Único réu do mensalão sem advogado é poeta e ativista social

Doleiro e sócio de uma das empresas envolvidas no esquema, Carlos Alberto Quaglia será representado por um defensor público e já foi condenado por sonegação em Santa Catarina

Wilson Lima - iG Brasília |

Agência O Globo
Carlos Alberto Quaglia, único réu com defensor

“Escute lobo: recupere-se das feridas, pense sobre o que acontece com você, sobre seus sofrimentos e considere-os uma ferida da alma. O amor que te abandona, a amizade que te trai, a injustiça que padece e a solidão que se esconde...”. Os versos fazem parte de uma poesia em espanhol chamada “Escucha Lobo!” (Escute Lobo! em tradição livre), de Carlos Alberto Quaglia, um dos réus do mensalão e o único sem advogado entre os 38 que vão ao banco dos réus no Supremo Tribunal Federal (STF), no próximo dia 2 de agosto.

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O poema de Quaglia, escrito em 2009, já participou inclusive da edição 2010 do prêmio Talentos da Maturidade, do banco Santander, e trata fundamentalmente de superação humana e de como cada um precisa olhar para si, buscando uma vida melhor.

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Quem lê esse poema não associa o escritor Carlos Alberto Quaglia com o doleiro Carlos Alberto Quaglia, apontado pela Procuradoria Geral da República como sócio da empresa Natimar, utilizada como laranja pelas empresas de publicidade de Marcos Valério para o pagamento de propina a deputados da base governista, incluídos no esquema.

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Apesar da vida de empresário, Quaglia, argentino radicado no Brasil desde 1978, é o único dos 38 réus do mensalão assistido pela Defensoria Pública da União (DPU). Não necessariamente por ter apresentado atestado de pobreza (regra fundamental para uma pessoa ser assistida por advogado público), mas por conta de uma confusão gerada na fase inicial do processo. Uma confusão questionada pela própria Defensoria nas alegações finais de Quaglia.

Na primeira fase do inquérito, os advogados Dagoberto Antoria Dufau e Eliane Cristina de Souza Campergher eram apontados como defensores de Quaglia. mas eles renunciaram à defesa do empresário. Depois, durante as oitivas realizadas em Santa Catarina, ele constituiu outro advogado, Haroldo Rodrigues.

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A questão é que, apesar de ter constituído advogado, um “equivoco processual”, nas palavras da Defensoria Pública da União, fizeram com que o ministro relator do mensalão, Joaquim Barbosa, determinasse que a DPU passasse a ser responsável pela defesa de Quaglia. Na prática, apesar de ter constituído um novo advogado durante as oitivas, isso não foi oficialmente comunicado ao Supremo.

“O despacho (do ministro Joaquim Barbosa) é claro no sentido de que a Defensoria Pública da União só passaria a atuar caso o réu não possuísse outro advogado constituído (...). E, repita-se, o sr. Carlos Alberto Quaglia já havia constituído novo patrono”, questiona a DPU, que agora faz a defesa de Quaglia. A DPU foi procurada para falar sobre esse imbróglio jurídico, mas preferiu não se manifestar. Disse apenas que Quaglia, como todo brasileiro, tem direto à ampla defesa e que as argumentações contra a acusação contra o empresário seriam de caráter “extremamente técnico”.

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Coincidência ou não, após Quaglia ser indiciado, ele voltou a sua vida para atividades mais “humanas”. Em 2009, ele participou, virtualmente, da “Marcha Mundial pela paz e não violência”. Ele se declara em perfis da internet ser um “humanista internacionalista” e que suas maiores preocupações são a pobreza, a injustiça social, a violência econômica e racial. Apesar disso, em 2008, ele foi condenado em primeira instância, pela Vara Federal Criminal de Florianópolis (SC) a dois anos e três meses de prisão, mais multa de um salário mínimo por omitir informações no Imposto de Renda de 1998. Segundo o Ministério Público, ele teria sonegado cerca de R$ 2 milhões em impostos federais. O iG tentou contato com Quaglia, mas ele não respondeu.

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