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O futebol é canalha

01/02 - 17:51 - Régis Bonvicino, especial para o Último Segundo

A acusação de estupro da polícia inglesa contra Robinho, do obscuro Manchester City, despertou, subitamente, a mídia para alguma reflexão sobre o futebol, porque ela se limita a cobrir, diariamente, as rotinas dos clubes. A mídia, no Brasil, consegue o feito de ser diária e “eterna” ao mesmo tempo: todos os dias cobre as mesmas personagens, do mesmo modo – monótono e vazio.

Divulgação
Garrincha foi considerado salvador
Não houve reflexão, mas, como sempre, mais do mesmo: relança-se, de modo geral, a “tese” do pobre menino rico, sem “horizontes”. Há uma coisa clara, para me valer da obsoleta teoria realismo, do reflexo: o futebol brasileiro é pior do que a sociedade brasileira; e a mídia esportiva é, ainda, pior do que o próprio futebol. A sociedade quer aprofundar a democracia, luta por seus direitos, protesta. Está viva. Reclama por melhor uso dos orçamentos públicos, por um melhor Judiciário, por um melhor Legislativo. Pela preservação e recuperação da Amazônia. O futebol está moribundo. E a imprensa esportiva, mesmo aquela que autodenomina de “oposição”, faz o jogo da morte: em virtude de sua pobreza intelectual, contenta-se em questionar – de sua poltrona confortável – o questionável (CBF etc), sem qualquer influência eficaz no “universo” do futebol. Não há análises, reportagens sistemáticas. Não há coragem em romper o silêncio e denunciar a corrupção do futebol, de dirigentes e de jogadores.

Houve o movimento das Diretas Já, em 1984, que iniciou o processo de democratização do país, com a eleição de Tancredo Neves. Nunca houve uma Diretas Já no esporte mais popular. As empresas brasileiras procuram melhorar sua gestão, com balanços sociais e até ecológicos. Tentam combinar eficiência com respeito ao trabalhador. Os trabalhadores estudam, aperfeiçoam-se etc. O Estado, aos trancos e barrancos, também, com a Lei de Responsabilidade Fiscal, por exemplo. Fernando Collor foi removido do Poder. Senadores e Deputados foram cassados por corrupção. Fernando Henrique e Lula têm a mesma política macroeconômica – o país é – e nesse campo deve sê-lo – previsível. O que mudou no futebol? Nada. A maioria dos clubes segue nas mãos do crime organizado, antes “nacional” (Castor de Andrade do Bangu) e, agora, internacional.

A “imprensa”, autodenominada crítica e independente, atribui a Afonsinho, do Botofogo do Rio, à Democracia Corinthiana e a outros fatores menores o fim da Lei do Passe. A Lei do Passe se extingiu porque interessava à expansão do capital, em processo de globalização. Quanto menos leis (menos Estado regulador), mais lucro. Jean-Marc Bosmann, jogador belga, conquistou na Justiça o direito de deixar o FC Liége sem qualquer indenização, em 1996. E daí? Os jogadores são hoje escravos de empresários de baixo nível, de gansters internacionais. Trocaram de patrão e não de qualidade de patrão. Uma das poucas figuras realmente densas do futebol, Walter Casagrande Jr. nunca recebeu qualquer ajuda efetiva dos clubes, ao longo de sua longa adesão às drogas, notória. Destruiu-se solitariamente. Este sim foi vítima. Tenta se reerguer solitariamente (ao menos com o apoio da empresa de comunicação que o empregava).

Ridículo e canalha

Não é a eleição de Luis Gonzaga Beluzzo – um homem de nível – à presidência do Palmeiras que vai salvar o futebol brasileiro, como alardeou por aí um dos sócios majoritários da “verdade esportiva”. A mídia de “oposição” é paternalista, como os dirigentes dos clubes. Acredita em “profetas”. Os jogadores são pelegos. Seu sindicato é pelego. A mídia esportiva é pelega. Dizia Nelson Rodrigues, ao verificar que não existe o canalha ridículo, que o ridículo é uma virtude e não um defeito. O futebol brasileiro é canalha, de cima abaixo, dos dirigentes aos jogadores. Ronaldo Nazário não é ridículo, como parece, mas, sagaz: vende – mesmo em decadência exuberante – sua condição de novo rico aos deslumbrados da imprensa, que o noticiam! Finalmente, o “Fenômeno” reside no Brasil!  É um ex-atleta em inatividade desde 2002, para me valer, de modo distorcido, de uma expressão de Tostão – hoje o único crítico, da área, agudo, sério, do país. O futebol brasileiro vive do passado. Ronaldo Nazário não chega aos pés de um Garrincha – alcoólatra e fumante inveterado desde os doze anos – que morreu pobre e segue como “o” mito – um mito, uma força da natureza, irrepetível. O futebol brasileiro revelou talentos e invenções táticas de 1958 a 1970. Depois, transformou-se numa rotina: de vez em quando aparece alguém que, dentro do campo, faz a diferença, porque – enquanto gestão e enquanto “gente” – ele só piora. Há um Romário aqui, um Rivaldo ali. Quantos clubes ensinam os jogadores a ler, a escrever e a falar? Quantos clubes têm assistentes sociais para trabalhar as famílias? O que são esses clubes?

A Lei Bosmann serve aos interesses de recolonização da América Latina pela Europa. O exemplo é o Barcelona, que vende seus produtos aqui mais do que muitos clubes locais. Exemplo é igualmente a venda de jogos até de campeonato francês para a televisão !!! Lei Pelé? Lei Zico? Estatuto do Torcedor?  Ecos provincianos e instrumentalizados do movimento de desregulamentação do capitalismo global inaugurado por Richard Nixon em 1970. Clubes endividados são ideias para se tornarem lavanderias de dinheiro. O consumidor de futebol é um fraudado por fatalidade no Brasil. Jogadores drogados e bêbados? São idéias para os interesses dos “managers”, dos treinadores e da imprensa. Ao saudar o aparecimento de Garrincha, como um salvador da pátria naquele momento (anos 50), Nelson Rodrigues (1912-1980), o melhor dramaturgo brasileiro, observou que “o futebol é a mais feia, mais cruel, a mais teneborasa das paixões”. Hoje, a paixão é a paixão dos desvalidos, dos desempregados, a massa de manobra dos “empresários”, dos “dirigentes”. O futebol – como um todo – é canalha. É o capitalismo mais selvagem, a destempo.





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