Último volume de trilogia resgata para história nacional papel fundamental de Alzira, filha do ex-presidente Getúlio Vargas

Reconstituição reveladora, o terceiro e último volume da trilogia Getúlio, do jornalista e escritor Lira Neto, resgata para a historiografia o papel de Alzira, a filha preferida do ex-presidente Getúlio Vargas, como figura complexa e operadora privilegiada, em torno da qual, entre 1945 e 1954, gravitaram as decisões que marcaram a última fase da mais marcante personalidade política do Brasil no século 20.

“Getúlio, 1945 – 1954, Da Volta Pela Consagração ao Suicídio” (Companhia das Letras) é um primor de reportagem. Lira Neto foi garimpar nos arquivos do centro de documentação (Cpdoc) da Fundação Getúlio Vargas e lá desenterrou, intactas, pedras de ouro puro: os manuscritos – mais de 1.500 anotações – com os quais Alzira Vargas pretendia escrever o segundo volume de suas memórias.

Alzira Vargas com o então noivo (posteriormente marido) Ernâni do Amaral Peixoto, em julho de 1939
Departamento Nacional de Propaganda
Alzira Vargas com o então noivo (posteriormente marido) Ernâni do Amaral Peixoto, em julho de 1939

Neles estão os relatos em que a filha do presidente, conselheira e articuladora política de rara capacidade – o que pouca gente sabia – , detalha em cartas trocadas com o pai ou anotações pessoais, a intensa conspiração que levou Getúlio de volta ao poder, primeiro como senador em 1946 e, depois, ao Palácio do Catete “pelos braços do povo”, em 1950.

Ao reviver os momentos finais do presidente, que se matou com um tiro no peito, Alzira acaba revelando que foi ela – e não os generais, ministros ou os outros familiares homens presentes à última reunião – quem assumiu a linha de frente pela reação armada contra os golpistas durante a confusa e derradeira reunião ministerial.

“Não pude me conter e reagi”, conta Alzira, transformando, conforme suas próprias palavras, “em comédia”, a famosa reunião que terminou em tragédia. Dizendo-se estimulada por ajudantes de ordem “aflitos, angustiados e desejosos de resistir”, lembra que, impulsionada pelo ímpeto, esmurrando a mesa presidencial, para espanto de todos os presentes, inclusive de seu pai – “que não esperavam por essa minha reação” – se dirigiu aos generais e demais ministros determinada:

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“Não é só a vida da República e a de meu pai que estão em jogo. A minha também está. E me julgo no direito de informar aos senhores, se é que não sabem, que nós temos capacidade de resistir”.

Com interlocução privilegiada junto a comandantes militares da confiança do Catete, Alzira sabia do que estava falando. Informou aos generais que o único foco de reação estava na Aeronáutica, reduto dominado pelos dois principais golpistas, o brigadeiro Eduardo Gomes e o jornalista Carlos Lacerda. A favor, além de Osvaldo Aranha, ministro da fazenda, estava também o então ministro da Justiça, Tancredo Neves.

O jornalista Lira Neto é autor de uma trilogia biográfica de Getúlio Vargas, a mais marcante personalidade política do Brasil no século 20
Vasconcelo Quadros/iG
O jornalista Lira Neto é autor de uma trilogia biográfica de Getúlio Vargas, a mais marcante personalidade política do Brasil no século 20


“Isso não passa de uma conspiração de gabinete (...). O senhor sabe, tão bem quanto eu, que na Vila Militar nada foi alterado desde sua visita lá, hoje à tarde. E sem a Vila, pode alguém pretender dar golpes neste País?”, questionou, se dirigindo ao então Ministro da Guerra, general Zenóbio da Costa, favorável à renúncia. Alzira soube depois, pelo pai, que o general seria ministro também do vice-presidente, Café Filho.

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Em seguida, surpreendendo mais uma vez Getúlio, Alzira passa a impressão que poderia até decidir pelo pai e volta à carga com Zenóbio. “Se o senhor julgar que a simples renúncia de meu pai vai trazer tranquilidade, progresso e ordem neste País, não se fala mais nisto. Mas o senhor tem certeza?”.

