A entrevista de Pedro Collor à Veja

Em entrevista à revista em 1992, irmão do então presidente da República faz denúncias contra PC Farias e fala da juventude de drogas de Fernando Collor

iG São Paulo |

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Capa da revista Veja, de maio de 1992, que trouxe a entrevista de Pedro Collor de Mello
Em entrevista bombástica ao jornalista Luís Costa Pinto, da revista Veja, Pedro Collor de Mello, irmão do então presidente da República, fez revelações que mudariam o curso da história política do País e representariam um marco do começo do processo que levaria ao impeachment de Fernando Collor, em 1992.

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Ex-diretor das organizações Arnon de Mello, que controlava boa parte da imprensa alagoana, Pedro afirmou que PC Farias, ex-tesoureiro da campanha de Collor, era "testa-de-ferro" do presidente e possuía grande influência nas decisões tomadas no governo. Ele disse também que o jornal Tribuna de Alagoas, que PC pretendia lançar em Maceió, era, na verdade, de Fernando Collor, e que um apartamento em Paris comprado pelo tesoureiro também pertencia a seu irmão.

Tribuna de Alagoas X Gazeta de Alagoas

O pai de Fernando Collor de Mello, que foi governador e senador em Alagoas, fundou as Organizações Arnon de Mello, um dos grupos de comunicação mais importantes no norte e no nordeste. Segundo conta Pedro Collor, que dirigira a empresa da família, em 1991, ele levou ao então presidente o projeto para montar um novo jornal vespertino em Alagoas. Apesar de explicar que seria uma publicação à parte da Gazeta de Alagoas - jornal da Arnon de Mello - Fernando teria negado.

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"Ele me disse o seguinte: 'Não, não leve a ideia do jornal adiante, porque eu vou montar uma rede de comunicação paralela em Alagoas com o Paulo César (Farias), e essa rede terá um jornal. O Fernando falou que o jornal iria se chamar Tribuna de Alagoas. Também disse que a Tribuna seria impressa na imprensa oficial do Estado", disse Pedro à Veja.

Questionado se a nova empresa de comunicação, que concorreria com a de sua família, era de PC Farias, Pedro respondeu: "O PC seria o testa-de-ferro. Era uma empresa de testa-de-ferro, que teria o jornal e de doze a catorze emissoras de rádio."

À época da entrevista, Pedro Collor havia sido afastado da direção da Arnon de Mello pela própria mãe, Leda, sob a alegação de que o filho sofria problemas mentais. Seu afastamento se deu depois que Pedro entregara - também à Veja - um dossiê contra PC Farias. "Qual foi o principal mote da campanha do Femando? Quem roubava ia para a cadeia. Na prática, estou vendo uma coisa completamente diferente. Ninguém pode enrolar todo mundo o tempo todo", disse na entrevista.

"Testa-de-ferro"


Pedro Collor afirmou "categoricamente" que PC Farias era testa-de-ferro de Fernando Collor de Mello em seus negócios. "O Paulo César é a pessoa que faz os negócios de comum acordo com o Fernando. Não sei exatamente a finalidade dos negócios, mas deve ser para sustentar campanhas ou manter o status quo."

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O irmão do presidente disse que um apartamento em Paris, comprado por PC Farias e onde funcionava e empresa S.C.I. Financière Albert 1er, pertencia a Fernando. "Em patrimônio pessoal, (Fernando) sai (mais rico do governo). Sem dúvida nenhuma."

Pedro garantiu que existia uma sociedade entre PC Farias e seu irmão e que o ex-tesoureiro "tinha prazer" em gerir negócios ilícitos". "O Fernando é incapaz de sentar em uma mesa e dizer assim: 'O negócio é o seguinte: preciso de uma grana para a minha campanha. Me ajuda'. Pode estar nu e sem sapato que não pede ajuda. Já o PC toma. Deixa você nu se for possível", disse."São os métodos. O PC é o erudito do roubo, da corrupção, da chantagem. Os outros têm uma aspiração, mas também têm um teto. O PC não tem limites."

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Ele afirmou jamais ter mencionado as denúncias contra PC Farias a Fernando, limitando-se a tratar com o presidente as questões referentes à disputa de interesses no setor de comunicações em Alagoas. "Eu sentia que, se eu falasse, ele iria ter uma explosão violentíssima. O Fernando não gosta de escutar críticas."

Pedro Collor chegou a dizer que recebeu ameaças de morte dos irmãos de PC Farias e chegou a falar sobre isso com Cláudio Vieira, secretário particular do presidente à época, e que acabou concluindo assim que o tesoureiro não agia por conta própria. "É o estilo típico do Fernando usar instrumentos. Ele não ataca de frente."


Drogas

Além de fazer acusações contra PC Farias, Pedro Collor falou um pouco da sua juventude e de seu envolvimento e de Fernando com drogas. Pedro afirmou que ele e seu irmão usavam cocaína no final da década de 1960.

"Não é que (Fernando me) induziu (a experimentar cocaína), nem apresentou nem nada. As pessoas por serem faixa etária um pouco acima, naturalmente têm mais acesso a esse tipo de coisa", disse. "Teve também LSD, umas duas ou três vezes."

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