Vinte anos depois, musa dos caras-pintadas vira dona de pizzaria

Aos 17 anos, Cecilia cabulou aula para gritar “Fora, Collor”. Entre milhares de estudantes, foi fotografada e marcou o ano de 1992

Nara Alves, iG São Paulo |

Alexandre Carvalho/ Fotoarena
Decepcionada com o sistema político, Cecilia agora é dona de pizzaria na Lapa
Aos 17 anos, Cecilia Lotufo faltou à aula, saiu às ruas gritando “Fora, Collor” e tornou-se a musa dos caras-pintadas. Hoje, 20 anos depois do impeachment de Fernando Collor de Mello, a ex-musa vê o presidente deposto pela população cumprindo seu mandato no Senado Federal. Indignada, ela acompanha a política nacional à distância, no bairro da Lapa, zona oeste de São Paulo, onde abriu recentemente uma pizzaria. E para ela isso não é piada pronta.

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“Sou uma pessoa decepcionada com esse sistema, não leio mais jornal porque fico angustiada. Por isso eu faço a minha política na base. Para mim, não deu tudo em pizza”, diz. Aos 37 anos, Cecilia é líder do movimento Boa Praça, que promove piqueniques comunitários na região de Pinheiros, onde mora com o marido e os dois filhos pequenos. Orgulha-se de ter recebido em 2011 o troféu Dia da Mulher, honraria concedida pela Prefeitura de São Paulo pelo trabalho voluntário.

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Nesses últimos 20 anos, a musa trabalhou com vendas de TV a cabo, administrou uma pousada no sul da Bahia, organizou festas brasileiras na Itália, voltou para o Brasil e abriu uma ONG voltada à educação ambiental e ao consumo sustentável. “Até pensei em me candidatar a vereadora, mas desisti. Conversei com um amigo vereador que me disse que eu ajudaria mais a comunidade fazendo política de base, que é o que eu gosto de fazer, e é o que faz diferença”, conta a ex-petista.

Antes e depois 

Cecilia guarda com esmero todos os recortes de jornais e revistas daquela época dentro de uma pasta. Entre as lembranças, duas fotografias tiradas em 1994 ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva. Então candidato à Presidência, Lula quis conhecer a bela participante do comitê da juventude petista que havia se tornado símbolo das manifestações contra Collor. Depois do impeachment, ela também havia contribuído com um depoimento divulgado na propaganda eleitoral petista na televisão.

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“O que mais me marcou naquela visita foi uma brincadeira que Lula fez sobre a minha família e um filme chamado Família Serpente”, lembra. O filme italiano Parenti Serpenti (Parente é serpente), lançado no mesmo ano do impeachment, em 1992, narra a história de uma família italiana que se reúne no Natal para festejar, mas acaba em conflito quando a avó anuncia que terá de morar com um dos filhos. "Ele disse pra eu tomar cuidado com a minha família", conta.

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A família de Cecília, também de raízes italianas, é proprietária da primeira pizzaria da Vila Madalena, segundo ela. Um certo dia, a estudante recebeu a ligação de um assessor de Lula dizendo que ele gostaria de conhecê-la. Para a satisfação da família, apoiadora do PT, Lula e sua mulher, Marisa Letícia, foram até o bairro na zona oeste de São Paulo para agradecer a ajuda da musa nas eleições.

Pizza cidadã

“O know how da massa é de família”, diz. Agora, com seu próprio estabelecimento, a Pizzaria Dona Rosa, "uma homenagem à antiga moradora da casa", Cecilia Lotufo pretende fazer da pizza um exemplo de cidadania. Desde a escolha do trigo até a contratação dos funcionários, a ex-musa tem preocupações que vão além do sabor da pizza – alguns exóticos, como berinjela com queijo de cabra e linguiça de cordeiro com hortelã.

Aquela foto está nos livros didáticos. Minhas irmãs mais novas estudaram sobre mim no cursinho. Meus filhos também vão se deparar com isso. É uma responsabilidade

Parte do trigo utilizado é integral e orgânico. Na reforma do imóvel, a área permeável foi mantida. A água da chuva e os azulejos da parede são reutilizados. “O copeiro e a garçonete são moradores do bairro”, diz Cecília. No movimento Boa Praça, um projeto prevê a realização de feiras de troca de serviços por meio de um banco de dados de profissionais da Lapa. “Queremos fomentar a contratação local”, explica.

Os filhos, de 7 e 4 anos, também estudam no bairro, no mesmo colégio de onde Cecilia fugiu – veladamente incentivada pela própria direção da escola – para se juntar a milhares de manifestantes em 1992. “Mas hoje o colégio está muito diferente, virou uma empresa que visa o lucro”, critica.

De qualquer maneira, aquilo que Cecilia representou no momento histórico do impeachment de Collor não corre o risco de se perder. “Aquela foto está nos livros didáticos. Minhas irmãs mais novas estudaram sobre mim no cursinho. Meus filhos também vão se deparar com isso. É uma responsabilidade”.

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