Com 2,9 km do monotrilho, Alckmin mira reduto petista em São Paulo

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo |

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Trecho entre Vila Prudente e Oratório, que funcionará de forma experimental, é visto como vitrine de governador em campanha

Motoristas e passageiros que usam a Avenida Luiz Inácio de Anhaia Mello se depararam esta semana com um novo cenário: no meio das duas vias, ambas restauradas, uma pista de ciclovias novinha em folha e com trabalho paisagístico deram ao esqueleto de concreto das obras inacabadas do monotrilho uma prévia do que deverá ser a Linha Prata - um ramal com 26,6 quilômetros que pairará a 15 metros de altura sobre as 17 estações que ligarão o Metrô de Vila Prudente, sudeste da capital, à Cidade Tiradentes, no extremo leste.

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Esqueleto de concreto das obras inacabadas do monotrilho vistas da Avenida Luiz Inácio de Anhaia Mello. Foto: Vasconcelo Quadros/iGEsqueleto de concreto das obras inacabadas do monotrilho vistas da Avenida Luiz Inácio de Anhaia Mello. Foto: Vasconcelo Quadros/iGCiclovia e estrutura do monotrilho. Foto: Vasconcelo Quadros/iGEm todo o trajeto da obra não há referência ao nome do governador ou de seu partido. Foto: Vasconcelo Quadros/iGEnorme painel no segundo piso da Estação Vila Prudente cita apenas o 'Governo de São Paulo' como responsável pela obra. Foto: Vasconcelo Quadros/iGOperários fazem o acabamento do trecho. Foto: Vasconcelo Quadros/iGEnorme painel no segundo piso da Estação Vila Prudente cita apenas o 'Governo de São Paulo' como responsável pela obra. Foto: Vasconcelo Quadros/iGAposentado Bantoil Cenegato: 'Teve dias
que a gente nem conseguia atravessar a avenida'. Foto: Vasconcelo Quadros/iGObras em monotrilho de São Paulo. Foto: Vasconcelo Quadros/iGObras em monotrilho de São Paulo. Foto: Vasconcelo Quadros/iGObras em monotrilho de São Paulo. Foto: Vasconcelo Quadros/iG

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Parcialmente liberados a transeuntes e ciclistas enquanto operários ainda fazem o acabamento do trecho, os 2,9 quilômetros entre as estações Vila Prudente e Oratório (correspondentes a 10,9% da obra) se transformarão nos próximos quatro meses numa espécie de vitrine dos feitos do governador Geraldo Alckmin (PSDB), candidato à reeleição, na área de mobilidade social, justamente no maior reduto eleitoral do PT em São Paulo. Com uma população predominantemente nordestina, a zona leste deu ao atual prefeito Fernando Haddad na eleição de 2012 a diferença de votos que o ajudou a derrotar o ex-ministro José Serra.

Com conclusão prevista para 2016 se novos imprevistos não surgirem, o cronograma do monotrilho e seu impacto numa das regiões mais pobres da capital, coincidência ou não, acoplou-se ao calendário eleitoral. O monotrilho da Estação Oratório deve começar a funcionar a partir da próxima semana em fase experimental, com visitas controladas, abertas ao público, para entrar em funcionamento definitivo até o final do ano.

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Primeira experiência brasileira e o maior do mundo, com obras iniciadas em 2010, o monotrilho da zona leste é um exemplo da moderna engenharia e criará um novo eixo de desenvolvimento metropolitano. Custará ao contribuinte R$ 6,4 bilhões e atenderá cerca de 500 mil pessoas por dia, encurtando para 50 minutos uma viagem que atualmente demora mais de duas horas. Controlado por computador - como funciona atualmente a Linha Amarela -, o trem de 86 metros de comprimento e 3,5 metros de altura não precisará de maquinista e transportará 48 mil pessoas por hora e por sentido, em intervalos máximos de 75 segundos. Entre a Vila Prudente e Oratório, o Metrô estima que no período experimental a linha atenderá diariamente 13,5 mil pessoas.

Até os ganhos previstos com sua conclusão, porém, a obra vem causando sucessivos transtornos à população. “Teve dias que a gente nem conseguia atravessar a avenida”, diz o aposentado Bantoil Cenegato, que na quarta-feira (23) trafegava pela ciclovia em sua cadeira de rodas motorizada.

Reprodução/Facebook oficial Geraldo Alckmin
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Ele acha que a obra produzirá um impacto positivo à região, mas afirma que o Metrô nem a construtora negociaram com a população qualquer alternativa que atenuasse as dificuldades.

Como a cada acoplagem das centenas de vigas de ferro e concreto exigiu uma infinidade de operações para interromper o tráfego, quem precisou das avenidas Anhaia Mello e Sapopemba, teve de enfrentar congestionamentos e atrasos durante quatro anos. Quem mora ao longo das outras 16 estações terá de conviver com os mesmos problemas até o término da obra.

Estratégia

Como não pode inaugurar a nova estação por causa da lei, o governador deverá transformá-la numa arma de propaganda, ataque e defesa: invade o reduto do adversário, realça a ênfase do governo em obras de transporte e infraestrutura urbana enquanto tenta se desviar das críticas que certamente aparecerão na campanha sobre o suposto envolvimento dos governos tucanos com o escândalo do cartel Siemens/Alstom, que ainda corre na justiça. O monotrilho será mostrado exaustivamente no horário eleitoral.

O deputado federal Duarte Nogueira, presidente estadual do PSDB, diz que a Linha Prata é resultado da ação do governo ao priorizar a melhoria da qualidade de vida do paulistano, conforme exigiram as manifestações de 2013. “Campanha eleitoral é outra coisa”, afirma. Segundo ele, é provável que Alckmin faça uma visita à nova estação durante a campanha, mas nega que terá caráter eleitoral.

“Ele (Alckmin) não vai fazer vistoria porque é eleição. Ele trabalha assim, mesmo em período que não há eleição. É para botar pressão e fazer com que os prazos sejam cumpridos”, garante Nogueira. “Mesmo sendo a zona leste um reduto de adversários, ele escolheu o compromisso com o povo”, afirma o deputado.

Em todo o trajeto da obra não há referência ao nome do governador ou de seu partido. As 17 placas afixadas ao longo do trajeto e um enorme painel no segundo piso da Estação Vila Prudente citam apenas o “Governo de São Paulo” como responsável pela obra. Isso não significa, segundo o advogado Alberto Rollo, especialista em direito eleitoral, que os tucanos estejam livres de enfrentar problemas com a Justiça por suposta propaganda ilegal.

“O prefeito de Mauá (região metropolitana de São Paulo), Oswaldo Dias (PT), foi cassado por uma circunstância semelhante”, alerta Rollo. Em 2004, para alavancar o candidato a sua sucessão, Márcio Chaves Pires, Dias organizou uma enorme tenda com as realizações de sua gestão num episódio que ficou conhecido como Túnel do Tempo.

Mesmo argumentando que se tratava de propaganda institucional sobre os 50 anos do município e sem vincular nome ou siglas ao evento, a Justiça entendeu como propaganda ilegal da coligação, cassou a candidatura de Pires em 2004 e, em 2010, suspendeu por cinco anos os direitos políticos do ex-prefeito.

A Companhia do Metropolitano de São Paulo, estatal do governo, diz que a entrega do trecho segue um cronograma técnico, usual em todas as obras do gênero. Mesmo depois de entrar em funcionamento definitivo, a obra alterará muito pouco a rotina dos 600 mil trabalhadores da zona leste, que ainda dependerão diariamente de ônibus - muitos deles velhos - abarrotados para acessar a Linha Verde.

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