Peritos argentinos vão ajudar a identificar restos mortais da ditadura no Brasil

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo | - Atualizada às

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Equipe chefiada pelo perito Luis Fondebrider vai usar métodos antropológicos de medicina legal e laboratório com equipamentos de alta resolução para extrair DNA das ossadas

Peritos argentinos desembarcam em São Paulo na próxima semana para tentar identificar três ex-militantes da luta armada desaparecidos nos anos de chumbo. Os restos mortais estariam entre as 1049 ossadas retiradas há 23 anos do Cemitério de Perus, zona norte da capital, e guardadas numa ala do Cemitério do Araçá, próximo ao Instituto Médico Legal (IML). Os integrantes da Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) chefiados pelo perito Luis Fondebrider ocuparão uma ala do IML paulista.

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Bruno Pedroza/Wikicommons
Ossadas foram retiradas de Perus há 23 anos

O trabalho faz parte de um acordo entre Fondebrider e a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos e será bancado pela Associação Brasileira de Anistiados Políticos (Abap). A entidade sem fins lucrativos disponibilizou R$ 300 mil para custear todas as despesas de investigação e manutenção da equipe de Fondebrider.

Os peritos vão usar métodos antropológicos de medicina legal e um laboratório com equipamentos de alta resolução para tentar extrair DNA (ácido desoxirribonucleico) das ossadas. O cruzamento será feito com material genético de familiares armazenados num banco de DNA da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

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Segundo as informações acumuladas pela Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos, há probabilidade de identificação de pelo menos três ex-militantes que atuam na guerrilha urbana: Grenaldo Jesus da Silva, Dimas Antônio Casemiro e Francisco José de Oliveira.

Documentos encontrados nos arquivos da ditadura militar apontam que os militantes teriam sido enterrados como indigentes numa ala do Cemitério de Perus onde foram “desovados” também vítimas dos grupos de extermínio (esquadrão da morte) que aturam paralelamente na repressão política entre o final dos anos de 1960 e início dos anos de 1970. Os três constam nas listas de desaparecidos políticos.

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Grenaldo Jesus da Silva é o ex-marinheiro, expulso em 1964 e condenado a cinco anos de prisão à revelia. Foi morto em 30 de maio de 1972, no Aeroporto de Congonhas, quando tentava sequestrar um avião da Varig para deixar o País. Embora nenhuma das organizações de esquerda tenha reivindicado a autoria à época, o caso foi considerado como resultado de ato político contra a ditadura.

Francisco José de Oliveira pertenceu à Ação Libertadora Nacional (ALN) e, segundo versão oficial, teria sido ferido em um confronto com a polícia na Rua Turiassu, zona oeste da capital, no dia 4 de novembro de 1971. Maria Augusta Thomaz, militante da mesma organização, que escapou do cerco e seria morta dois anos depois, relatou à época a outros militantes que viu Oliveira ser ferido

Dimas Antônio Casemiro, do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), foi morto em 17 de abril de 1971, durante cerco da polícia à casa da organização no Ipiranga, zona sul de São Paulo. O caso de sua execução é um dos que levantaram suspeita sobre a condição do suposto agente duplo Gilberto Faria Lima, o Zorro, que escapou misteriosamente do cerco.

Descoberta em 1990, a vala clandestina do Cemitério de Perus motivou a abertura de uma CPI na Câmara Municipal de São Paulo, a primeira investigação oficial para apurar assassinatos e ocultação de corpos pelos órgãos da repressão depois do fim do regime militar. Retiradas da vala, as ossadas já resultaram na identificação de outros três militantes da luta armada, Denis Casemiro (irmão de Dimas Casemiro), Flávio Molina e Frederico Mayr, em 1992.

Desde então, as ossadas têm seguido um périplo que denuncia a omissão estatal: já passaram pelos setores de medicina legal da Unicamp, da USP, da Polícia Federal e, novamente, foram devolvidos, sem qualquer conclusão, ao IML de São Paulo. A PF chegou a fazer tentativas de identificação nos Estados Unidos, Canadá e Alemanha. No ano passado concluiu que não tem condições de identificar.

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A equipe chefiada pelo argentino Luis Fordebrider só aceitou agora participar da investigação porque o pedido foi feito pelos familiares, as despesas serão bancadas pela ABSP e os trabalhos serão fiscalizados pelo Ministério Público Federal. O procurador Marlon Alberto Weichert acompanhará a investigação.

Numa observação preliminar ao trabalho de identificação, os peritos já perceberam que as ossadas foram guardadas em péssimas condições. No Cemitério do Araçá, elas estão guardadas numa laje de cimento que, atingida por umidade, gera um tipo de fungo que se alimenta justamente de vestígios de DNA.

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