Governo confirma 235 civis e 43 policiais mortos; Irmandade diz que nº de vítimas fatais pode chegar a 500

A tropa de choque da polícia do Egito varreu com veículos blindados e escavadeiras dois acampamentos de protestos de partidários do presidente deposto Mohammed Morsi no Cairo nesta quarta-feira (14), disparando gás lacrimogêneo contra os manifestantes. A violência se alastrou em outras províncias do país matando ao menos 235 civis e ferindo mais de 2 mil em todo o país, segundo o Ministério da Saúde. De acordo com o ministro egípcio do Interior, Mohammed Ibrahim, 43 policiais morreram na ação.

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Forças de segurança do Egito dispersam acampamento de partidários de Mohammed Morsi em Nasr City, no Cairo
AP
Forças de segurança do Egito dispersam acampamento de partidários de Mohammed Morsi em Nasr City, no Cairo

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Por causa da violência, o governo interino declarou um mês de estado de emergência e impôs um toque de recolher entre as 19 horas e as 7 horas locais. Uma autoridade de segurança disse que um total de 200 manifestantes foram presos nos dois acampamentos nesta quarta.

Em reação à repressão violenta do governo, o vice-presidente egípcio, Mohamed ElBaradei, renunciou ao cargo . "Ficou difícil para mim continuar a ter responsabilidade por decisões com as quais não concordo e cujas consequências temo. Não posso carregar a responsabilidade por uma única gota de sangue", escreveu em sua carta de renúncia a Mansour.

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Entre os mortos a tiros no Cairo estão um cinegrafista e uma jornalista. Mick Deane, 61 anos, trabalhava como cinegrafista da rede britânica Sky News havia 15 anos, era casado e tinha dois filhos. A jornalista Habiba Ahmed Abd Elaziz, 26 anos, que trabalhava para a Gulf News, um jornal estatal dos Emirados Árabes Unidos, também foi morta a tiros no Cairo.

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A fumaça encobriu o céu e as ruas ficaram abarrotadas de lonas de barraca carbonizadas. O acampamento menor foi liberado de forma relativamente rápida, mas confrontos continuavam no acampamento principal, localizado perto de uma mesquita, que serviu como epicentro para a campanha pró-Morsi.

A incursão foi lançada após dias de avisos feitos pelo governo interino apoiado pelo Exército, que substituiu Morsi depois de sua deposição em 3 de julho. Os dois acampamentos ficavam em lados opostos da capital egípcia e tiveram início no final de junho, como uma demonstração de apoio ao líder islamita. Após o golpe, os manifestantes passaram a exigir seu retorno ao cargo.

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Confrontos também foram registrados em outros locais do Cairo e em outras províncias do país. Delegacias, prédios públicos e igrejas foram atacados ou incendiados.

O Banco Central Egípcio instruiu os bancos comerciais a fechar suas agências nas regiões afetadas pelo caos. O Ministério das Antiguidades também ordenou que as pirâmides Giza ficassem fechadas para visitantes, bem como o museu egípcio. Os fechamentos são uma precaução válida apenas para quarta-feira.

O tumulto foi o mais recente capítulo de um impasse entre os partidários de Morsi, liderados pela Irmandade Muçulmana , e a liderança que assumiu o comando do mais populoso país do mundo árabe. O Exército depôs Morsi depois que milhões de egípcios tomaram as ruas pedindo sua renúncia, acusando-o de dar à Irmandade influência sem limites e de fracassar na implementação de reformas vitais para recuperar a economia em crise do país.

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Membro das forças de segurança do Egito fala com partidária do presidente deposto Mohammed Morsi em acampamento perto da Universidade Giza
AP
Membro das forças de segurança do Egito fala com partidária do presidente deposto Mohammed Morsi em acampamento perto da Universidade Giza

O golpe provocou protestos similares entre os partidários de Morsi depois que ele e outros líderes da Irmandade foram detidos enquanto as disputas se acirravam, tornando essa a maior crise do país desde a revolução de 2011, que levou à queda do líder autocrata Hosni Mubarak .

O presidente deposto Morsi é mantido detido em uma localização desconhecida. Outros líderes da Irmandade foram indiciados por incitar a violência. "O mundo não pode assistir sentado enquanto homens, mulheres e crianças inocentes são mortos indiscriminadamente. O mundo deve se levantar contra o crime da junta militar antes que seja tarde", disse em comunicado a Irmandade Muçulmana.

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O menor dos dois acampamentos foi dispersado no final da manhã, com a maioria dos manifestantes buscando refúgio perto dos jardins botânicos de Orman no campus da Universidade do Cairo e no zoológico.

Mais tarde, forças de segurança avançaram contra o acampamento maior no distrito de Nasr City, no Cairo, e fecharam a mesquita Rabaah al-Adawiya. Acredita-se que vários líderes procurados da Irmandade estariam escondidos dentro do local.

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A aliança Pró-Morsi Antigolpe afirmou que as forças de segurança usaram munição, mas o Ministério do Interior, que cuida da polícia, disse que as forças usaram somente gás lacrimogêneo e que os tiros vieram do acampamento.

O comunicado do Ministério do Interior também alertou que as forças lidariam de forma firme com os manifestantes que estivessem agindo de forma "irresponsável", sugerindo que os agentes responderiam aos tiros. Além disso, o comunicado afirmou que garantiria uma passagem segura para aqueles que querem sair de Nasr City, mas prenderia os procurados para interrogatório.

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A Irmandade Muçulmana afirma que mais de 500 manifestantes foram mortos e 9 mil ficaram feridos nos dois acampamentos. Previamente, Mohammed el-Beltagy, um líder do alto escalão da Irmandade, disse que mais de 300 foram mortos, e afirmou à polícia e às tropas do Exército que se preparassem para enfrentar seus comandantes. Ele também convocou os egípcios a tomar as ruas como demonstração de reprovação das incursões dos agentes nos acampamentos nesta quarta.

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Um grupo pró-Morsi afirmou também que a filha de 17 anos de el-Beltagy foi morta a tiros no maior acampamento. Seu irmão Ammar confirmou sua morte pelo Twitter.

Morsi, o primeiro presidente eleito democraticamente no Egito, havia acabado de completar um ano no poder quando foi deposto. Ele tem estado incomunicável para a maior parte das pessoas, mas recebeu a visita da chanceler da União Europeia Catherine Ashton e uma delegação africana. Catherine afirmou que ele estava bem e tinha acesso à televisão e a jornais.

Com BBC e AP

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