PSB e PPS negociam fusão e planejam virar alternativa à polarização PT e PSDB

Por Anderson Passos - iG São Paulo |

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Socialistas reúnem diretórios estaduais na próxima terça-feira. Diretório nacional só teve um voto contrário à fusão

PSB e PPS pretendem selar em 2015 a parceria feita nas eleições de 2014 para ser uma alternativa a PT e PSDB. As duas legendas trabalham para consolidar em junho deste ano um processo de fusão que, se concretizado, poderá levar os socialistas a se tornar a quarta força na Câmara dos Deputados, com 43 integrantes.

Beto Albuquerque é um dos articuladores da união com o PPS
JOSÉ PATRÍCIO/ESTADÃO CONTEÚDO
Beto Albuquerque é um dos articuladores da união com o PPS

Leia mais: Executiva do PSB-PE é contra a fusão com o PPS

Hoje, o PSB possui 32 deputados e o PPS tem 11 integrantes.

Se a ideia se concretizar, o novo partido seria superado no Congresso apenas por PMDB (67 integrantes), PT (64) e PSDB (53).

"Também há conversas para que senadores venham fortalecer o nosso partido", confirmou ao iG o vice-presidente de Relações Governamentais do PSB, Beto Albuquerque.

O ex-deputado federal gaúcho, que foi vice de Marina Silva na sucessão presidencial em 2014, completou que a Executiva Nacional, formada por 32 membros, teve apenas um voto contrário à fusão com o PPS.

"Só teve o voto contrário do Joílson [Cardoso], da Secretaria Sindical. Na terça-feira vamos fazer uma reunião com os diretórios estaduais e explicar quais os próximos passos. Vamos trabalhar na formatação de um novo estatuto e de um programa de governo", diz. 

Leia também: Marta Suplicy e PT devem travar guerra por mandato no Senado

Marina Silva não tem data para sair do PSB

O deputado federal e presidente nacional do PPS, Roberto Freire, afirma que PPS e PSB farão uma convenção nacional no dia 20 de junho em Brasília. O tema da fusão será apreciado e ambos podem se unir na mesma data.

"Se for aprovado, e tanto o PPS quanto o PSB caminham nessa direção, podemos fazer uma convenção juntos já no dia 20 de junho", situa o dirigente do Partido Popular Socialista. "Estamos trabalhando para que esse congresso ocorra no mesmo local em Brasília", confirma Beto Albuquerque.

Freire completa que há muitas sugestões para o nome do novo partido, mas entende que deve prevalecer a força maior, o PSB acompanhado do número 40. Para o presidente do PPS, a união PSB-PPS surge como "uma alternativa à esquerda e igualmente a PT e PSDB, que demonizam um ao outro" e empobrecem o debate político. 

"Essa polarização PT-PSDB é uma uva que não dá mais cacho. A participação do PSB nas eleições do ano passado, com mais de 23 milhões de votos, mostra que a população também está cansada", compara Albuquerque. 

Namoro e casamento

O namoro começou em 2014 quando o PPS, que havia apoiado os tucanos na esfera nacional (informalmente em 2006 e abertamente em 2010), se aliou ao projeto de Eduardo Campos (PSB-PE) na disputa à presidência da República.

"Essa negociação não vem de agora. Vem desde uma conversa que nós tivemos com o Eduardo Campos (ex-presidente nacional do PSB falecido num acidente aéreo em agosto de 2014), quando ele nem era candidato à presidência no começo de 2014", relembra Roberto Freire.

Diante da provocação de que teria apoiado candidaturas tucanas nas eleições presidenciais de 2006 (Geraldo Alckmin) e 2010 (com José Serra), o líder do PPS reforça: "É importante salientar que essa tese do PPS apoiar o PSDB e uma fusão com eles ser natural não é verdadeira. O PPS, inclusive, ajudou a eleger Lula em 2002", destaca o presidente do PPS.

"PSB e PPS têm uma história e trajetória comuns no Brasil desde o combate ao regime militar, passando pela Constituinte e no apoio ao governo Itamar Franco (1992-1994)", justifica Beto Albuquerque ao defender a fusão.

Com a morte de Campos, em agosto, Marina Silva e Beto Albuquerque, ambos do PSB, assumiram o manche da campanha, a terceira mais votada com 19,6 milhões de votos. Antes de deixar o PV, Marina quase fechou sua filiação ao PPS, mas optou por aceitar o convite do PSB, que deixara a base governista assim como ela mesma fizera.

Sem Marina Silva

Sobre a manutenção de Marina Silva, que articula a fundação da Rede Sustentabilidade e que ainda é filiada ao PSB - e um possível nome para 2018 - Beto Albuquerque se dá por vencido. "Marina Silva vai para a Rede. Essa é uma questão definida", acentua o socialista.

Freire é cauteloso. "Essa é uma questão que o PSB tem que resolver. Se ela pensar a Rede como uma organização e não como um partido, penso que a permanência dela é bem-vinda", salienta.

Indagado sobre as negociações que o PSB paulista encaminha para filiar a senadora Marta Suplicy para a disputa à Prefeitura de São Paulo em 2016, Freire comentou que a vinda da ex-prefeita é uma prova "da desligitimação do PT como força política", mas adota cautela sobre mais migrações. "É muito cedo para fazer uma avaliação desse tipo. Teria que ter bola de cristal." 

Enquanto isso, Beto Albuquerque admite concorrer à prefeitura de Porto Alegre (RS), projeto que "não estava no radar, mas que vem sendo alvo de consultas e conversas com lideranças locais.

À moda antiga

O professor de comunicação da Universidade de São Paulo (USP) Gaudêncio Torquato avalia que "qualquer fusão que se antecipe à reforma política tem valor zero porque os partidos políticos no Brasil ainda funcionam à moda antiga".

Na leitura dele, as fusões estão sendo aceleradas a fim de aumentar a representação na Câmara dos Deputados, condição para a partilha do Fundo Partidário e, consequentemente, do tempo de rádio e televisão na propaganda eleitoral. "Não se percebe claramente nas fusões uma mudança conceitual. É atirar no escuro", critica.

Sobre a fusão entre PSB e PPS, Torquato diz: "Não diria que se trata de uma nova opção à esquerda. Eu digo que é de centro-esquerda e que se coloca como uma alternativa ao PT, que está derretendo nesse momento. Prova disso é esse movimento da Marta [Suplicy] de deixar o PT rumo ao PSB."

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