Levante na Síria completa um ano e ameaça se espalhar por região

Em área onde tensões religiosas cruzam fronteiras, intervenção estrangeira representa mais riscos que na Líbia; veja infográfico

Leda Balbino, iG São Paulo |

AP
Mulher chora sobre corpo de marido morto durante confrontos entre rebeldes e forças sírias em Idlib, norte da Síria (10/03)

Em uma região onde as tensões religiosas cruzam fronteiras, o levante popular contra o regime sírio de Bashar al-Assad - em que a minoria xiita alauíta controla a maioria sunita - completa um ano nesta quinta-feira sem perspectiva de fim para a violência e ameaçando se espalhar para os países vizinhos.  (Veja mapa com a divisão sectária dos países e o que está em jogo para eles com o conflito)

Crucial na geopolítica do Oriente Médio por seu peso no mundo árabe e seu papel nos conflitos e tensões regionais, a Síria não é a Líbia que o Ocidente pôde bombardear por sete meses sem arriscar perder o controle territorial da ação militar.

Receio: Sírios temem que levante cause guerra sectária igual à do Iraque

Galeria de fotos: Veja imagens deste ano do levante na Síria

País periférico e com a maior parte de sua população concentrada nas cidades, a Líbia do deposto e morto Muamar Kadafi não tinha um Exército que representasse uma ameaça militar à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que lançou sua ação enquanto os rebeldes líbios avançavam para o centro do país a partir de bastiões capturados no leste e oeste.

A Síria, ao contrário, tem uma oposição sem grandes conquistas no terreno e um Exército de 330 mil homens com uma avançada defesa aérea instalada em áreas densamente povoadas - o que poria em risco milhares de civis em caso de bombardeios.

Além disso, uma ofensiva estrangeira na Síria poderia atrair para a disputa a Rússia, que tem em Damasco um grande comprador de armamento e seu único aliado no Oriente Médio. Acima de tudo, no entanto, uma ação militar externa poderia desatar uma guerra civil total na Síria e instigar o envolvimento de outros atores da região no conflito, contrapondo principalmente o regime xiita do Irã, aliado de Assad, e a sunita Arábia Saudita e grupos sectários de vários países.

“Agora o levante sírio se torna um conflito entre a Arábia Saudita e o Irã, que vêm lutando indiretamente por seus interesses”, disse ao iG o especialista sírio Murhaf Jouejati, professor de Estudos do Oriente Médio da Universidade de Defesa Nacional e acadêmico da Universidade George Washington, ambas na capital americana.

Crise humanitária: Conflito na Síria deixou 230 mil desalojados, diz ONU

Por interesses, Jouejati se refere ao fato de que, durante as três últimas décadas, a monarquia saudita e outros Estados do Golfo Pérsico identificaram o não árabe Irã (nação persa e xiita) como seu inimigo. Por isso, os sauditas preveem a queda de Assad como um duro golpe à influência de Teerã, suspeito pela comunidade internacional de querer desenvolver armas atômicas com seu programa nuclear.

De acordo com Jouejati, a Arábia Saudita não está armando a oposição, mas pode vir a facilitar, por meio de dinheiro, a chegada de armas ao Exército Livre da Síria (ELS), organização formada por milhares de desertores do Exército. "Entre os outros Estados árabes, o que poderia fazer isso também é o Catar", afirmou.

Consequências para os países vizinhos

O ELS é resultado da escalada do conflito na Síria, onde os protestos começaram de forma pacífica em janeiro de 2011 e começaram a se configurar em uma insurreição popular nacional em 15 de março.

Com o aumento da repressão , os desertores organizaram forças rebeldes sob o ELS com cerca de 15 mil membros e cada vez mais mudaram sua função de protetores dos manifestantes para agressores das forças leais a Assad - há 11 anos no poder após suceder a 30 anos de governo de seu pai, Hafez Al-Assad. Desde março do ano passado, a violência deixou mais de 8 mil mortos , diz a ONU.

AFP
Sírios membros do Exército Livre da Síria se reúnem em área montanhosa na Província de Idlib, no noroeste sírio (13/3)
Segundo Jouejati, Assad vem estimulando a tensão sectária no país - alauítas e cristãos contra sunitas, a força motriz da oposição - com o objetivo de angariar seu apoio com o argumento de que, se ele cair, essas minorias terão problemas. Preocupações sobre um banho de sangue sectário surgiram pelos tumultos em Homs , a terceira principal cidade do país, onde assassinatos e sequestros com base na identidade religiosa aumentaram.

Fome: Mais de 1,5 milhão de pessoas precisam de ajuda alimentar na Síria, diz ONU

O aumento de tensão interna na Síria poderia contaminar principalmente os vizinhos Líbano e Iraque , estimulando suas divisões entre cristãos e muçulmanos e, acima de tudo, entre sunitas e xiitas. Ainda atormentado pela sua guerra civil de 15 anos, o Líbano testemunhou pequenos, mas violentos choques entre sunitas e alauítas recentemente. Além disso, no país atua o partido e grupo militante xiita Hezbollah, aliado da Síria e do Irã e cuja ascensão política incomoda a Arábia Saudita.

O Iraque, que assim como Líbano e Turquia vêm recebendo um grande número de refugiados sírios , também teme aumento ainda maior da tensão sectária pelo fato de ter-se tornado terreno de ataques de cunho religioso após a invasão dos EUA ao país, em 2003.

Fuga: Na escuridão da noite, sírios atravessam rio em busca de segurança

Com baixa tensão religiosa, a Turquia - que respalda os esforços da Liga Árabe e do Ocidente contra Assad - por sua vez pode ver um apoio de Damasco ao grupo separatista curdo PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) em seu território no caso de uma eventual intervenção estrangeira no país árabe.

Apesar do cenário complicado, o especialista sírio aposta que o contínuo aumento da pressão internacional eventualmente levará à queda de Assad. "É provável que o regime cairá porque está isolado internacionalmente, a economia está entrando em colapso e a cada dia aumenta o número de desertores do Exército", completou.

Veja mapa com a divisão sectária dos países e o que está em jogo para eles com o conflito:

*Com Reuters e New York Times

    Leia tudo sobre: síriamundo árabeassadliga árabeprimavera áraberússiairãarábia saudita

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG