Entenda a crise envolvendo o senador Demóstenes Torres

Ex-líder do DEM no Senado é flagrado em grampo da PF negociando com Carlinhos Cachoeira, preso em operação da Polícia Federal, e perde o mandato

iG São Paulo | - Atualizada às

O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) é acusado de utilizar seu mandato para beneficiar o empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, preso acusado de comandar um esquema exploração de jogos ilegais. Demóstenes negou envolvimento com os negócios de Cachoeira em diversas tentativas de defesa no Senado, mas não conseguiu convencer seus colegas de sua inocência. Por 56 votos, o senador perdeu seu mandato e só pode voltar à vida política em 2027.

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AE
Ex-líder do DEM Demóstenes Torres em seu gabinete no Senado

De acordo com gravações feitas pela Polícia Federal divulgadas no dia 30 de março pelo jornal O Globo, o senador acertou com o empresário uma ajuda em processo judicial e em projeto de legalização de jogos de azar em tramitação no Congresso. "Fala, Professor. Acabei de chegar lá do desembargador. O homem disse que vai olhar o negócio e tal", diz Demóstenes a Cachoeira, que pergunta se o julgamento será rápido. "Vai julgar rápido. Mandou pegar o papel, já pegou o... negócio lá. Diz que vai fazer o mais rápido possível", responde o senador.

No final de fevereiro, Cachoeira foi preso pela PF por liderar uma suposta quadrilha especializada em explorar máquinas caça-níqueis. Ele foi um dos protagonistas do primeiro escândalo político que marcou o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva , o caso Waldomiro Diniz.

No dia 29 de março, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a quebra do sigilo bancário do senador e de outros investigados por suspeita de envolvimento com o empresário. A decisão do STF ocorreu após o procurador-geral da República pedir a abertura de um inquérito para investigar Demóstenes.

Leia também: Operação da PF prende pivô do caso Waldomiro Diniz

Sofrendo pressão dos colegas , Demóstenes entregou, em 27 de março, o cargo de líder do DEM no Senado . Em 3 de abril, após reuniões e sob ameaças de enfrentar um processo de expulsão da legenda, o senador goiano entregou uma carta de desfiliação, mas não abriu mão de seu mandato no Congresso .

A saída do DEM não tirou Demóstenes da mira de senadores e deputados. O PSOL entrou com uma representação contra o senador e  o Conselho de Ética do Senado abriu processo contra ele por quebra de decoro parlamentar.

Em  depoimento de cinco horas ao conselho, o senador negou ter usado seu mandato a serviço de Cachoeira. Mesmo assim,  o Conselho de Ética votou com o relator do processo, Humberto Costa, e aprovou a cassação de Demóstenes

Na semana seguinte, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado confirmou a legalidade do processo do Conselho de Ética contra Demóstenes e aprovou a votação em plenário, que cassou seu mandato na quarta-feira (11).

Defesa:  Alvo de cassação, Demóstenes pede perdão para um Senado vazio

Como a crise começou?

A crise envolvendo o senador Demóstenes Torres começou com a deflagração da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, que, no final de fevereiro, prendeu Carlinhos Cachoeira , acusado de chefiar uma quadrilha especializada em explorar máquinas caça-níqueis.

Pela Operação, Demóstenes foi flagrado, em escutas telefônicas, em mais de 300 ligações com Cachoeira, levantando suspeitas de trocas de favor com o bicheiro. Amigos pessoais, Cachoeira e Demóstenes costumavam jantar juntos.

Quais foram as revelações desde então?

A Polícia Federal investiga a participação de Demóstenes Torres em negociatas com Cachoeira. Em relatório, o Ministério Público aponta que o grupo comandado por Cachoeira entregou telefones antigrampos para políticos, entre eles, Demóstenes Torres, que admitiu ao Conselho de Ética ter recebido o aparelho.

Demóstenes também teria ganhado um fogão e uma geladeira importados de Cachoeira. Quanto a isso, o senador afirmara que se tratava de um presente do seu segundo casamento, e que não convinha recusar nem perguntar o preço.

Segundo reportagem do jornal O Globo , um relatório com escutas telefônicas enviado três anos antes da deflagração da Operação Monte Carlo à Procuradoria-Geral da República mostrou, por exemplo, o senador pedindo dinheiro ao empresário para bancar uma viagem de táxi aéreo no valor de R$ 3 mil.

Em outras gravações, segundo este relatório, os investigadores afirmam que o senador deu informações relevantes sobre reuniões que teve no Legislativo, Judiciário e Executivo.

Em 28 de março, outros grampos foram revelados, complicando a situação do senador. Neles, Cachoeira conversa com integrantes de seu grupo e, durante cinco minutos de ligação, o nome de Demóstenes é citado seis vezes e é relacionado a quantias de dinheiro .

Em 30 de março, o jornal O Globo publicou novos grampos em que o senador é flagrado negociando com Cachoeira ajuda judicial e na tramitação do projeto de legalização de jogos de azar.

Quais as consequências das denúncias até o momento?

No dia 27 de março, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de um inquérito para investigar Demóstenes e outros parlamentares .

Pouco antes, neste mesmo dia, Demóstenes entregou a liderança do DEM no Senado ao presidente da legenda, Agripino Maia, que agora acumula as duas funções . Ele também se desfiliou do partido, para evitar um processo de expulsão.

O PSOL  entrou com uma representação contra o senador e o Conselho de Ética do Senado abriu processo contra ele por quebra de decoro parlamentar. O conselho votou com o relator do processo, Humberto Costa, e aprovou a cassação de Demóstenes. O caso foi levado a plenário e por 56 votos a favor, o mandato do senador foi cassado . Ele só pode voltar à vida política em 2027.

O CCJ aprovou e a votação em plenário deve ocorrer na próxima quarta-feira. Câmara e Senado criaram uma CPI para apurar as denúncias.

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