Especialistas ouvidos pelo iG apontam causas diversas, como inflação, qualidade do transporte e política urbana, para as mobilizações em várias cidades do País

As manifestações das últimas semanas nas principais cidades do País e até no exterior romperam um jejum de mais de 20 anos sem protestos que levassem milhões às ruas - o último de grandes proporções foi o dos caras pintadas do Fora Collor, em 1992. O endurecimento da repressão policial e a falta de diálogo do Estado também contribuíram para as mobilizações e fizeram com que a bandeira pela redução da tarifa de ônibus se juntasse a outras causas como combate à corrupção, críticas às políticas urbanas e ao modelo de desenvolvimento econômico, inflação e violência policial.

Em SP: Comandante-geral da PM pede protesto contra mensalão

No Rio: Pelo menos 40 mil marcham contra aumento na tarifa dos ônibus

No DF: Mais de 5.000 protestam no DF e invadem o Congresso Nacional

Em BH:  PM dispara bombas de gás contra manifestantes

Para Luiz Werneck Vianna, sociólogo e professor da PUC-Rio, este é um momento histórico, de uma importância “excepcional”. “As novas gerações estão vindo às ruas, estão se apresentando e mostrando a sua cara. Com isso, a apatia em que o País está mergulhado cede”, avalia.

Bandeira: A única negociação possível é revogar o aumento, diz Passe Livre

Repressão: Governo muda estratégia e descarta uso de balas de borracha em protesto em SP

Para ele, os governos precisam aprender a negociar com essas manifestações, que são sem líderes e dispersas, e que o mote principal dos protestos não se limita à amplitude das bandeiras. “Não é o preço da passagem em si, e ela não é diretamente política, já que não está orientada a se contrapor a nenhum partido. Elas exigem reconhecimento e participação na vida política e na vida pública”, afirma Werneck.

O cientista político Cláudio Couto, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que é preciso tomar cuidado para dizer que os protestos, no caso das passagens, não são apenas contra o aumento da tarifa. Ele afirma que, por causa da diversidade dos movimentos que organizam o evento, e da convocação muito descentralizada, há uma “aglutinação” de muitos grupos que se unem ao protesto “menos pela reivindicação, mas mais pela mobilização em si”.


“Eu entendo que a discussão é mais ampla sobre o problema geral do custo do transporte, mas é difícil imputar aos líderes um objetivo que eles não chamam para si”, diz Couto, que afirma que a manifestação é política, porque toda manifestação tem um caráter político, mas discorda que ela seja instrumentalizada. “O grupo é tão diverso que, mesmo que ele tenha elementos que participam de partidos, não tem nem como identificar”, diz.

Os analistas divergem quando perguntados se o estopim das mobilizações teria como causa o aumento da inflação. David Fleischer, professor de ciência política na Universidade de Brasília (UnB), diz que a adesão de dezenas de milhares de pessoas se deve ao pano de fundo do aumento da inflação, que deixou a população descontente e permitiu a mobilização de um número maior de pessoas. “O movimento escolheu um momento em que o mundo está de olho, por causa da Copa das Confederações. Foi um oportunismo. Provavelmente, acabe daqui a duas semanas, como o campeonato.” Para ele, as manifestações devem voltar na Copa do Mundo. “Aí, com ano de eleição, os protestos devem ser maiores ainda”.

Copa:  Veja como foi a ação da Polícia Militar contra os manifestantes no DF

Para o professor de economia da Unicamp Júlio Gomes de Almeida, o protesto é uma insatisfação com a vida urbana, que tem sido cada vez mais difícil, e que tem como ponto principal a mobilidade urbana. “É a análise do custo benefício na área de transporte, que é ruim. Se paga, e não se paga pouco. E, do outro lado, o que se recebe são duas horas presos no trânsito”, diz Almeida.

O economista acredita que o aumento da inflação é muito recente e não influenciou na confiança do brasileiro, segundo pesquisas recentes do Instituto de Pesquisas Avançadas (IPEA) e da FGV, que segue em alta em relação à economia brasileira. “A nossa população vê bem a sua vida, o que causa perplexidade muitas vezes (em economistas) é que o Brasil está crescendo tão pouco há três anos, mas o grau de satisfação é bom”, diz.

Para Couto, a inflação também não seria o verdadeiro motivo para o povo ir às ruas. “O reajuste do preço da passagem, que deflagrou o movimento, ocorre por causa da inflação, então em última instância pode ser. Mas responsabilizar a inflação me parece um equívoco.”

'Oportunista'

Fleischer alerta, no entanto, para o foco anárquico e oportunista dos protestos. “Não tem liderança no sentido de unidade”, diz ele, citando que a polícia teria negociado um percurso com supostos líderes e o movimento tomou outro caminho na quinta-feira em São Paulo, quando foram duramente repreendidos pela PM. 

Já na avaliação do professor Werneck Vianna, é impossível impor freios a movimentos que protestam contra as obras da Copa. “As pessoas veem estampados os gastos sinuosos da Copa do Mundo, e uma remodelação das políticas esportivas por recomendações externas, como da Fifa, e gera mais insatisfação”, diz.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.