Presidente da Síria diz não sentir culpa por repressão a levante

Em rara entrevista, Assad diz que não comanda forças de segurança: 'Não se sente culpa quando não se mata ninguém'

iG São Paulo |

O presidente sírio, Bashar al-Assad, afirmou não sentir culpa pela repressão contra um levante popular de quase nove meses, apesar dos relatos de brutalidade das forças de segurança , afirmando que não ordenou a morte de manifestantes por não estar no comando das tropas por trás das ações.

AP
Manifestante pró-regime segura bandeira síria em frente de retrato de presidente Bashar al-Assad durante manifestação em Damasco (02/12/2011)
"Fiz o melhor para proteger as pessoas, então não posso me sentir culpado", afirmou rindo levemente em rara entrevista concedida ao canal de televisão americano ABC News, que foi ao ar nesta quarta-feira. "Lamento as vidas que foram perdidas. Mas não se sente culpa quando não se mata ninguém."

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A Barbara Walters, da ABC, Assad afirmou que não deu ordens de "matar ou ser brutal". "Elas não são minhas forças", respondeu quando questionado se os soldados sírios vinham reprimindo com muita força os manifestantes. "Elas são forças militares que pertencem ao governo. Não sou dono delas. Eu sou presidente. Não sou dono do país."

Em seu papel como presidente, Assad, de 46 anos, é comandante das Forças Armadas da Síria. De acordo com ele, os membros das forças de segurança que se excederam em suas funções foram punidos. "Toda 'reação brutal' foi de um indivíduo, e não de uma instituição. Isso é o que você precisa saber", disse. "Há uma diferença entre ter uma política de repressão e ter alguns erros cometidos por alguns oficiais. Há uma grande diferença."

A entrevista foi ao ar um dia depois de os EUA terem anunciado que seu embaixador na Síria, Robert Ford, retornará a Damasco depois de ter sido retirado em outubro por questões de segurança . O embaixador francês voltou ao país árabe na segunda-feira.

A ONU estima que, desde o início do levante em março, mais de 4 mil foram mortos , incluindo muitos civis e manifestantes desarmados que reivindicam a queda do líder sírio. Na entrevista, Assad questionou a cifra, afirmando que que maioria dos mortos foi de partidários do governo, e não o contrário. De acordo com ele, há 1,1 mil soldados e policiais entre os mortos.

"Quem disse que as Nações Unidas são uma instituição confiável?", indagou quando questionado sobre as alegações de violência e tortura disseminadas. "Não matamos nosso povo", disse o líder sírio, que é um oftalmologista formado no Reino Unido. "Nenhum governo no mundo mata sua população; só se for liderado por uma pessoa louca."

A Síria proibiu a atuação da maioria dos jornalistas estrangeiros e impede o trabalho da mídia independente, tornando os relatos de testemunhas e de grupos de ativistas um canal chave de informação. Vídeos amadores divulgados na internet mostram a polícia e milícias pró-regime abrindo fogo contra manifestantes.

O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Mark Toner, disse que Assad tenta esquivar-se da responsabilidade. "Acho absurdo que ele tente blindar-se com alegações de que não detém a autoridade sobre seu próprio país", afirmou.

"O Departamento diz que ele perdeu completamente qualquer poder que tinha na Síria, que ele é apenas uma ferramenta ou que está completamente desconectado da realidade", disse Toner aos repórteres. "Ou é uma desconexão ou desconsideração, ou como ele disse, loucura. Eu não sei", disse Toner.

Assad, que herdou o poder de seu pai em 2000, insiste que o levante é liderado por extremistas com uma agenda externa para desestabilizar a Síria, e não por verdadeiros reformistas com objetivo de abrir o sistema político autocrático do país. Segundo ele, a violência é culpa de criminosos, extremistas religiosos e simpatizantes da rede terrorista Al-Qaeda que se misturaram com os manifestantes pacíficos. Mas ativistas e membros da oposição negam essas acusações, afirmando que reivindicam liberdades legítimas depois de mais de 40 anos de repressão da dinastia Assad.

No início da mobilização popular, Assad ofereceu algumas promessas de reforma enquanto lançou as Forças Armadas para reprimir os manifestantes com tanques e franco-atiradores. O banho de sangue contínuo pressionou manifestantes antes pacíficos a pegar em armas. Desertores do Exército que se aliaram aos manifestantes também se tornaram mais ousados, retaliando contra forças do regime e mesmo atacando bases militares.

Apesar disso, Assad insiste que tem o apoio dos sírios e disse não temer enfrentar o mesmo destino de líderes depostos durante a Primavera Árabe .

*Com AP, BBC e AFP

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