que a água chegou. E também que ainda será preciso muito trabalho para Petrópolis voltar à rotina.

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