Após morte de opositor, premiê tunisiano anuncia formação de governo tecnocrata

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Em meio a protestos por assassinato de líder de esquerda, primeiro-ministro diz que formará governo para organizar eleições após fracasso em negociações para reforma no gabinete

O primeiro-ministro da Tunísia, Hamadi Jebali, anunciou nesta quarta-feira que formará um novo governo tecnocrata para guiar o país em eleições no fim deste ano. O anúncio se seguiu ao assassinato de um importante político de esquerda que desatou vários protestos no país.

Chokri Belaid: Assassinato de dirigente da oposição na Tunísia provoca protestos

Reuters
Manifestantes da Tunísia entram em choque com a polícia durante protesto por morte do líder opositor Chokri Belaid em Túnis

"Após o fracasso nas negociações entre partidos sobre uma reforma no gabinete, decidi formar um pequeno governo tecnocrata", disse Jebali em discurso à nação. Segundo ele, a única função do governo tecnocrata será organizar as eleições "assim que possível".

No fim de semana, o presidente Moncef Marzouki havia ameaçado renunciar se o impasse político no país não for resolvido, algo que disse prejudicar a estabilidade do governo, que luta para recuperar-se após uma revolta popular há dois anos. 

O governista partido islâmico moderado Ennahda esteve envolvido em negociações difíceis sobre expandir sua coalizão para incluir membros da oposição. Semanas de conversas e diálogos não tiveram resultados práticos, uma vez que os partidos não conseguem chegar a um acordo sobre a redistribuição de poder no país.

Muitos culpam a legenda governista pela morte do líder de esquerda Chokri Belaid, de 48 anos, mas o Ennahda afirmou que não teve qualquer ligação com o assassinato e culpou pessoas interessadas em tirar do rumo a transição democrática da Tunísia após o levante popular de 2011.

AP
Chokri Belaid participa de uma coletiva de imprensa em Túnis (29/12/2010)

Belaid, membro da coalizão de esquerda conhecida como Frente Popular e ferrenho crítico do governo islâmico tunisiano, foi atingido por um tiro quando saía de sua casa na capital, Túnis, segundo informou a agência de notícias estatal TAP. Ele chegou a ser levado para uma clínica médica das redondezas, mas não resistiu aos ferimentos. Sua morte representou o primeiro assassinato de um político após a revolta que derrubou o governo de Zine El Abidine Ben Ali há dois anos.

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O assassinato desatou protestos que reuniram mais de 1 mil tunisianos do lado de fora do Ministério do Interior. Pedindo a queda do governo, os manifestantes gritavam "vergonha, vergonha, Chokri morreu", "onde está o governo?" e "o governo tem de cair". Policiais dispersaram a multidão com gás lacrimogêneo, depois que uma ambulância levando o corpo de Belaid foi acompanhada pelos manifestantes.

Houve protestos também nas ruas de Sidi Bouzid. Foi nessa cidade que Mohamed Bouazizi, um universitário com pós-graduação, ateou fogo ao corpo em desespero depois que a polícia confiscou seu carrinho de frutas, que operava sem licença. A morte de Bouazizi desencadeou protestos que derrubaram o então presidente em 2011.

De acordo com a rádio Mosaique, a polícia também respondeu a manifestações com gás lacrimogêneio na cidade costeira de Sousse e representantes do Ennahda foram atacados em várias outras localidades.

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Neste dia de tumulto, a Frente Popular convocou uma greve geral para quinta-feira em protesto pelo crime. A legenda também afirmou que se retirava da Assembleia Constituinte, que vem lutando para escrever uma nova Constituição para o país. É esperado que empresas, universidades e escolas permaneçam fechadas nesta quinta.

O motivo por trás do assassinato ainda não ficou claro. O crime acontece em meio à luta da Tunísia para manter a estabilidade e melhorar sua economia após o longo governo de Ben Ali, derrubado no contexto da chamada Primavera Árabe (levantes populares contra governo autocratas no Oriente Médio e norte da África).

Reuters
Policial enfrenta manifestantes durante protestos em Túnis, na Tunísia

O opositor vinha acusando as autoridades de não fazer o suficiente para impedir a violência cometida por ultraconservadores que têm como alvos teatros e exibições de arte consideradas desrespeitosas ao Islã.

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De acordo com sua família, Belaid recebia ameaças de morte regularmente. Ele era uma espécie de porta-voz contra os chamados "Comitês de Proteção da Revolução", que muitos acusam de estar por trás de atos de violência que atingem o país. Há suspeitas de que esses grupos sejam afiliados do partido Ennahda e que sua missão é procurar destruir vestígios do antigo regime.

Com AP e Reuters

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