Comissão da Verdade planeja divulgar nomes de torturadores da ditadura

Por Wilson Lima - iG Brasília |

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Na reta final das investigações, órgão já conseguiu traçar em detalhes como funcionava a repressão e conclui que as ações de tortura eram política de Estado; conclusões estarão em relatório final

Após aproximadamente dois anos de trabalho, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) chega à reta final das investigações já estabelecendo quais eram a estrutura e a lógica interna do aparelho estatal de repressão durante o Regime Militar. A comissão já tem nomes de torturadores e autores de assassinatos durante o regime militar, que deverão ser divulgados no relatório final que começa a ser preparado até o final do primeiro semestre deste ano.

Comissão da Verdade pede investigação sobre tortura nas Forças Armadas

Comissão da Verdade mostra detalhes de como funcionava tortura na ditadura

Conforme as investigações e documentos colhidos pela Comissão, já é possível constatar que as ações de repressão durante o regime foram políticas de Estado, não sendo meramente atos isolados de alguns grupos independentes, como sempre foi divulgado pela Ditadura.

Durante as investigações sobre a estrutura Estatal de repressão, conforme membros da Comissão ouvidos pelo iG nesta semana, o colegiado já começa a identificar uma relação direta entre o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e membros do Exército, trocando informações e até estabelecendo um diálogo sobre locais onde ocorreriam atos de tortura.

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Nesta semana, por exemplo, a Comissão confirmou oficialmente que havia desvio de finalidade em sete unidades das Forças Armadas, utilizadas como campos de tortura e execução de agentes de esquerda. A Comissão acredita que a situação ocorria em unidades do Exército, Marinha e Aeronáutica em todo o Brasil. Normalmente, os militantes de esquerda chegavam em veículos das Forças Armadas, encapuzados ou carregados dentro de sacos. Ex-funcionários do Exército já confirmaram à Comissão da Verdade, em depoimentos prestados no ano passado, que eram punidos e torturados quando emitiam juízos de valor contrários à prisão de agentes da esquerda.

Na Vila Militar do Rio de Janeiro, uma das unidades investigadas pela CNV, havia pelo menos duas salas de tortura, quatro celas e três “solitárias” instaladas. O atual coordenador da Comissão, Pedro Dallari, afirmou nesta semana que, pela segurança e restrições de acesso às unidades das Forças Armadas, dificilmente “grupos independentes” conseguiriam entrar nestes prédios para torturar e executar militantes de esquerda, sem qualquer autorização dos responsáveis pelo local.

Dallari classificou como “inacreditável” a informação de que haviam campos de tortura até em Vilas Militares, onde residiam familiares dos membros do Exército.

Um integrante da comissão informou em caráter reservado que “as investigações indicam que membros das Forças Armadas e do Dops trocavam informações sobre os locais onde deveriam ser levados agentes de esquerda presos no período”. Ainda conforme a CNV, como o vínculo e a estrutura Estatal de terror já está estabelecida, as investigações agora vão focar no complemento dessas informações. Depois disso, a Comissão já deve começar a preparar seu relatório sobre esse tema.

As investigações da CNV apontam que tanto nas unidades das Forças Armadas, quanto nas unidades do DOPS, os métodos de tortura eram semelhantes, com a adoção de choques elétricos em determinadas partes do corpo dos presos políticos - como os órgãos genitais -, espancamentos, tentativas de afogamento, privação de alimento, água e sono e até simulação de fuzilamento.

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