Ele confirmou que se encontrou com ministro em Berlim, mas que despesas não foram pagas por Cachoeira; revista diz que Lula teria usado viagem para pressionar Mendes

O senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) afirmou nesta terça-feira, durante depoimento ao Conselho de Ética, que esteve em Praga, na República Tcheca em 2011, onde encontrou o ministro Gilmar Mendes, mas negou que tenha viajado com ele em avião pago pelo contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

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Demóstenes Torres presta depoimento ao Conselho de Ética do Senado
AE
Demóstenes Torres presta depoimento ao Conselho de Ética do Senado

Segundo Demóstenes, que é alvo de processo disciplinar por quebra de decoro parlamentar, o ministro do STF tinha uma jornada acadêmica em Granada, na Espanha, e que ele estava em Praga. "Praga, como sabem, fica perto de Berlim. O ministro Gilmar Mendes tem uma filha que mora em Berlim. Então, nos encontramos em Praga, pegamos um trem, fomos a Berlim. Eu vim, peguei um voo e ele pegou outro", disse.

O senador citou em seguida uma conversa telefônica entre Cachoeira e o vereador de Goiânia Wladimir Garcez, que, assim como Cachoeira, foi preso pela Operação Monte Carlo, acusado de ser o braço político do esquema. Neste telefonema, segundo Demóstenes, Cachoeira pergunta onde está o senador, ao que Wladimir responde: "Demóstenes está em Berlim". "Evidentemente, ele não estava conosco em Berlim. E o avião era de São Paulo para cá. Eu utilizei o avião, não o ministro Gilmar Mendes."

Demóstenes acrescentou que utiliza aviões de diversos empresários e amigos em Goiás, mas que nunca utilizou isso em troca de favores no Senado. E que também nunca utilizou aviões de Cachoeira. "Cachoeira nem tinha avião e nem pagou."

A viagem de Demóstenes a Berlim em companhia do ministro voltou a elevar a temperatura em Brasília. Isso porque, segundo reportagem publicada pela revista Veja neste fim de semana, o ex-presidente Lula teria se encontrado com Gilmar Mendes para pressioná-lo a adiar o julgamento do Mensalão . Em troca, teria oferecido blindagem na CPI que investiga as ações de Carlinhos Cachoeira . Segundo as declarações do ministro à revista, Lula teria dito: "E aquela viagem a Berlim?", insinuando envolvimento de Mendes com Demóstenes e Cachoeira.

Ao responder às perguntas dos membros do Conselho de Ética, Demóstenes afirmou que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) estão com medo. “Vivemos um perigo, os ministros do STF estão com medo porque dá a impressão que o senador (com quem eles conversavam) lidava com contravenção”, disse em depoimento no Senado. Fica a impressão, ainda segundo ele, de que se aproximou dos ministros para obter favores.

Demóstenes insiste que as gravações dos inquéritos da PF em que aparece foram editadas e que as investigações foram ilegais porque não foi investigado pelo STF devido ao foro privilegiado a que os parlamentares têm direito.

“Fui investigado clandestinamente, não existe encontro fortuito por quatro anos, a investigação foi permanente (...) a investigação foi clandestina e coloca em perigo o Estado democrático de direito, como eu fui vítima agora outros podem ser depois. A investigação tem que existir, mas existem foros competentes e foro competente para investigar parlamentar federal é o STF”, afirmou.

Celg

Em outro grampo telefônico interceptado pela Polícia Federal durante a Operação Monte Carlo, que investigou as atividades do esquema, Cachoeira e Demóstenes comemoram uma decisão tomada por Gilmar Mendes de levar para o STF uma ação bilionária envolvendo a Companhia Energética de Goiás (Celg). Nesta terça-feira, o senador negou que houvesse qualquer interesse escuso por parte dele em relação à empresa ou que ele tivesse feito lobby junto ao ministro para que a ação fosse para o Supremo.

"Eu comemorava uma decisão de um ministro do Supremo que poderia tirar das costas da Celg uma dívida de R$2 bilhões, R$ 3 bilhões. Não há interesse de quem quer que seja, nem hoje, nem ontem, nem amanhã, a não ser um interesse público de que a empresa tirasse uma dívida enorme de suas costas e possa se viabilizar", disse. "Se comemora o fato de ter subido uma ação que pode dar lucro para uma empresa e para o Estado de Goiás."

Lobby

O senador também explicou a conversa telefônica interceptada pela PF em que Cachoeira pede ao senador que trabalhe pela aprovação de um projeto para legalizar a exploração dos jogos de azar. "Eu não tomei nenhuma providência em relação a isso, e as maiores testemunhas disso são meus colegas senadores. Eu indago a qualquer um se eu procurei qualquer senador para discutir sobre a legalização de jogos", afirmou.

O senador disse que, muitas vezes, para se livrar de interlocutores, dizem-se certas coisas que não necessariamente tornam-se ações. "Eu peço às Vossas Excelências para ser julgado pelo que eu fiz, não pelo que eu disse", disse.

Demóstenes disse que Cachoeira teria afirmado a ele e e ao governador de Goiás Marconi Perillo (PSDB) que não tinha mais envolvimento com jogos ilegais. O senador afirmou que, em muitas conversas com o bicheiro "jogou verde" e "fazia testes" para saber se Cachoeira tinha, de fato, parado de realizar atos de contravenção. "Mas evidentemente o único propósito era saber se ele estava no jogo."

Dinheiro e Nextel

O senador também negou que tenha recebido um depósito em sua conta corrente de R$ 1 milhão de Cláudio Abreu , diretor da regional Centro-Oeste da Delta Construções, acusado de pertencer ao grupo de Cachoeira.

Em diálogos gravados entre 22 e 23 de março de 2011, o diretor da construtora e o contador de Cachoeira, Geovani Pereira da Silva - foragido da polícia, falam do repasse da quantia a Demóstenes. O inquérito indica que outros R$ 2 milhões teriam sido depositados na conta do senador.

"Estou entregando a cópia das minhas duas contas no período em que nenhum momento foi depositado R$ 1 milhão. É preciso dizer que nem R$ 1 milhão, nem R$ 1 mil nem nada. Em nenhum momento esse dinheiro entrou na minha conta ou foi me dado de qualquer maneira."

Em relatório, o Ministério Público aponta que o grupo comandado por Cachoeira entregou rádios Nextel antigrampos para políticos, entre eles, Demóstenes Torres, que admitiu novamente ter recebido o aparelho. "Recebi um rádio que foi utilizado para a minha comodidade. Afirmam que o rádio era sigiloso. Nunca tive essa informação. Se era sigiloso, como foi grampeado?"

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