Em meio à expectativa da divulgação da lista de investigados na Lava Jato, presidente do Senado tenta manter influência em indicações no primeiro e no segundo escalão do governo

A perspectiva de perder poder junto ao governo, combinada ao risco de ser citado na lista de investigados da Operação Lava Jato, teria motivado o presidente do Congresso, Renan Calheiros, a romper o relacionamento bastante próximo que manteve com o governo durante todo primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. 

Calheiros no Senado Federal: ele passou a adotar postura antagônica diante da crise de corrupção
PMDB/Divulgação
Calheiros no Senado Federal: ele passou a adotar postura antagônica diante da crise de corrupção

Em meio à movimentação para recompor as conversas com o PMDB, principal partido aliado, Dilma tratou de avisar que nenhum pleito do PMDB por cargos seria atendido antes de conhecer os nomes que serão alvo de investigação no inquérito pedido pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

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Caso o nome de Renan esteja na lista, além de não recuperar o controle de postos perdidos, como a diretoria da Transpetro, por exemplo, o senador corre o risco de não emplacar nenhum outro apadrinhado em postos do governo e ainda perder indicações no primeiro escalão, como o ministro do Turismo, Vinícius Lages.

De principal facilitador do diálogo do Planalto com o PMDB, Renan adotou uma postura antagônica nas últimas semanas, a ponto de recusar o convite para jantar no Palácio da Alvorada, na segunda-feira (2), com Dilma e a cúpula de seu partido e divulgar nota marcando sua posição mais independente.

Na semana passada, Renan bateu em Dilma ao classificar como “escorregadão” as desastradas declarações do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, sobre o equilíbrio das contas públicas.

Na segunda-feira, antes de divulgar a nota que pegou vários peemedebistas de surpresa, Renan avisou sobre sua decisão a duas pessoas: ao vice-presidente Michel Temer e ao ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga.

De acordo com interlocutores do governo, Temer teria se limitado a perguntar se era a decisão definitiva de Renan, que respondeu de forma afirmativa. Coube ao vice-presidente o papel de minimizar a saia justa durante o jantar e em conversa com jornalistas.

Perdas
Entre as perdas computadas por Renan após a divulgação de partes das investigações está o controle da Transpetro. Apadrinhado por Renan, Sergio Machado foi nomeado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2003. No entanto, precisou se afastar do cargo, no final do ano passado, após ter sido mencionado pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa como um dos beneficiados pelo esquema de propina na estatal.

Durante a reforma ministerial feita por Dilma no início do ano, Renan reivindicou o direito de indicar outro presidente para a subsidiária da Petrobras responsável pelo transporte do petróleo e seus derivados, considerada no meio político melhor do que muitas pastas do primeiro escalão do governo. No entanto, recebeu a negativa do Planalto.

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Além de perder a Transpetro, Renan ainda experimenta a perspectiva de se ver sem outra pasta sob sua influência: o Ministério do Turismo. A retomada do diálogo do governo com o PMDB inclui satisfazer o atual presidente da Câmara, Eduardo Cunha, com indicações no governo de Dilma. Um dos alvos do deputado é a pasta que pretende entregar a seu principal aliado no PMDB, o ex-presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), que ficou sem mandato após sair derrotado da eleição para o governo de seu Estado.

Cunha foi o único peemedebista da cúpula do partido a não receber seu espaço na reforma ministerial feita pela presidente Dilma. Enquanto a chefe do Podr Executivo cuidava de montar sua nova equipe, o presidente da Câmara cuidava de sua campanha para derrotar o petista Arlindo Chinaglia (SP), disputa que acabou comprometendo a relação na base de Dilma na Câmara. Na retomada do diálogo, o PMDB coloca suas indicações como condição. 

Além das indicações de Cunha, o PMDB exigiu a presença de Temer no chamado núcleo duro do governo, compromisso já firmado por Dilma, que conversou por telefone com Temer na semana passada e selou o acordo no jantar de segunda-feira.

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