Após protestos, ala majoritária do PT defende guinada às origens e tarifa zero

Por Ricardo Galhardo - iG São Paulo |

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Entre propostas da CNB está a redução da influência de marqueteiros no PT e mudanças na política econômica

Maior corrente interna do PT, da qual participa o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a tendência Construindo um Novo Brasil (CNB) propõe uma mudança radical na estrutura de funcionamento administrativo, eleitoral e político do partido. Nas palavras de um dirigente petista, a CNB quer aproveitar as mobilizações de junho para propor uma volta às raízes e, com isso, se aproximar dos movimentos que lideraram os protestos.

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Na tese de 11 páginas que embasa a candidatura da CNB ao Processo de Eleições Diretas (PED) de novembro, a corrente propõe uma série de medidas inéditas como:

– revisão do funcionamento do Diretório Nacional aproximando o modelo à estrutura horizontal dos coletivos digitais que lideraram as manifestações.

– desvincular os quadros partidários da burocratização e da dependência excessiva do aparelho estatal.

– redução da influência dos marqueteiros na comunicação petista.

– unificar os partidos de esquerda e isolar as forças “autoritárias, elitistas e golpistas”.

– construir uma “hegemonia” política “para muito além das dimensões eleitorais”.

– defender a tarifa zero nos transportes, principal objetivo do Movimento Passe Livre, como meta de médio prazo.

– mudanças na política econômica do governo com o aumento dos gastos públicos.

O texto intitulado “O Brasil quer mais e melhor” começa com um diagnóstico. “As manifestações ocorridas em junho colocam novas indagações e exigem do PT uma reformulação positiva de sua estratégia partidária”.

O documento lista os avanços obtidos nos governos Lula e Dilma Rousseff, mas admite que é pouco. “O que foi feito não é suficiente (...) claro está que a distribuição de renda e o acesso ao consumo não bastam para impulsionar a emancipação das pessoas”.

A saída, segundo a CNB, é tratar os jovens como “sujeitos diretos” e melhorar a comunicação. Neste item o texto dá uma alfinetada em marqueteiros como João Santana e Duda Mendonça que passaram a ter mais poder do que militantes e dirigentes desde a eleição de Lula em 2002.

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“Nossa comunicação não pode e não deve ser comandada pelos referenciais do marketing, mas pela perspectiva política que não se atém, apenas, às vitórias eleitorais”.

Apesar de as pesquisas mostrarem que a aprovação a Dilma desabou depois dos protestos, a CNB enxerga nos protestos uma oportunidade de guinada à esquerda tanto do partido quanto do governo. “A situação política que surge abre nova oportunidade ao PT”, diz o documento. “As manifestações contribuem para que o governo da presidenta Dilma avance em direção às transformações das quais o país precisa”.

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Para isso, no entanto, o partido terá que rever práticas e hábitos adquiridos e enraizados na cultura petista nos últimos anos, como, por exemplo, a burocratização dos quadros partidários e a dependência excessiva das estruturas de poder. “Cabe ao PT enfrentar de uma só vez os riscos da excessiva burocratização e vinculação de seus quadros com aparelhos de Estado”, diz o item 38 do documento.

Outra tarefa é a reaproximação com movimentos sociais, em especial os novos coletivos que lideraram as manifestações de junho para garantir apoio político além das alianças com partidos de centro e direita que marcaram os últimos anos. “O PT tem a tarefa de sedimentar uma prática dialógica de construção de hegemonia em relação a nosso projeto estratégico para muito além das dimensões eleitorais (...) lutar para fortalecer no Brasil o diálogo, canais de participação social, política e cultural existentes, estar em sintonia com as novas experiências de organização que têm surgido na sociedade”.

Um dos trechos mais radicais diz respeito à mudança na estrutura administrativa do PT, tanto do diretório nacional quanto das bancadas parlamentares. “O Diretório Nacional deverá rever seu funcionamento seja criando grupos de trabalho horizontais, multitemáticos que elaborem e consolidem formulações em áreas fundamentais, seja trazendo para sua pauta não apenas os temas conjunturais imediatos”.

Os diretórios municipais devem “se tornar espaços político-culturais de diálogo, convivência e troca de experiências”.

De forma indireta o documento engrossa as críticas à política econômica do governo ao cobrar novas formulações para viabilizar mudanças mais profundas.

No item 36, alínea “e”, “o PT defende o transporte coletivo como direito fundamental e acredita que a tarifa zero, como meta social de médio prazo, possa ser uma política qualificada”.

Integrantes de outras correntes criticam o texto porque, embora reconheça falhas do governo e do partido, a CNB em momento algum faz uma autocrítica. A corrente controla o PT há mais de 20 anos, período em que o se afastou de suas bandeiras originais. Líderes da CNB como José Dirceu e José Genoino foram os arquitetos da mudança do partido de massas para a máquina eleitoral pragmática que venceu as últimas três eleições presidenciais com a utilização de métodos antes criticados como o caixa dois eleitoral.

Também foram integrantes da CNB, antes chamada Campo Majoritário, os responsáveis pelo maior escândalo da história do PT, o mensalão, entre eles Delúbio Soares, Sílvio Pereira e João Paulo Cunha. O texto também não cita o fato de que outras correntes culparam o Campo Majoritário pelo escândalo e que, por isso, a corrente mudou de nome em 2005.

Além da CNB assinam o texto as correntes PT de Lutas e de Massas (PTLM) e Novos Rumos, da qual faz parte o presidente nacional do partido e grande favorito à reeleição, Rui Falcão.

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