Assim que os ministros deixaram o palácio, a família do presidente se preparou para reagir. O irmão do presidente, Benjamin Vargas, o Bejo e o filho, Lutero, com armas à cinta, Alzira, com o seu revólver na bolsa, se certificaram que os ajudantes de ordem, com metralhadoras e fuzis, estavam posicionados.

“Estamos prontos para a luta (...) os pusilânimes e os puxa-saco já foram embora”, diz Lutero. Getúlio reagiu com uma resposta sintomática, avisando que naquela manhã não haveria derramamento de sangue. “Se algum sangue for derramado, será de um homem cansado e enojado de tudo isso”. Preocupado, o filho consulta o tio, que o tranquilizou.

Alzira, logo em seguida, foi ao quarto do pai onde, segundo seu relato, travaram o último diálogo. É ela, mais uma vez, quem demonstra dividir com o pai o controle da situação.

“Posso me permitir ao luxo de mandar prender, enquanto tu dormes, os principais responsáveis por tudo isso? Tu aguentas a mão se eu der a ordem?”, pergunta Alzira. Mirava, naturalmente, Eduardo Gomes, Lacerda e os comandantes da Aeronáutica que, desde o atentado que matara o major Rubens Florentino Vaz e deixara o jornalista com um ferimento de bala no pé, virara a trincheira dos golpistas.

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“Está bem”, responde Getúlio, fingindo sonolência. O presidente ainda receberia a visita do irmão de Bejo, que foi comunicar a decisão dos generais pela renúncia. As 08h35 de 24 de agosto, “o barulho seco de um tiro ecoou” no Palácio do Catete, desencadeando a correria ao quarto presidencial.

Nas anotações inéditas, a filha Alzira recorda: “Joguei-me sobre ele, numa última esperança. Apenas um leve sorriso me deu a impressão de que ele me havia reconhecido.”

O livro de Lira Neto reconstitui o período de nove anos entre a deposição de Getúlio Vargas, em 1945, encerrando a ditadura de 15 anos, até seu retorno triunfal ao Catete, consagrado pelas urnas. Ao contrário do que os adversários esperavam, Getúlio fez do refúgio em São Borja – fazendas Santos Reis e Itu – uma central de conspiração para voltar ao poder. Alzira, no Rio de Janeiro, transformou sua casa numa embaixada do getulismo.

Capa do livro “Getúlio, 1945 – 1954, Da Volta Pela Consagração ao Suicídio”
Divulgação
Capa do livro “Getúlio, 1945 – 1954, Da Volta Pela Consagração ao Suicídio”

Pai e filha trocaram intensa correspondência, nem sempre amistosas. Nas eleições de 1950, quando Getúlio venceu mais uma vez – e de forma esmagadora o brigadeiro Eduardo Gomes – a filha questionou a opção da aliança com Ademar de Barros em São Paulo, apontado por ela, como um político associado a corrupção. “Não gostei”, escreve, repreendendo o pai. “Não entendi nada!”, desabafa. Depois, ao perceber que o pai precisava mesmo dos votos de São Paulo, releva.

Enquanto “plantava árvores e decifrava palavras cruzadas” no “exílio” da fazenda Itu, em São Borja, o ex-presidente descobriria a nova liderança que viraria o herdeiro do getulismo, o advogado e estancieiro João Goulart, mais tarde seu ministro do Trabalho. Não por acaso, assinala Lira Neto, dez anos depois, Jango seria a próxima vítima dos mesmos militares que encabeçaram a conspiração que terminou na tragédia, entre eles o primeiro presidente da ditadura de 1964, o general Humberto de Alencar Castelo Branco.

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O livro de Lira Neto também resgata o papel da imprensa na crise, especialmente os antagônicos Samuel Wainer, da Última Hora, getulista, e o opositor Carlos Lacerda, da Tribuna da Imprensa que, “sem escrúpulos nem pudor”, chegava ao ponto de inventar reportagens para desgastar o presidente.

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“Getúlio, 1945 – 1954, Da Volta Pela Consagração ao Suicídio” , Companhia das Letras, 432 páginas.

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