Candidatos oposicionistas assemelham-se no compromisso com tripé e devem adotar mesma conduta na política industrial

A economia é o eixo da eleição presidencial de 2014, e as duas principais candidaturas de oposição, Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (PSB), têm girado em torno dele mais ou menos da mesma forma.

Na macroeconomia, as duas candidaturas e também a da presidente Dilma Rouseff (PT) se mostram comprometidas com manter o sistema de metas de inflação, conter gastos, e manter o câmbio livre – conjunto conhecido como tripé econômico.

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Os candidatos à Presidência Aécio Neves, Dilma Rousseff e Marina Silva
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Os candidatos à Presidência Aécio Neves, Dilma Rousseff e Marina Silva

Aécio e Marina, entretanto, têm se apresentado como mais fiéis a esses três princípios. O tucano é o único a ter inscrito o tripé em suas propostas de governo entregues ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Marina não o fez, mas, assim que sua candidatura foi oficializada pelo PSB  na quarta-feira (20), o coordenador-adjunto da campanha, Walter Feldman, disse que "o compromisso dela é o tripé", no qual "não se deve mexer".

As duas candidaturas de oposição também se comprometem a reduzir a meta de inflação. A proposta de Aécio prevê uma diminuição para 2% dos atuais 4,5%. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Neca Setúbal – coordenadora do programa de governo de Marina –, previu fixar a meta em 3% até 2019.

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Aécio e Marina também têm reforçado o apoio à autonomia do Banco Central – Marina, inclusive, está comprometida em garanti-la formalmente, por meio de lei, segundo Setúbal.

O documento apresentado por Dilma ao TSE, além de não prever redução da meta, indica uma flexiblidade maior em relação ao tripé econômico. A política macroeconômica do PT e dos aliados, diz o texto, é baseada numa taxa de câmbio flexível, mas "compatível com as condições estruturais do País", inflação "baixa e estável" e "rigor da gestão fiscal".

O discurso está em linha com a forma de atuação do governo. Desde agosto de 2013, o Banco Central vendeu US$ 66,2 bilhões para segurar o câmbio; a inflação, ao longo de todo o governo Dilma, esteve mais próxima do teto do que do centro da meta (veja tabela); e o superávit primário tem caído.

Perto do teto
Ano Teto da meta de inflação (em %) Inflação (em %) Distancia para o teto da meta
2005 7 5,69 -1,31
2006 6,5 3,14 -3,36
2007 6,5 4,46 -2,04
2008 6,5 5,9 -0,6
2009 6,5 4,31 -2,19
2010 6,5 5,91 -0,59
2011 6,5 6,5 0
2012 6,5 5,84 -0,66
2013 6,5 5,91 -0,59


Ajuste une os três candidatos, mas principalmente os oposicionistas

Presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB) e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Luiz Fernando de Paula vê a proximidade entre os dois oposicionistas expressas nos nomes de seus principais conselheiros econômicos.

"Eduardo Gianetti [ colaborador da campanha de Marina ] e André Lara Resende têm o discurso do liberal moderno, com uma nova roupagem, mas que no fundo é muito parecido com a ortodoxia conservadora defendida pelo Aécio e seus assessores", afirma de Paula ao iG

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Para o economista, tanto Aécio quanto Marina buscarão fazer uma política "bastante pró-mercado", sendo o tucano o candidato natural do mercado financeiro.

André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, avalia que o candidato do PSDB é o que mais respeita o tripé econômico – embora acredite que essa política está comprometida pois, desde 2008, "o mundo mandou às favas o bom modo monetarista". Marina, por outro lado, é uma incógnita em sua opinião.

"O pessoal anda falando de André Lara Resende [ um dos formuladores do Plano Real ], que é parecido com o PSDB", diz Perfeito. "Agora, ser próximo ou não... a não ser que a Marina terceirize o Ministério da Fazenda, ela vai fazer do jeito dela, e isso é uma caixa preta. Ela é mais radical. Você a imagina cortando gasto público?", questiona.

Veja imagens de campanha dos candidatos à Presidência:

Um eventual segundo governo Dilma na área macroeconômica não será tão diferente de uma estreia de Aécio ou de Marina, avaliam os dois economistas, ao menos a princípio. Perfeito aponta que a petista sentiu o golpe da perda de credibilidade do governo em razão das opções que tomou, sobretudo na gestão das contas públicas, e "tende a fazer algumas correções de curso". 

Para o professor da Uerj, essa correção significará a submissão a um ajuste fiscal.

"A tendência de todos será no início do governo fazer um ajuste fiscal, mas possivelmente será maior nos governos Aécio e Marina, até mesmo em função do objetivo de priorizar uma desinflação de modo mais rápido", diz De Paula. " A política macro [ de Dilma ] será um pouco mais “market-friendly”, com um aumento inicial no superávit primário (mas não significativo) e uma politica gradual de convergência para a meta de inflação (4,5%)."

Dilma, afirma De Paula, não chutaria o tripé. "A diferença, nesse caso, estará na dosagem e não no remédio."

Divergência na agropecuária, convergência na indústria

Para além do sinal de maior compromisso com o tripé econômico, Aécio e Marina também têm outras similaridades, aponta Otto Nogami, professor do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa.

"Você consegue observar uma semelhança muito grande em termos de preocupações básicas que têm sido discutidas ao longo dos últimos 12 anos: infraestrutura, competitividade, inovação, ênfase em pesquisa e desenvolvimento", afirma o professor.

Há outras coincidências nos programas entregues ao TSE: Aécio e Marina prometem promover desenvolvimento regional e arranjos produtivos locais como forma de reduzir as desigualdades entre as diferentes áreas do País. O empreendedorismo, sobretudo na forma de micros e pequenos negócios, é apresentado como meio de garantir trabalho e renda. 

Uma divergência importante surge na agropecuária. O programa socialista fala em reforma agrária, tema ignorado pelo tucano, que pretende esvaziar o poder da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTN-Bio), responsável por autorizar, por exemplo, a utilização de transgênicos.

Nogami, do Insper, ressalta também a maior valorização de fontes de energia limpa por parte da candidatura de Marina, embora isso também esteja presente no programa de Aécio.

"Não que fique claro, mas começa[ -se ] a deduzir que essa preocupação [ de Marina ] em relação à competitividade, política industrial e capacidade de ampliar a produção e a infraestrutura colide um pouco com as questões ambientais", diz o professor. "Então, surge aquela dúvida: como vão conseguir contemporizar esses dois aspectos?"

Menos ativismo e mais reformas

Marina e Aécio também tendem a fazer um governo menos "ativista", no sentido de dar mais estabilidade à regulação do mercado como forma de criar um ambiente mais favorável ao investimento privado, avalia Luiz Fernando de Paula, da Uerj.

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A mesma postura menos interventora deve ser esperada na política industrial – na qual, acredita o economista, Dilma também deve baixar o tom, reduzindo o papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Um eventual governo Aécio se distanciaria das duas candidaturas principalmente no que toca a reformas como a previdenciária, a tributária e a trabalhista, aposta o economista da Uerj.

"Ele se propõe a ser um governo que mais tentará implantar um novo modelo econômico para o País, com maior abertura comercial, redução do papel do Estado na economia, etc."

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