Presidente defende novos poderes em meio a confrontos no Egito

Islamita Morsi promete democracia após protestos contra emenda constitucional que isenta todas suas decisões de contestação legal

iG São Paulo | - Atualizada às

Milhares de oponentes do presidente islamita do Egito entraram em confronto com seus partidários nesta sexta-feira, queimando vários escritórios da Irmandade Muçulmana , nos protestos mais violentos e disseminados desde que Mohammed Morsi chegou ao poder , desatados pela emenda constitucional que lhe garantiu amplos poderes .

Violência: Opositores de líder egípcio atacam escritórios da Irmandade Muçulmana

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Presidente do Egito, Mohammed Morsi, fala a partidários do lado de fora do palácio presidencial no Cairo

Emenda: Presidente do Egito amplia seus poderes e destitui procurador-geral

Perante uma multidão de seus simpatizantes aglomerados em frente de seu palácio, Morsi afirmou que suas medidas eram necessárias para impedir que uma "minoria" tente bloquear os objetivos da revolução, em uma referência ao levante popular que forçou a queda do ex-presidente Hosni Mubarak em fevereiro de 2011.

"Há besouros devorando a nação do Egito", disse, apontando para velhos membros leais ao antigo regime que acusou de usar dinheiro para alimentar a instabilidade e acusando membros do Judiciário de trabalhar sob a "proteção" de cortes para "prejudicar o país".

O líder egípcio também prometeu que o Egito está no caminho da "liberdade e da democracia", apesar das acusações dos opositores de que ele busca "poderes ditatoriais" para transformar-se em um "novo Faraó".

"Eu sempre estive, ainda estou e sempre estarei, se Deus quiser, com o povo. É o que o povo quer, com uma clara legitimidade", insistiu. "Ninguém pode deter nossa marcha adiante. Estou cumprindo minha função para servir a Deus e à nação, e tomo as decisões depois de consultar todos", disse o presidente, citado pela agência oficial Mena.

A emenda constitucional aprovada na quinta-feira impede que decretos, leis e decisões de Morsi sejam questionados na Justiça até que um novo Parlamento seja eleito. O decreto também protege da contestação legal uma assembleia dominada por islâmicos que está escrevendo a nova Constituição do Egito, bem como a câmara alta do Parlamento, que é dominada por islâmicos aliados a Mursi.

Assessores de Morsi disseram que a decisão, que também deu ao presidente novos poderes que lhe permitiram despedir o procurador-geral da era Mubarak e nomear um novo, pretendia acelerar a transição do país, que tem sido dificultada por obstáculos jurídicos. Mas as medidas levantaram temores entre egípcios de pensamento secular de que a Irmandade Muçulmana, na qual Morsi tem suas raízes, e os aliados do grupo pretendem dominar o novo Egito.

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Pedras são atiradas durante confronto entre manifestantes pró e contra governo em Alexandria

Além das críticas internas, Morsi foi alvo de condenação da Organização das Nações Unidas (ONU) e da União Europeia (UE). De acordo com um porta-voz da alta comissária de Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, a emenda provoca "gravíssimas preocupações relativas aos direitos humanos".

Em um comunicado, um porta-voz da chefe de Relações Exteriores da UE, Catherine Ashton, pediu que Morsi respeite o processo democrático no país. "É de extrema importância que o processo democrático seja concluído de acordo com os compromissos assumidos pela liderança egípcia", indicou o comunicado.

Esses compromissos incluem "a separação de poderes, a independência da Justiça, a proteção das liberdades fundamentais e a realização de eleições parlamentares democráticas o mais cedo possível", acrescentou.

Confrontos

A violência desta sexta-feira refletiu a polarização cada vez mais perigosa do Egito e dúvidas sobre qual curso seguirá quase dois anos depois da queda do autocrata Mubarak.

Confrontos entre seus opositores e membros da Irmandade Muçulmana aconteceram em várias cidades, incluindo Alexandria, onde a violência deixou 15 feridos. Na capital Cairo, forças de segurança jogaram gás lacrimogêneo contra milhares de manifestantes. Nas cidades de Suez, Port Said e Ismalia, opositores colocaram fogo em escritórios do Partido da Liberdade e da Justiça (PLJ), da Irmandade Muçulmana.

Figuras importantes da oposição, como o ex-chefe da Agência Internacional de Energia Atômica Mohamed El-Baradei, o líder do Patido da Dignidade, Hamdin Sabahi, e o ex-secretário-geral da Liga Árabe Amr Moussa acusaram o presidente de dar um "golpe" para transformar-se em um "novo Faraó" e, em uma coletiva, conclamaram a população a sair às ruas para protestar.

"Morsi usurpou todos os poderes do Estado e se nomeou novo faraó do Egito. Trata-se de um grande golpe na revolução, que pode ter consequências desastrosas", escreveu Baradei no Twitter.

"(Esses decretos) são um golpe contra o império da lei e a independência judicial", disse Ahmed Zend, presidente do Clube dos Juízes, a maior associação de magistrados egípcios.

Com AP, BBC e Reuters

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