'Ulysses vacilou no início', diz ex-deputado que participou das Diretas Já

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo | - Atualizada às

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Segundo Domingos Leonelli, a campanha só deslanchou depois do primeiro comício em Goiânia: ‘A presença de 50 mil pessoas despertou o interesse dele’

Os dois grandes nomes da transição da ditadura para a democracia, o ex-deputado Ulysses Guimarães e o ex-presidente Tancredo Neves tiveram momentos de hesitação antes de entrar na campanha popular pelas eleições diretas.

Um dos articuladores do grupo de esquerda que tentava empurrar o PMDB, o ex-deputado Domingos Leonelli lembra que ao ouvir a proposta, Ulysses ficou em cima do muro. “No começo ele vacilou”, conta Leonelli.

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Em vez de dar uma resposta a Dante de Oliveira, autor da emenda, o então presidente do PMDB, sem demonstrar qualquer entusiasmo, decidiu que o caso deveria ser tratado na bancada do partido na Câmara, para onde eram canalizadas todas as propostas de emenda parlamentar.

Tancredo Neves, que seria o primeiro civil a assumir o comando do País, morreu antes de tomar posse. Foto: AEOs governadores de São Paulo e do Rio de Janeiro, André Franco Montoro e Leonel Brizola (c), estavam entre os políticos que articularam o apoio a emenda. Foto: AEAutor da emenda que pedia a volta das eleições diretas, Dante de Oliveira exerceu vários cargos, entre eles governador de MT. Foto: CID Câmara dos DeputadosA cantora Fafá de Belém foi a voz das Diretas Já. Foto: AEO jogador Sócrates, morto em 2011, também se engajou na campanha das Diretas. Foto: AEApelidado de senhor Diretas, Ulysses Guimarães - morto em 1992 - teve papel fundamental na campanha. Foto: AEO senador Teotônio Vilela, responsável por lançar a ideia da campanha, morreu antes de os comícios tomarem o País. Foto: Agência SenadoMiguel Arraes, ex-governador de Pernambuco morto em 2005, era uma das lideranças progressistas do movimento. Foto: Divulgação PSBO ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1º na foto) teve participação ativa na campanha das Diretas. Foto: AEO ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também lutou por eleições diretas e dividiu palanque com FHC. Foto: AEO então deputado Mário Covas também estava presente nos comícios e nas articulações pró-diretas. Foto: Agência EstadoA atriz Lucélia Santos participou dos comícios das Diretas Já. Foto: George MagaraiaChristiane Torloni, chamada de musa das Diretas, teve participação ativa nos palanques. Foto: DivulgaçãoO radialistas esportivo Osmar Santos emprestou sua voz para a campanha das Diretas Já. Foto: Divulgação/Facebook Mogi MirimO ator Mário Lago, morto em 2002, era dono dos discursos mais contundentes nos comícios das Diretas. Foto: DivulgaçãoSempre engajada, a atriz Bete Mendes também teve papel importante nas Diretas. Foto: AgNewsO cantor Chico Buarque participou de vários comícios das Diretas Já. Foto: Taiz DeringProtagonista da luta contra as barbáries da ditadura, d. Paulo Evaristo Arns também apoiou as Diretas Já. Foto: Reprodução Facebook


Numa reunião da bancada em abril de 1983 o tema entrou na pauta. Ao ouvir a exposição de Dante de Oliveira, que insistia no envolvimento do partido, o líder do PMDB, Freitas Nobre (SP), decidiu criar uma comissão, gesto recebido como uma ducha de água fria: naquela época as comissões eram medidas tão inócuas que só eram criadas quando ninguém queria resolver nada.

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Thelma de Oliveira, ex-deputada e viúva de Dante diz que foram momentos muito tensos, mas pondera que as circunstâncias justificavam o perfil conciliador do presidente do PMDB. “O Ulysses era muito cauteloso”, afirma Thelma.

Leonelli conta que a esquerda do PMDB decidiu então fazer do limão uma limonada. A comissão era uma janela institucional e, usada com competência, poderia produzir resultados.

Na primeira reunião, Leonelli levou pronto um plano de marketing para uma campanha. A expressão “derrubar” a ditadura foi substituída por “derrotar” e os panfletos começaram a circular, primeiro em Brasília, depois em vários locais do país.

“A campanha só deslanchou depois do primeiro comício daquela fase, no dia 15 de junho de 1983, em Goiânia. A presença de 50 mil pessoas despertou o interesse de Ulysses e dos governadores”, conta Leonelli.

Ulysses, segundo ele, percebera ali que poderia acertar dois coelhos com uma só cajadada, uma no regime militar, que viraria o inimigo comum, e a outra, mais leve, nos adversários internos, representados à época pelos 16 governadores que o PMDB elegera em 1982 e que tiravam forças de Ulysses.

“Ele foi genial ao perceber que a campanha o fortaleceria”, afirma Leonelli. Meses depois, quando era tratado como o “Senhor Diretas”, o presidente do PMDB adquirira tanta musculatura que o partido virara apenas um trampolim para um lance mais alto.

Mas antes precisava acertar os ponteiros com o então governador de Minas, Tancredo Neves, um conciliador nato, que trocara o PP pelo PMDB, e passou a exercer forte liderança quando se incorporou a campanha.

“Ulysses e Tancredo tinham um acordo tácito. Um apoiaria o outro no cenário que surgisse depois da campanha. Se a emenda fosse aprovada, Ulysses seria o candidato numa eleição direta com apoio incondicional de Tancredo”, afirma o jornalista Ricardo Kotscho.

Raposa felpuda, Tancredo continuou participando dos comícios pelas Diretas, mas nos bastidores passou a conversar com os militares e dirigentes do partido de sustentação ao regime, o PDS.

“O Tancredo tinha um pé em cada canoa, um nos comícios e o outro nas articulações de bastidor para se viabilizar numa eleição indireta” conta Leonelli. No final, segundo ele, o mineiro acabou usando a força popular das diretas para implodir o Colégio Eleitoral.

Com a derrota da emenda em apertada votação na Câmara, o governador mineiro deu mais um exemplo de sagacidade: adotou como bordão o slogan Tancredo-Jà e, com megacomícios organizados nas principais capitais, “emendou” as diretas à sua campanha para adquirir legitimidade numa eleição biônica.

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