'É a mercantilização do querer um mundo melhor', diz ativista

O empreendedorismo social, que une negócios e ativismo político, enfrenta críticas de quem crê que todo negócio deve ser social

Nara Alves, iG São Paulo |

Os ativistas políticos do século 21 encontraram na internet uma nova maneira de atuar. Negando vínculos com partidos e com a premissa de atuar de maneira independente, eles mobilizam voluntários interessados em promover transformação social. Muitos desses jovens agitadores políticos, que antes trabalhavam movidos à paixão, passaram a ser contratados por empresas especializadas no que ficou conhecido como "empreendedorismo social". Enquanto o chamado “empreendedorismo social” se transforma cada vez mais em uma carreira rentável, no entanto, há quem rejeite este rótulo.

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Bruno Fernandes/Casa da Cultura Digital
Voluntários no Ônibus Hacker, um projeto de transparência na gestão pública

É o caso da jornalista e ativista Daniela B. Silva, de 25 anos, sócia da Esfera, uma empresa que promove a transparência de dados na gestão pública. “Esse conceito de empreendedor social é a mercantilização do querer um mundo melhor”, diz. Para ela, todas as empresas deveriam responder ao interesse público. “Não dá para dividir empresas más e empresas boazinhas. Esse nome faz essas atividades virarem um certo mercado paralelo”, afirma. “Mas o jeito como você chama as coisas importa menos do que o que está sendo feito”, completa.

Daniela é uma das 50 pessoas que integram a Casa da Cultura Digital, um aglomerado de indivíduos e organizações ligadas à cultura digital que dividem o mesmo espaço em uma vila na Barra Funda, na capital paulista, desde julho de 2009. “Cada empresa trabalha com uma coisa diferente. A gente trabalha com fundações, organizações e com o governo. Dividimos o aluguel e a faxina”, explica. Ali, compartilham informações e desenvolvem projetos sociais colaborativos.

Um desses projetos é o Ônibus Hacker, viabilizado financeiramente por meio de doações de 464 pessoas, que contribuíram com valores entre R$ 10 e R$ 5 mil, totalizando R$ 58.593. O dinheiro foi arrecadado através do site de financiamento coletivo Catarse. Além da compra de um ônibus, o dinheiro foi usado na reforma do veículo, na compra de equipamentos, como webcam, 3G e GPS, e em despesa de viagem. Mas quem participa delas - advogados, jornalistas, programadores, artistas, gestores públicos e designers - não recebe nada.

Com o ônibus, esses profissionais percorrerão diversas cidades do País promovendo oficinas de programação, audiovisual, produção de informação e elaboração de projetos de lei. O objetivo é promover a participação da comunidade no debate de ideias sobre transparência, legislação, dados abertos e, como eles mesmos reforçam, autonomia. Na última semana, estiveram no Rio de Janeiro participando do Fórum de Cultura Digital. A próxima parada deverá ser em Januário, no norte de Minas Gerais, que teve sete prefeitos nos últimos quatro anos. “Eles têm um projeto muito bacana de jornalismo cidadão, o Amigos de Januário. Esse pessoal sinalizou que rola pagar a gasolina”, conta Daniela.

Arquivo pessoal
Miguel Peixe | 20 anos | Cardume | Solteiro
Microbolsa Hacker

Outra empresa presente na Casa da Cultura Digital é a Cardume, do webdesigner Miguel Peixe, de 20 anos. A Cardume foi criada para ser uma plataforma que reúna artistas e outros profissionais em torno de redes e grupos de trabalho. A empresa ganhou do coletivo Transparência Hacker - da qual Daniel B. Silva também faz parte - uma microbolsa de R$ 2 mil para iniciar um projeto de tradução da legislação do Brasil.

Batizado de "Leigos", o projeto pretende criar uma plataforma para que indivíduos possam, de maneira colaborativa, reescrever o "juridiquês" da legislação em português claro e acessível aos brasileiros.

"Estamos agora pensando em como fazer. Vamos formar um grupo para discutir isso porque a Legislação pode ser ambígua. Alguém de esquerda pode interpretar de uma maneira e alguém da direita, de outra", explica.

A bolsa é um "pontapé inicial" para que o "Leigos" possa sair do papel. Mas o projeto terá de ser sustentado com recursos dos próprios voluntários. Responsável pela iniciativa, a Cardume também deverá contribuir. "Nossa renda varia muito, mas fica numa média de R$ 10 mil para mim e minha irmã ( sócia da Cardume ). A expectativa para 2012 é de crescimento. Conseguindo novos projetos na Cardume, a gente consegue pagar os projetos sociais", afirma Miguel Peixe.

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