Educação dá vitrine a Mercadante, mas esbarra em plano eleitoral

Prestes a assumir a pasta, ex-senador vai comandar orçamento de R$ 85 bilhões, mas pode ter que adiar projeto de disputar governo

Clarissa Oliveira, iG São Paulo, e Priscilla Borges, iG Brasília |

O ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante , é só sorrisos nas conversas entre amigos ao falar sobre sua transferência para o Ministério da Educação . A perspectiva de substituir o colega Fernando Haddad em uma das pastas de maior visibilidade do governo, prevista para se concretizar ainda nas próximas semanas, levou o ex-senador a comemorar, nos vários telefonemas que trocou com aliados desde o início do ano, o fato de ter “caído nas graças” da presidenta.

Reforma ministerial:
Haddad só deixará o Ministério da Educação no fim do mês
Escolhido: Mercadante já circula como novo titular do Ministério da Educação
Impacto:
Troca de ministros vai atrapalhar realização do Enem em abril

Prestes a assumir um orçamento de R$ 85 bilhões na nova pasta, Mercadante ganha a chance de construir uma “marca gerencial” – algo que até agora não conseguiu concretizar, na avaliação de alguns colegas de partido. Por outro lado, o cargo não condiz necessariamente com os planos eleitorais traçados pelo ministro até então. O petista alimentou nos últimos meses a ideia de disputar governo paulista pelo PT em 2014 – cargo ao qual se lançou em 2006 e 2010. Internamente, deixou claro, por exemplo, que não tinha a intenção de se colocar na disputa pela prefeitura paulistana neste ano. Preferia priorizar o Palácio dos Bandeirantes dois anos depois.

“Mas a verdade é que amarraram uma bola no pé dele. Dilma nunca vai aceitar que um ministro da Educação deixe uma pasta como essa depois de apenas dois anos”, reconheceu um petista próximo ao ex-senador. “Por aqui ( em São Paulo ), já estamos trabalhando com a perspectiva de que ele dificilmente conseguirá sair”, completou outro aliado.

Deixar a empreitada para 2018 teria como vantagem o fato de o atual governador Geraldo Alckmin não poder disputar mais um mandato. Há, entretanto, quem considere que a indicação de Mercadante para o Ministério da Educação o afasta do PT de São Paulo justamente no momento em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera um processo de renovação dos nomes da legenda no maior colégio eleitoral do País .

Saiba mais: Lula quer Mercadante fora da disputa pela Prefeitura de São Paulo em 2012

AE
Avaliação de aliados é de que Dilma não permitirá saída do ministro da após apenas dois anos na pasta


Independentemente de projetos eleitorais, Mercadante driblou as disputas internas e se antecipou ao processo que resultou na escolha de Haddad como o candidato do partido à prefeitura paulistana. No auge da tensão entre os times do ministro da Educação e da senadora Marta Suplicy (PT-SP), o ministro da Ciência e Tecnologia optou pela discrição e evitou se posicionar abertamente sobre o assunto. Nos bastidores, entretanto, deu carta branca a seus aliados para que trabalhassem em favor da candidatura de Haddad.

A conversa que selou a estratégia ocorreu cerca de dois meses antes de Marta se retirar da corrida, a pedido da presidenta Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula . Na época, Mercadante pediu a um grupo de petistas de São Paulo que o encontrassem na Universidade de São Paulo (USP), onde cumpria agenda do ministério. Vários nomes da confiança do ex-senador foram convidados, entre eles os vereadores José Américo Dias, ex-presidente do PT paulistano, e Chico Macena, ambos incorporados ao conselho criado para coordenar a campanha em São Paulo. “Naquele momento, ele deixou muito claro que poderíamos começar a trabalhar pela candidatura do Haddad”, comentou um participante da reunião.

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Mercadante ficou fora da disputa pela prefeitura paulistana, mas deu carta branca a aliados para que trabalhassem por Haddad
Desafios

Uma vez empossado no Ministério da Educação, Mercadante terá de dissipar as preocupações quanto a uma mudança nos rumos da pasta, que ficou sob comando de Haddad desde 2005, quando o então ministro Tarso Genro deixou o governo para presidir o PT durante o escândalo do mensalão. Marca da gestão de Haddad, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) configura um dos principais desafios do novo ministro, em especial no que se refere à proposta de realizar mais de uma edição do exame ao ano .

A ideia é vista como saída para minimizar a pressão e a quantidade de candidatos inscritos de uma só vez na seleção. Mercadante chegou a defender publicamente a realização de mais duas edições por ano, objetivo que o MEC previu para este ano e marcou para abril. A troca de ministros, porém, pode atrapalhar os planos. Se Mercadante mantiver a presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Malvina Tuttman, no cargo, há mais chances de que o exame seja aplicado em abril. Caso contrário, dificilmente haverá tempo hábil para um novo funcionário entender o processo e programá-lo para esta data.

Embora diga respeito à realidade regional e não esteja sob guarda-chuva do MEC, o debate sobre a progressão continuada também já alimentou polêmicas sobre as posições de Mercadante para a área de Educação. O ministro já criticou duramente a progressão continuada, que toma por base a ideia de que a repetência mais prejudica do que auxilia no aprendizado. Apelidou o modelo de “aprovação automática” e prometeu, tanto em 2006 quanto em 2010, que acabaria com o sistema e retomaria a avaliação em todas as séries do ensino público paulista. Ao se defender de críticas dos que apoiam o modelo, no entanto, Mercadante repetia que o maior problema não era o conceito em si, mas sim sua condução durante a gestão do PSDB em São Paulo.

iG São Paulo
Expectativa é de que novo ministro assuma o posto ainda nas próximas semanas
Bandeiras

Outras pendências das quais Mercadante terá de cuidar são a implantação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), que passará a gerenciar os hospitais universitários; a proposta de transformar o Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe) da Universidade de Brasília (UnB) - responsável pelo Enem - em empresa pública; e a aplicação da prova nacional de concurso para ingresso na carreira docente.

Investir nos professores também pode se transformar em uma boa bandeira política para o novo ministro no futuro. Em eleições passadas, Mercadante já incluiu em suas propostas a qualificação e formação continuada da categoria. Também já defendeu que o governo dê um computador para cada professor e implemente um plano de carreira no setor.

Nesse quesito, as promessas do petista se alinham a alguns projetos já levantados por Haddad no ministério. O concurso nacional para professores – que seria adotado por municípios e Estados que quisessem – é uma das apostas da atual gestão para incentivar a formação dos educadores. Dentro do MEC, outra proposta defendida – mas ainda não estudada a fundo – é criar uma carreira federal para os professores. Com salários próximos aos pagos nos institutos federais (entre R$ 4 mil e R$ 6 mil) e um plano de carreira semelhante em todo o País, o que exigiria jogo de cintura para lidar com prefeitos e governadores.

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