Aos 91 anos, coronel Délio Velloso disputa vaga de deputado federal e tenta fugir da imagem negativa da Polícia Militar

Dois candidatos a deputados se destacaram entre as fichas de candidaturas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) das eleições 2014. A idade pode até espantar e dar a impressão de que já não esbanjam forças no dia a dia, mas ambos garantem que a marca dos 90 anos não é sinônimo de limitação. O mais experiente é coronel Délio de Barros Velloso, de 91 anos, que disputa vaga de deputado federal pelo PRB de São Paulo.

Com o discurso de que “conhece a vida desde pequenininho”, Velloso diz estudar a sociedade civil há pelo menos 40 anos em busca de soluções. A aposentadoria, segundo ele, mostrou que a busca incessante por dinheiro não valia a pena. “A pessoa pode ser produtiva em todas as idades. Não tenho nenhuma doença, nenhum órgão afetado, só tenho idade. A cronológica pode ser 91, mas os médicos me dão 60”, conta orgulhoso.

Velloso reconhece, no entanto, que pode não estar vivo para ver suas propostas em ação no Congresso e a política sofrerá as primeiras mínimas mudanças apenas se uma geração inteira se dedicar a isso. “Eu quero dar o pontapé inicial da partida, mas sei que não vou fazer o gol. A prorrogação pode até terminar em 0 x 0, mas alguém pode marcar nos pênaltis.”

Assista ao vídeo de Velloso comentando os temas que rondam as eleições:

As principais propostas de campanha são construções de casas populares com venda a preço de custo, “mas nada como o Minha Casa e Minha Vida ”, e medidas contra a poluição, por exemplo. Velloso prefere não dar detalhes dos projetos, com o argumento de  "não alongar a entrevista”. Mas garante ter tudo definido com o apoio de uma equipe de especialistas, inclusive um diretor de campanha, que ficou presente durante a entrevista e não economizou interrupções para ajudar o candidato a construir respostas mais claras.

Candidato recuou e decidiu usar o título de engenheiro no santinho
Reprodução
Candidato recuou e decidiu usar o título de engenheiro no santinho

“Não gosto do jeito ‘me dá, me dá, me dá’ desse governo. Assim como o tratamento que dão ao sem-terra. Eu também não tenho terra, e aí? Hoje, o governo favorece grupos e isso vai contra o que eu penso. Quero criar leis para favorecer a vida de todos os brasileiros”, defende o coronel, que já foi candidato "há 30 ou 40 anos", mas por dificuldades financeiras e falta de apoio do partido não teve sucesso.

“Coronel afugenta eleitores”

Ao caminhar pela sua casa, ele busca apoio nos móveis e relembra histórias da infância em Piracicaba e da mocidade, quando atuava na Força Militar, órgão de segurança que precedeu a Polícia Militar. E apesar da formação em engenharia civil e administração, Velloso chegou a eleger o título de coronel como nome de urna. Para não ser prejudicado pela má fama de um “coronel da PM com mais de 90 anos”, ele recuou e imprimiu santinhos como “Eng. Velloso”.

Questionado sobre a mudança ainda não reconhecida pelo TSE, o candidato confessa que a patente poderia “afugentar eleitores” e passar uma visão equivocada do seu plano político. “O título pode passar também que só vou atuar em segurança, mas lá [ em Brasília ] atuarei muito mais como engenheiro e administrador”, justifica Velloso, reforçando, porém, que o Estado necessita resgatar sua autoridade diante da sociedade.

A possível vitória nas urnas traz certa preocupação ao aposentado já que a companheira de seis décadas, a poetisa Teresa Velloso, o alertou que não se mudará para Brasília.

Registro de Waldir dos Santos no site do TSE
Reprodução/TSE
Registro de Waldir dos Santos no site do TSE

Waldir, o jovem

Também oferecendo uma larga experiência de vida como Velloso, mas com nome de urna “O jovem”, Waldir Rufino dos Santos quer conquistar o eleitorado de Minas Gerais e se tornar deputado estadual pelo PTdoB. O apelido dado por amigos surgiu com a estratégia de Santos de usar “jovem” para chamar conhecidos, já que não lembra o nome de ninguém nas ruas. O candidato acredita que o “leve esquecimento” é o único presente negativo que conquistou com a idade, que chegará a 90 em janeiro de 2015.

“Graças a Deus estou inteirinho e dou baile na molecada aqui do bairro [ Madre Gertrudes ]. Meu único problema é com os nomes porque conheço muita gente. Aí chamo todo mundo de jovem é mais fácil”, diz aos risos. Para ele, a idade nunca foi um obstáculo ou uma muleta para “encostar a vida”. Entre os compromissos de campanha, Santos diz jogar futebol e fazer aulas de dança de salão, natação e judô.

O engajamento político surgiu em 1944, quando tinha 17 anos e fundou ao menos dois sindicatos na região de Belo Horizonte. E lembra bem quando acompanhou e festejou as vitórias dos presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubistchek. Santos surpreende ao não cultivar opiniões dos amigos da mesma idade. Em relação ao casamento gay, por exemplo, o candidato vai a favor “do direito de viver e fazer aquilo que gosta”.

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